O ensino das línguas estrangeiras


eventhorizon,

A pequena polémica sobre o spoken engrish de José Sócrates pode ser um excelente ponto de partida para uma discussão muito interessante e, na minha opinião, muito importante. Não sei se alguém fala nisso, mas a verdade é que os programas curriculares de línguas estrangeiras do ensino básico e secundário não permitem aos alunos aprender a falar esses idiomas. Nem o Inglês, língua que goza de uma série de factores que creio facilitarem imenso a sua aprendizagem (a opção por legendagem nas séries e filmes, ao invés da dobragem). Ora se isto nem acontece num idioma com o qual todos contactamos desde tenra idade, como pode acontecer em idiomas menos presentes, como o Francês? Falo no Francês, entenda-se, porque no meu tempo era a segunda língua dos programas escolares. No meu caso, foi a primeira: tive Francês do quinto ao décimo-primeiro ano (sete anos, com sete níveis correspondentes), e Inglês do sétimo ao décimo-segundo (seis anos, seis níveis). A verdade é que, ao longo desses sete anos de língua francesa e seis anos de língua inglesa (durante os quais, com uma excepção no nono ano a Inglês, tive sempre professoras boas ou muito boas), nunca houve um treino metódico e intensivo para que aprendêssemos a falar aquelas línguas. Havia exercícios de gramática (imensos), de vocabulário. Escrevíamos redacções (raramente textos livres). Líamos textos. Falava-se o básico no idioma em estudo com a professora – mas apenas isso, o básico. Com sete anos de excelentes notas a Francês, acabei o Secundário incapaz de me exprimir com um mínimo de fluência na língua francesa; e o mesmo não aconteceu com o Inglês porque aprender a ler, escrever e falar correctamente Inglês foi um objectivo pessoal que estabeleci no décimo ano e que resolvi sozinho, nos meus tempos livres – e tudo graças aos meus gostos mais ou menos geek, quem diria.

Confesso que nunca tinha pensado nisto até ter passado umas férias em casa de amigos na Dinamarca. Amigos dinamarqueses, entenda-se, com filhos mais novos que eu. A mais nova, com treze anos na altura, já falava inglês quase tão bem como eu. As duas filhas mais velhas do casal, à época com 15 e 17, falavam inglês com absoluta naturalidade. Quantos adolescentes em Portugal dominam a língua inglesa?

Regressando a Portugal: a verdade é que chegam todos os anos às universidades imensos alunos incapazes de manter uma conversa ou escrever num idioma estrangeiro – falo no Inglês porque é o mais comum nos dias que correm. Mais grave: temos alunos a acabar cursos universitários exactamente nas mesmas condições [por favor: tive colegas de turma que acabaram Jornalismo (!) quando eu acabei e eram incapazes de chegar à terceira frase em Inglês; talvez até fossem a maioria]. No desastre que é o ensino em Portugal, fala-se muito do Português e da Matemática e perde-se imenso tempo em redor da famigerada “educação sexual”; mas não vejo ninguém referir o descalabro no ensino das línguas estrangeiras. É pena, pois faz falta. Como o nosso primeiro-ministro tão bem demonstrou.

43 comentários em “O ensino das línguas estrangeiras”

  1. Meu caro João,
    Suponho que, tal como eu, não tenha conseguido as suas habilitações literárias, no caso especifíco na área linguística, através de um “exame” feito através do fax, pois não?
    Essa também é uma vertente muito imporatante da questão.

  2. Eu acho que, realmente, quando se tem “professoras boas e muito boas” a inglês, como o João teve, a educação sexual é perfeitamente supérflua.

    Infelizmente, nem toda a gente teve professoras boas. Eu, por exemplo, num colégio de padres, só tive direito a um professor de sotaina.

