Fui vê-lo ontem, “O filme do desassossego”. No antigo cinema Carlos Manuel, em Sintra (onde vi o meu primeiro filme), que se chama agora Centro Cultural Olga Cadaval. É uma bela sala de espectáculos, mas já não de cinema. Ontem, excepcionalmente e de casa a abarrotar, abriu as portas para o filme de João Botelho. Perdão, para o filme de Fernando Pessoa. Perdão, para o filme de Bernardo Soares. Perdão, para o filme de Cláudio da Silva. Perdão, para o filme de todos os que se questionam e se torturam com mil perguntas sem resposta. Ou com respostas a mais. Foram duas horas de puro desassossego, de puro encantamento. Fotografia sublime. Magníficos e inesperados planos de Lisboa (perguntamo-nos como é que nos tinham escapado, tão óbvios e tão gritantes que nos aparecem no filme), num jogo de luz e sombra que está na génese do próprio conceito de cinema, como generosamente nos explicou, antes da sessão, o próprio realizador: “O cinema é só um jogo de luz e de sombras, com personagens no meio a tentarem fugir das sombras para a luz”. Curiosíssima definição de cinema, a prenunciar uma noite especial. Depois, uma sonoplastia clara e poderosa, ainda mais inesperada (porque terão sempre os filmes portugueses tão mau som?), povoada de vozes estranhas e belas que ousam interromper, por momentos, o monólogo lancinante de um cérebro que não descansa jamais. Tudo isto numa delicada e original abordagem, mérito inteiro de João Botelho.
E há, é claro, o texto. Fragmentos, apenas alguns fragmentos de outros fragmentos que compõem um texto demencial, torrencial, genial. Extra-lúcido, como diria Clarice Lispector. O livro do desassossego é “O” livro, o livro de uma vida. Porque não se esgotará nunca, por mais longeva que ela seja. Passar aquela escrita para a linguagem do cinema é tarefa homérica, mais arriscada ainda do que reinventar na tela o mundo encantado de Tolkien. João Botelho consegue-o brilhantemente, ajudado pela interpretação soberba de Cláudio da Silva (liberto do grilhão da parecença física com Pessoa, apresenta-nos um Bernardo Soares convincente e perturbador, simultaneamente agressivo e doce). É o mundo inteiro na rua dos Douradores, e ninguém duvida dessa magia.
Não é a vertigem do pensamento, a clarividência, o que sempre me intrigou mais em Pessoa (sobretudo quando transfigurado em Bernardo Soares). Haverá certamente muitos outros cérebros – considerados loucos, quase sempre – com esse imenso caudal de imagens e sons em conjugação incansável, com essa tortura como privilégio ou maldição. O que me espanta nesta figurinha frágil é a extraordinária capacidade que tinha de, com a mesma velocidade vertiginosa, verter tudo o que sentia e pensava para o papel. E ainda outra: a de conjugar toda essa genialidade com uma vidinha banal e monótona de guarda-livros, cumprida resignadamente e sem falhas. Não fossem essas capacidades invulgares e não teríamos agora milhares de manuscritos, heterónimos riquíssimos e vários mundos novos para desbravar até ao fim dos tempos.
Enfim, não sei quando irá o filme para o circuito comercial. Ou, sequer, se terá esse destino. Mas uma coisa vos digo: se o apanharem a jeito por aí, vão vê-lo e maravilhem-se.

Bem, estava tão desconfiada em relação a este filme,por ter a noção de que verter O Livro do Desassossego para cinema é muuuito arriscado… Mas o teu elogio, tão cheio de entusiasmo, deu-me esperança. Será que vou gostar?
Oh, Teresa, eu sou de paixões… 😉
Gostei imenso do filme e tiro o chapéu a quem se atreveu a fazê-lo. Mas não me parece que haja possibilidade de meios-termos: ou se ama ou se odeia. Falei com várias pessoas que não gostaram nada. Mas nisto, como em tudo o mais, vale a pena ver para ter uma opinião. E o Cláudio Silva é tão bom que a interpretação vale o filme, mesmo que não se goste de mais nada. Vai vê-lo, se puderes.
Um comentário maravilhoso da Ana. Mais palavras para quê, não parece um filme português…
Obrigada, João. E espero que também goste do filme, se ainda não o viu. Não parece um filme português, de facto.
Esta ideia avessa a uma distribuição normal, por parte do realizador, fez com que eu não tivesse ainda conseguido vê-lo. Mas gostaria de perceber como é que um “não livro” se transforma num filme. Ou deveria dizer antes num “não filme”?
Talvez seja mesmo um “não filme”, Ana. Seja como for, é só (e não podia deixar de ser) uma ínfima parte do “não livro”. Mas concordo consigo quanto à ideia peregrina da “não distribuição”, que estranhamente faz com que o filme deixe de ser acessível a muita gente.