Rescaldo


Sérgio de Almeida Correia,

A notícia que desde esta manhã tem vindo a ser divulgada pelos jornais e agências internacionais, dando conta de mais uma agressão da Coreia do Norte à Coreia do Sul, só por si justificaria o entendimento a que os USA, os seus aliados no seio da Aliança e a Rússia chegaram no passado fim-de-semana.

Independentemente das razões que no passado conduziram à intervenção militar das forças da NATO, certo é que a adopção de um novo conceito estratégico não só vem dar um novo fôlego à organização como constitui um estímulo acrescido à cooperação entre todos aqueles que anseiam viver num mundo menos conflituoso, onde a paz e os valores da liberdade e da democracia constituam o alfa e o ómega da cooperação internacional.

As circunstâncias em que o país vive, com uma crise económica, financeira e social como já não há memória, e que só não é já também política porque o Presidente da República não esteve para alinhar com o coro daqueles que colocam os seus interesses conjunturais à frente do interesse nacional, retiraram muito do brilho que a deslocação a Lisboa da elite dos líderes mundiais lhe poderia ter conferido. Quem está preocupado com a renda da casa no final do mês ou o pagamento da escola dos filhos, porque acabou de ser despedido ou está para sê-lo, tem mais que fazer do que preocupar-se com o futuro da Aliança Atlântica ou com as relações USA/Rússia.

Em todo o caso, agora que a poeira começa a assentar e a vida por momentos parece regressar à normalidade (amanhã será dia de greve geral), será justo salientar o bom trabalho da diplomacia portuguesa. Uma entrevista inoportuna ao Expresso ou as dificuldades de circulação em Lisboa e arredores não são naturalmente suficientes para ensombrar esse belíssimo trabalho de equipa.

Verdade é também que o papel que Portugal neste momento desempenha na cena internacional tem tanto de consentido quanto de desejado pelos seus parceiros, mas é desse equilíbrio de vontades e interesses que a diplomacia vive. Sem ele o êxito nunca seria possível.

Alguns dirão que o nosso papel foi o de servirmos de meros anfitriões e de mestres de cerimónias, funções em que Durão Barroso e José Sócrates já demonstraram serem exímios. Não custa admitir que em parte assim terá sido, embora a mim me pareça que desta vez conseguimos ser um pouco mais do que isso.

Gostaria, por isso mesmo, de salientar o trabalho, no conteúdo mas também no estilo e na forma, desenvolvido pelo nosso embaixador na NATO. João Mira Gomes representa hoje aquilo que de melhor a diplomacia portuguesa consegue produzir. O excelente trabalho diplomático que ele e outros como ele desenvolveram não tem tido equivalente a nível interno no que é executado pela nossa elite dirigente. A forma discreta, empenhada, competente e aparentemente pacífica como tudo isso tem sido conseguido, seja no seio da UE, dos PALOP, da ONU ou, como ainda agora aconteceu, com a cimeira de Lisboa, devia ser tema de reflexão. E, no caso dele, bem se poderá dizer que não foi uma apagada passagem pela assessoria diplomática do Governador de Macau ou um lugar de secretário de Estado num governo do qual já poucos se lembram que lhe retiraram qualidades. Oxalá que Portugal possa continuar a contar com ele. Se possível em funções de cariz mais político.      

2 comentários em “Rescaldo”

  1. É de elementar justiça esta referência que fazes ao João Mira Gomes. De resto, este foi mais um êxito de toda a equipa liderada por Luís Amado, na sequência do semestre da UE sob a presidência portuguesa e a eleição de Portugal para o Conselho da Segurança da ONU.

    1. João Mira Gomes tem, para além de tudo o mais, uma grande virtude: não sofre da afectação tão típica e estupidamente snob que caracteriza alguns dos que frequentam os mesmos meios, e isso também se reflecte nos resultados alcançados.

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