    1. O texto não incidia sobre a educação sexual, mas sobre o ensino de idiomas estrangeiros. Mas se quer falar disso: a minha educação sexual resumiu-se a uma sessão de esclarecimento na escola, conduzida por uma médica do centro de saúde da vila, sobre doenças sexualmente transmissíveis e métodos contraceptivos. Sim, considero a educação sexual enquanto disciplina francamente secundária face à Matemática, ao ensino da língua portuguesa e de idiomas estrangeiros, à História, à Geografia, às Ciências. Até ao nono ano, não há nenhum motivo para que a educação sexual não esteja diluída nos conteúdos de Ciências da Natureza, ou lá como se chama a cadeira.

      Sobre isso das professoras boas e muito boas, diria que o Luís percebeu o que eu queria dizer, mas deu-lhe para a brincadeira. Apesar de uma ou duas excepções, não tive grande sorte nessa matéria.

  3. É um facto que os escandinavos (e talvez os holandeses) começam a aprender inglês na escola primária. Isso dá-lhes uma grande vantagem nessa língua que, ainda por cima, é “prima” das deles. Mas tenho a dizer que, com a eventual excepção dos belgas (e não é certo porque de uma maneira geral detestam de tal modo aprender a “outra” língua oficial obrigatória que nunca chegam a adquiri-la no ensino oficial), não conheço nenhum outro povo que chegue ao fim do ensino obrigatório com as competêcias básicas em duas línguas estrangeiras. Não é perfeito, mas é o suficiente para arrancar em boas condições em caso de necessidade ou particular interesse (como foi o seu caso com o inglês, e também o meu apesar de só ter tido 3 anos no liceu). Talvez nos últimos anos tenha havido um esforço semelhante ao português em outros países (ainda ontem li no Eurostat que quase 80%das crianças europeias estudavam 2 línguas estrangeiras na escola primária em 2008), mas isso ainda não se exprime de todo a nível dos adultos, que normalmente só têm uma língua estrangeira (pelo menos os “europeus de oeste”, que os outros talvez tenham também alemão ou russo).

    1. Os belgas, se me permite, não são exemplo para ninguém: com raras excepções, ou falam um idioma nacional ou falam outro. Ignoram-se olimpicamente, do ponto de vista linguístico (e não só).

      1. Da minha experiência, os flamengos falam quase todos o francês mas os valões raramente falam o neerlandês. Como falo ambas as línguas acabo por me aperceber disso, mas é bem verdade que, com a falta de vontade de um lado e do outro, isso raramente é notório.

    2. Gosto muito deste raciocínio. “Os nórdicos fazem isso, mas os outros não, logo, não há problema por não fazermos”. Sempre acreditei que os melhores exemplos deviam ser seguidos, mas cada vez mais me convenço de que isso em Portugal é uma perda de tempo.

      1. Ao que parece, devia ter sublinhado a negrito o ponto fundamental do meu comentário: os nórdicos falam efectivamente bem inglês como língua estrangeira, mas UNICAMENTE inglês. Ao contrário dos portugueses que acabam o ensino obrigatório a falar, ou pelo menos a ser capazes de adquirir rapidamente, duas línguas estrangeiras. O que é uma raridade na Europa ocidental que eu, que ganho a minha vida nisto, considero uma vantagem que não é de somenos precisamente porque o saber duas línguas estrangeiras é que faz a diferença.

        1. Nenhum aluno acaba o ensino obrigatório a falar – porventura até a escrever – minimamente o inglês (ou o francês ou o alemão) se depender apenas e só desse ensino obrigatório – quanto mais duas línguas estrangeiras. Isto para o público – não sei como é no privado, na minha terra não há disso.

          Os nórdicos, sim, falam unicamente o inglês, em termos gerais, mas falam-no muito bem. Nós não sabemos duas línguas estrangeiras – era bom. Nós, no limite, desenrascamo-nos em duas línguas estrangeiras. O que serve para muita coisa, mas não é suficiente. Eu ir a Espanha e fazer-me entender para pedir um café em Madrid ou perguntar em Barcelona como chegar às Ramblas é completamente diferente de conseguir manter uma conversa em castelhano. E quem diz castelhano dirá francês ou alemão. Não é por acaso que eu, com familiares franceses, acabo sempre a falar inglês. E não é por não ter feito o ensino obrigatório com francês, e com excelência.

