Afinal, a linha de alta velocidade do Poceirão fica (ou ficava) pelo dobro do preço indicado pelo Ministério das Obras Públicas. O ministro Mendonça, claro, já explicou que há o custo das “acessibilidades” (são os acessos) e outras coisitas de somenos que são inerentes à obra. Ora, precisamente por serem inerentes à obra é que fazem parte do custo da obra, não é? Ninguém ergue um hospital a partir do primeiro andar se o vazio do rés-do-chão não tiver uma escadaria ou um elevador de ligação com a parte de cima (a integrar no orçamento da obra), nem se fabrica vestuário sem operários têxteis (cujo salário faz parte do preço da roupa).
A gente sabe que a mentira está institucionalizada. Mas, por favor, ao menos façam-no com profissionais. Bons tempos em que o conto-do-vigário era uma arte.

João, no que às obras diz respeito, desde que vi um bairro municipal ficar concluído quando se fizeram os arruamentos e se montou a rede eléctrica, isto quatro anos após os primeiros moradores terem as suas casas concluídas, já acredito em tudo – até que é possível fazer uma casa começando pelas telhas. Só é preciso haver dinheiros públicos, um empreiteiro criativo e uma grade de minis.
Mais a sério, agora: já não há necessidade de arte no conto do vigário. Os portugueses já nem ligam às mentiras. Eles são todos iguais, dizem.
Ouve o que te digo, John: o mundo está perdido…
Mas não é o ‘Grande Vitesse’ ele próprio a ‘acessibilidade’?
Dos madrilenos à praia.
Cheira-me que não passa de outra mentira…
Só para fazer notar que, com arte ou sem ela, uma vigarice não deixa de o ser.
É, portanto, aqui assumido que os “bons tempos” eram de vigarice. Gostava era que o assumissem também no Parlamento e em todos os media.
O problema é que há cada vez menos gente capaz de fazer ironia sem descambar…