          Nós por cá damos muito valor ao “desenrascar”, mas talvez o conceito seja algo sobrevalorizado.

  4. Olá! Sou professora duma língua estrangeira. Não sei se o João está a par ou não, mas de qualquer das formas partilho consigo um pouco do que sei.
    Dou aulas há vinte e dois anos e aprendi Inglês e Francês da mesma forma que você.
    Hoje em dia a didáctica da Língua Estrangeira está muito diferente, é orientada pelo Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas que se propôs nivelar o ensino de línguas estrangeiras na Comunidade Europeia e colmatar as falhas que aponta, ou seja preparar os alunos para entenderem e se fazerem entender numa língua estrangeira. Ou seja a competência comunicativa é agora a privilegiada. Aqueles exercícios gramaticais intermináveis que se faziam quase desapareceram. A gramática é ensinada mas não é avaliada por si só, nmas integrada nas competências orais e escritas do aluno.
    O grande problema é que a grande maioria dos professores de língua estrangeira aprendeu a dar aulas à maneira antiga e ficou por aí. Acções de formação nesta área que lhes permitam reciclar-se são raras. Outras vezes custa muito mudar práticas duma vida.

    1. Muito obrigado pelo seu precioso contributo. De facto, desconhecia a mudança que menciona; se assim é, fico bastante satisfeito. Já quanto à “reciclagem” dos professores, pois, compreendo que seja uma área particularmente problemática. Mas é importante superá-las.

    2. Já antes do Quado Europeu, a gramática era um suporte da comunicação. Deve ter acabado como um fim de estudo em si mesmo lá pelo Método de Gramática-Tradução e teve o seu auge na Aboradagem Comunicativa, portanto não é novidade do Quadro Europeu. A grande novidade são mesmo as competências e os níveis de proficiência.

  5. Portugal, nesta matéria, tem bons motivos para se orgulhar. Vão longe os tempos em que Mário Soares fazia sorrir plateias com o seu francês arrevezado (apesar de ter vivido alguns anos em França). Políticos como Durão Barroso, António Guterres e Jorge Sampaio – e, antes deles, Freitas do Amaral – ocupam altos cargos a nível internacional e exprimem-se com fluência em vários idiomas. Bem melhor do que Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, ou Javier Solana, anterior responsável pela diplomacia europeia.
    Não devemos ter complexos neste domínio. Segue uma comparação que merece ser sublinhada: dos cinco primeiros-ministros espanhóis desde a restauração da democracia, há 35 anos, apenas um – Leopoldo Calvo-Sotelo, que exerceu o cargo entre 1981 e 1982 – falava outra língua além do castelhano. O próprio Zapatero não vai além da lingua “madre”…
    Devemos, isso sim, libertar-nos de um certo temor atávico (os portugueses e os seus perpétuos temores…) de só falarmos um idioma estrangeiro se tivernos a certeza de o fazermos de forma perfeita, sem sombra de sotaque. A língua inglesa é hoje falada em todo o mundo com os mais variados sotaques, como bem testemunhei nos anos em que vivi no Oriente, e ninguém deixa de a falar por causa disso. O francês ‘descontraído’ de Soares acabava, no fundo, por ser um bom exemplo´para o eterno acanhamento dos portugueses.

    1. Pedro, eu concordo em parte. É evidente que ninguém nasce ensinado, e temos de começar a falar mal para um dia sermos capazes de falar bem (eu também aprendi a falar inglês assim, a dar muitas calinadas – ainda dou algumas). Mas não acho que sejamos um bom exemplo, ou que tenhamos motivos para nos orgulhar nessa matéria. Receio que os exemplos de Barroso, Guterres e Freitas do Amaral sejam excepções, e não a regra. Uma vez mais, relembro a realidade que conheço. Pode não ser amostra, mas não augura nada de bom.

      Quanto à comparação com os espanhóis, Pedro: é verdade, tens razão, mas continuo a defender que temos de nos comparar com os melhores, e não com os piores. Pode ser ingenuidade da minha parte – acredito que seja -, mas ainda acho que essa é uma ingenuidade que pode valer a pena.

      1. Creio que se devem separar os planos: uma coisa é uma pessoa normal, numa situação normal, perder o acanhamento e começar a falar uma língua estrangeira. Prima a comunicação e entre gestos e calinadas a mensagem passa; outra coisa é uma pessoa com uma qualidade oficial e que representa um país. Neste último caso, ou fala bem uma língua estrangeira ou não fala de todo e fica-se pela língua-pátria. Os desenrascanços podem ser confrangedores…

    2. Completamente de acordo. Falo hoje 6 idiomas (contando o português) precisamente porque sempre arrisquei falá-los mesmo que não os dominasse completamente. A prática ajuda a limar as arestas. É por isso que me arrico a dizer que falo o castelhano/espanhol e não o portunhol, por exemplo.

      Também ajuda a complementar os conhecimentos da língua. Os meus conhecimentos de francês (que tive do 7º ao 9º ano) devem muito a uma fabulosa professora (do 9º ano) e a umas férias no Algarve onde passei duas semanas quase ininterruptamente a falar francês com dois franceses e dois belgas que estavam no mesmo parque de campismo (outras histórias que envolveram esse interesse em falar com eles – e irmãs – eram apenas escárnio de invejosos, asseguro).

      1. Caro João, como é evidente, tem razão. Por exemplo, o meu inglês falado tem como única fonte um jogo online, ao qual joguei ininterruptamente durante cinco anos com gente de toda a Europa (literalmente, e de todas as idades), a falar praticamente todas as noites por Skype (ou programas similares) enquanto jogávamos – eu disse que a coisa tinha origem geek. Obviamente a comunicação entre gente de países que vão da Islândia à Grécia e de Portugal à Finlândia só pode funcionar em inglês (para além de que o facto de não ser comunicação presencial, mas ainda assim falada, também ajuda os mais tímidos a se desinibirem). A prática leva à perfeição, naturalmente.

        Mas com amigos espanhóis e com familiares franceses só consigo falar em inglês. No francês tenho as bases, mas falta-me alguma prática para começar; no espanhol, não tenho nem bases nem prática.

        Também tive bons professores. Do décimo ao décimo-segundo tive uma professora de inglês extraordinária. Mas na forma como o ensino das línguas funcionava no meu tempo, um bom professor não era suficiente.

  6. João, depois de fazer o doutoramento numa universidade holandesa com colegas de várias partes do mundo (e de todos os continentes), de trabalhar numa empresa holandesa onde quase toda a gente era holandesa e agora trabalhar numa universidade alemã (onde a língua oficial não é o inglês, mas o alemão), garanto que Portugal não está tão mal quanto isso.

    É um facto que os portugueses que vou encontrando por fora do país são normalmente identificáveis pelo sotaque, mas isso nada nos distingue dos restantes países (os holandeses, escandinavos, alemães, italianos, etc, etc, etc) todos têm sotaques bem distintitos. Ninguém nasce ensinado e convém lembrar que, por muito que se pratique oralmente a língua na escola, fazêmo-lo sempre com pessoas do mesmo país, as quais nasceram e cresceram usando o mesmo tipo de sons (típicos da língua) e que não servem para todas as línguas (raras são as pessoas, seja em que país for, que consigam reproduzir o “th” inglês, o “ch” alemão, o “g” holandês, o “ão” português ou os dois “tch” das línguas eslavas). Pessoalmente continuo a ter problemas com o “r” enrolado da maioria das línguas, o que me faz ser frequentemente visto como francês.

    Uma enorme vantagem, e muitíssimo bem apontada no texto, é a existência de legendagem na televisão e no cinema. Permite o contacto com as línguas originais e isso ajuda a educar o ouvido e apanhar muito vocabulário. Não é de estranhar que os países que têm sotaques mais facilmente identificáveis sejam países com dobragem (Espanha, França, Alemanha, Itália). Por outro lado, a dobragem existe habitualmente nos países maiores, onde há mais gente disponível para a fazer e é possível um actor fazer não mais que duas ou três vozes ao longo da sua carreira.

    Conclusão, se alguma? Os portugueses são das pessoas que mais facilmente têm aprendido línguas. Isso devido ao contacto com a língua pelos media, a uma língua (português) com grande variedade fonética (o número de vogais fonéticas do castelhano é consideravelmente menor que o do português, por exemplo) e os portugueses, sendo mais expansivos por natureza, têm habitualmente menos pruridos em arriscar a língua, mesmo que aos pontapés.

    Por outro lado há menos ingleses a falar bem a língua do que estrangeiros. Pelo menos fora de Inglaterra.

    1. Podemos não estar assim tão mal – certo. No entanto, podemos melhorar, e muito. Eu sei – por aquilo que ouço – que os portugueses têm uma enorme capacidade de adaptação, e que aprendem com relativa facilidade outros idiomas. Mas isso não quer dizer que o ensino das línguas estrangeiras por cá não possa melhorar, e não possa preparar melhor os alunos para que, finda a educação básica e secundária, eles consigam pelo menos um elevado desempenho no “desenrascanço” em inglês – e, se possível, noutro idioma. É apenas esse o meu ponto.

      É evidente que uma língua estrangeira só se aprende na perfeição quando vivemos rodeados por ela, se me faço entender (deve haver uma forma melhor de colocar isto). As legendas dão-nos uma enorme vantagem face a muitos outros países europeus.

      Os sotaques são outra coisa – e, francamente, o problema de Sócrates (a origem deste debate, no fundo) não é só o sotaque 🙂

      E sim, há sons irreproduzíveis. Curiosidade: é precisamente por esse motivo que há imensa gente que me chama “John” (por isso e por João ser um nome tão comum que no meu grupo de seis amigos lá da aldeia, há três – houve sempre alguém na terra a chamar-me “John”), e porque nenhum dos meus amigos estrangeiros consegue dizer o “ã”. Logo, em vez de os ver a torturarem-se para não fazerem mais do que “Juáu” ou “jóao” (etc), sempre lhes disse para me tratarem por John. Assim como assim acabamos por falar em inglês, pelo que se torna irrelevante 🙂

      1. Isso do João dava um blogue, mais que cum comentário ou um post. Estou habituado às versões “juau” (a melhor), “jau”, “jaoa” (não perguntem), “jao” (com o “j” dito à espanhola), “iáu” (versão holandesa) e ao “ioau” e sei lá que mais.

        Aliás, o “iáu” é o mais divertido na Holanda, porque o som é igualzinho à palavra holandesa para “teu” ou o “tigo” de “contigo”. De maneira que a início, antes de falar a língua, acabava por estar a virar a cabaeça a cada dois minutos a pensar que me estavam a chamar…

        Ainda assim prefiro o meu nome mal dito do que o “John” (ou “Joe”, como tentaram umas colegas de casa alemãs no passado). Um amigo meu polaco (que se chama Szymon) vai pela opção oposta. Prefere que o tratem por “simon” à inglesa em vez de lhe torturarem o nome (eu uso o bom português “simão” e ele gosta).

        1. Dava um blogue, de facto, mas se quer que seja sincero, estou a gostar muito desta discussão.

          Lá está, são preferências. Eu estou habituado desde miúdo a ter quem me trate por “john” ou “johnny” (coisas lá da aldeia), pelo que não estranho. Não me incomoda o “juau”, mas não quero ninguém a desencaixar um maxilar por minha causa..!

  7. A experiência diz-me que os alunos globalmente dominam o Inglês, João, e que em situação conseguem estabelecer uma conversa de jeito. Já fui várias vezes com os meus alunos a Inglaterra e à Escócia e a experiência foi muito gratificante por ver que tem Inglês suficiente para serem autónomos.
    O ‘problema’ do Inglês, mais uma vez começa no Básico. No 3º Ciclo os alunos podem ter Inglês apenas uma vez por semana, se a Escola assim decidir e ter mais horas de outras disciplinas. Contudo, não me parece que seja assim tão mau, mas reporto-me à minha experiência.

    1. Acredito, Leonor. Nestas coisas baseamo-nos sempre na experiência. A minha, por exemplo, não é a mais favorável, quando penso em algumas situações. Mas, muito sinceramente: espero bem estar enganado! Ou antes, espero bem que as coisas estejam a mudar, e que o nosso ensino seja cada vez melhor (nas línguas, na matemática, nas ciências…).

      1. A carga horária diz tudo: 90m + 45 é muito pouco quando se inicia uma língua. Na Formação Específica do Curso de Línguas e Humanidades, o Alemão Iniciação ou Francês Continuação (pode também ser Espanhol) tem dois blocos de 90 minutos e um de 135, que desdobra a partir dos 15 alunos. Uma coisa eu sei, os alunos vêm agarrados à gramática, com problemas de auto-estima e medo de falar no Inglês Formação Geral.

    2. No terceiro ciclo os alunos têm Inglês 2 vezes por semana divididos da seguinte forma: 90m + 45m.
      A única Língua Estrangeira que têm uma vez por semana é a de segunda escolha (Francês ou Espanhol) e apenas no 9º ano, porque no sétimo e oitavo têm a mesma c arga horária que o Inglês.

      1. Então a carga horária mantém-se mais ou menos na mesma, se a memória não me falha. Só que no meu tempo não havia ainda aulas de 90 minutos, e apenas em algumas disciplinas (em Humanidades, apenas Português) havia 50m+50m seguidos num dia.

        Não havia era no básico a opção de Espanhol – a segunda língua era o Francês (ou, no caso dos alunos chegados ao sétimo ano vindos das EBM – os saloios das aldeias, como eu -, o Inglês). No Secundário, já havia a possibilidade de se estudar Alemão, mas de facto nunca houve Espanhol lá na zona. Não sei se já há, mas será algo a perguntar a algum dos meus antigos professores.

        1. Bem… Eu que também era saloia duma aldeia tive francês no 2ºciclo :-))
          Agota toda agente tem Inglês no 2º ciclo. O espanhol é que começou a tomar o lugar ao Francês. Na minha escola é escolhido sobretudo porque é muito mais fácil que o francês. Mas penso que seja uma moda que já atingiu o seu pico. O Francês já ganha terreno de novo.

      2. Precisamente. Alguém me diz como é que alguém aprende uma língua com um bloco semanal? Nos níveis mais elementares deviam sempre ter três blocos de 90 minutos. O segmento de 45 minutos isolado é uma falácia, não serve para nada nos tempos que correm. Com turmas de 28 alunos é óbvio que a maior parte não fala. E, como já tinha dito, um bloco de noventa minutos no nono ano é um absurdo.

  8. Eu fiz a escola pública toda do princípio ao fim, que no meu tempo implicava 7 anos de francês e 3 de inglês. O ensino era o mais escolar possível, tempos primitivos dos verbos e tudo o mais, nunca ouvi uma lição em cassette nem nada dessas modernices. Graças aos Tintins e Astérix lá de casa, acabei com um francês perfeitamente “proficiente” (é aqui que entra o “interesse”, que é fundamental para aprender uma língua). Os 3 anos de inglês (2 horas por semana) não chegaram, mas um ano numa dessas escolas de línguas estilo British Council foi o suficiente para me dar pernas para andar.

    Os meus sobrinhos também fizeram o liceu público e o inglês deles é perfeitamente razoável. O francês é bastante mais fraco, mas se calhar também lhes bastava fazer o que eu fiz com o inglês… se tivessem o interesse que eu tinha no assunto, claro.

    Passei a minha vida profissional praticamente toda no estrangeiro (França e Bélgica) e uma boa parte num ambiente multicultural. Tenho vários amigos suecos cujo inglês (aprendido na escola primária) é excelente, mas a segunda língua é praticamente inexistente. Isto é que é a regra, e o comum dos portugueses sobressai pela capacidade de comunicar em duas línguas estrangeiras, o que não é de todo vulgar. Se há coisa de que não nos podemos queixar na comparação “lá fora” é no ensino das línguas.

    É claro que seria óptimo que os nossos miúdos falassem tão bem inglês como os miúdos escandinavos. Mas na minha experiência, aprender duas línguas menos mal é um enorme trunfo: primeiro, porque quanto mais línguas se aprende mais fácil é aprender as seguintes; segundo, porque em terra de zarolhos, quem tem dois olhos é rei.

    Outra coisa completamente diferente é o mau “estrangeiro” de um primeiro ministro. Enquanto que eu acho que, mesmo mau, é infinitamente melhor do que nenhum em privado (várias vezes li referências às dificuldades pessoais entre o Kohl e o Miterrand que tinham alguma coisa a ver com a incapacidade de comunicarem directamente um com o outro), parece-me evidente que, em público, deve falar de preferência a sua língua e recorrer a um intérprete (como Sócrates fez nas Nações Unidas, claro). Como não segui esta anedota, não sei se a Universidade de Colúmbia lhe pôs ou não um intérprete à disposição (é possível que não); se não pôs, é possível que ele tenha considerado preferível falar um mau inglês do que não falar de todo, o que eu, pessoalmente, acho defensável. Não fosse a triste história do Inglês Técnico tirado ao domingo, a coisa telvez tivesse passado despercebida. Mas… cá se fazem cá se pagam!

    Por duas razões: quanto mais línguas se aprende, mais fácil é aprender outras e, portanto, ter duas à partida facilita imenso as coisas ; segundo, porque um inglês razoável muita gente tem

    1. No caso do ministro sou um pouco mais intransigente. Acho que ser fluente em apenas uma língua estrangeira é pouco – mas, vá lá, seria o mínimo. E considerando a figura que fez – o engrish mais o tiro ao lado no humor -, mais valia ter falado em português (não acredito que não houvesse tradução simultânea). Sócrates é um bom alvo, sim, mas diria o mesmo se fosse outro qualquer primeiro-ministro português.

      É evidente que o interesse é fundamental. Eu mesmo o admito – para mim, foi esse interesse que me levou a aprender inglês. Entendo-me com algumas leituras em Francês, mas para falar não dá. Ainda. Espero arranjar forma de, um dia, me esgueirar uns tempos para França e resolver essa falha (até porque gosto imenso de Francês).

      E continuo a achar que, ainda que a situação não seja tão má como a pintei (como disse noutro comentário, espero estar errado), que no caso concreto do ensino do Inglês temos muita margem para melhorar, sem desvalorizar a aprendizagem de uma segunda língua, que considero fundamental. Só gostava de evitar aquilo que vi durante os meus anos de universidade. No resto, obrigado pelo contributo, cara Isabel (se a minha réplica de manhã foi mais “torta”, peço desculpa; hoje, mais do que nunca, comecei o dia com o pé esquerdo).

      1. Continuo a estar convencida de que em matéria de capacidade de comunicar em “estrangeiro”, os nossos ministros são umas estrelas no firmamento europeu (juntamente com outros de vários países pequenos, aliás). Coisa que é bastante útil dum ponto de vista pessoal, mas não diria que faz parte dos requisitos essenciais. Eu penso que o João sobrestima um pouco as capacidades linguísticas do ministro médio 😉

        Mas reconheço que o multilinguismo às vezes dá jeito: ainda há pouco li qualquer coisa sobre a famosa pega entre o Sarkozy e a Comissária luxemburguesa em que se comentava o facto de ela ter feito a sua alocução em inglês, dando como hipotética justificação o facto de uma língua estrangeira “adoçar” a coisa. Eu dei uma gargalhada porque ia jurar que a língua escolhida pela Comissária luxemburguesa para se dirigir ao Presidente francês fez parte do insulto, e muito deliberadamente…

        Por outro lado, na minha experiência, um portugês decente é um requisito essencial e já não chegamos lá. Tive uma vez uma troca de telefonemas com o gabinete de um ministro que pretendia que “the Southern borders” fossem “as fronteiras sul” em vez das “fronteiras meridionais”. Bem me matei a tentar explicar que meridional era o adjectivo de Sul, a menina bem se lembrava do pai a dizer “sul, meio-dia ou meridião”… mas Almada fica na margem sul, não é? Naquelas cabeças iluminadas, meridional era menos português, sabe-se lá se não iria incluir Marrocos!

        1. Eu não conheço os dotes linguísticos do ministro médio. Já houve muito bons – Barroso, Guterres – e muito maus – Sócrates. Espero sinceramente que sejam os primeiros a fazer escola, e não o segundo (já nos dotes de governantes, estão todos bem uns para os outros, para mal dos nossos pecados).

          Não sabia desse episódio bilingue entre a comissária (Viviane Reding?) e Sarkozy. Mas não dou razão à comissária, se foi intencional: que diabo, o francês é uma língua interessante, e para praguejar e insultar é imbatível!

          Ah, o português… isso são outros quinhentos, como se costuma dizer…

          1. Ah, o francês é uma língua muito interessante, e as pragas do Capitão Haddock muito coloridas. Mas faz alguma ideia do insulto que é para um Presidente francês que uma Comissárioa luxemburguesa (praticamente francófona, portanto) escolha a língua inglesa para lhe pregar uma descasca? O estatuto internacional do inglês é um espinho cravado na garganta dum galo francês como o Sarkozy… e dos seus compatriotas como pode ver aqui se quiser treinar o seu francês:

            http://bruxelles.blogs.liberation.fr/coulisses/2010/09/la-col%C3%A8re-anglophone-de-viviane-reding.html#more

            Isto das línguas tem muito que se lhe diga… 🙂

            (E já agora, uma coisa que me esqueci de acrescentar há bocado: nós estamos tão habituados à ideia de que ninguém nos entende se falarmos a nossa língua que subestimamos o etnocentrismo anglo-saxónico, por exemplo. Não tenho particular simpatia pelo nosso Primeiro, nem ele me encomendou a defesa, mas eu aposto que nem passou pela cabeça da Universidade de Columbia organizar tradução simultânea de português para inglês).

  9. Eu pitucha acho fundAmental saber falar e escrever o ingles eo frAnces mas ha opinioes diferentes claro depoi deter estado nos estados unidos e que vi como me foi util saber bem o ingles e o frances… Foi muito bom! Beijinhos para todos da. Pitucha

  10. Aqui leio críticas às línguas estrangeiras faladas pelos portugueses, com razão, é certo. Mas por outro lado, os portugueses são um dos poucos povos que dominam vários idiomas nos países para onde emigram. Ao contrário do muitos países que não ligam tanto a isso.

    É certo que os métodos de ensino do passado nunca foram eficazes não só nas línguas estrangeiras, como em outras disciplinas. Actualmente, vejo os jovens a dominarem melhor o inglês; mas não acredito que seja por aprender esse idioma mais cedo na escola primária, mas sim porque estão ligados globalmente a essa língua, através de outros meios, como a Internet, e redes sociais.

    Por outro lado, sempre existiu na sociedade portuguesa e no mundo, analfabetismo funcional, em que a pessoa sabe ler e escrever, mas não sabe interpretar o texto. Isso é grave. Não é de admirar que os professores universitários ficam surpreendidos com a falta de formação cultural dos alunos que chegam do secundário. O ensino está mais virado para preparar o aluno para fins profissionais e não para uma formação cultural enriquecida. Por isso é que assistimos a uma sociedade de ignorantes, conflituosos, invejosos e falsos. Uma das melhores opções é ter hábitos de leitura que lhes permite reflectir melhor sobre a sua vida, bem como o seu lugar na sociedade.

    Aqui fala um indivíduo de 49 anos, que chegou ao 9° ano, mas incompleto, mas com sede de conhecimento, enveredou por outras fontes de saber, e aprendeu mais do que na escola.

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