Ceci n’est pas un post (2)


Ana Vidal,

 

Ponto de fuga

 

Um dia destes ganho coragem e salto a janela. Passo uma perna, sem pressas, sobre o peitoril familiar; depois a outra, talvez ainda mais devagar, avaliando o risco e todas as consequências futuras dessa loucura, uma por uma. Ou então faço tudo de repente, com a urgência dos cobardes e dos desistentes, que se precipitam no vazio porque temem arrepender-se. E porque preferem entregar-se à sorte, pensando que ao menos terão a fatalidade como álibi e o destino como culpado a quem apontar o dedo. Um dia destes aproveito uma qualquer pedrada certeira para acabar com as dúvidas e estilhaçar utopias, feitas dos pálios e das fanfarras que sustentaram no seu pedestal uma ilusão de liberdade. Um dia destes atiro para uma mala todas as lembranças, todas as memórias, todos os sonhos vividos, desejados ou apenas temidos, e levo tudo comigo para a derradeira aventura. Não faltarão cheiros, cores, sabores intensos, sol e chuva, terra e mar, muito mar. Tudo isso irá comigo, porque tudo isso se me colou à pele com os anos e já faz parte de mim. Um dia destes reaprendo a dizer lareira, mesa, pão, vinho, consoada, linho, lã, aconchego. Está decidido. Um dia destes salto a janela e volto para casa.

 

(Imagem -René Magritte)

18 comentários em “Ceci n’est pas un post (2)”

  1. Belo e inspirado texto, de um retorno anunciado.

    Infelizmente Ana, a vida vai-se fazendo de pequenas fugas e constantes regressos, o vidro parte-se mas refaz-se de novo para partir-se novamente, e o tempo passa, porque esse quer lá saber de sonhos e de cheiros, ele tem é de avançar depressa.

    Como a Ana também eu levaria o mar, essa mancha enorme que se cola ao céu e que em pequenos nos faz pensar em limite.

    Que estranho apelo esse, que se sente, mesmo que tenham passado anos, muitos.
    Inexplicável

    1. Obrigada, CR. Concordo consigo: a vida faz-se de partidas (nem sempre fugas) e de regressos (nem sempre rendições). Eu só não diria “infelizmente”, porque é assim que se aprende… a imobilidade é que me assusta.
      Quanto ao mar, recuso partir sem ele e recuso deixá-lo seja onde for, no regresso. Inexplicável, de facto, mas também inexorável.

  2. Como a chave dos nossos sonhos…

    Dessas fugas estilhaçadas
    por utopias e subversões
    ficam ilusões enlaçadas
    das mais desejosas ambições…

    Deixamos sonhos vividos
    tão desejosos de viver,
    deixamos sonhos providos
    de palavras por escrever.

    1. Obrigada pelo carinho de sempre, Luísa. Ainda mais porque vem de quem eu acho quase impossível ficar sem palavras, em qualquer circunstância…
      🙂

  3. Escrever com sentido poético
    ( e é claro que não me refiro à vulgaridade daquele recurso ao véu, piroso e delicodoce, com que se pode atenuar a realidade…)
    E atacar de frente, em simultâneo, as cruas verdades da vida, em toda a sua complexidade brutal
    É arte e manha literária que não é para todos… mas é seguramente para a Ana Vidal.
    Acho que se devia sentar nuns banquinhos de pedra que haverá por dentro dessa janela, agarrados aos muros, e passar…. assim…. um ano inteiro a escrever!
    Merecíamos 🙂

    1. Mas, Chloé, esses banquinhos de pedra no interior das janelas chamam-se “namoradeiras”… quando me sento neles nunca mais me lembro de escrever!
      🙂

      Obrigada. Sempre generosa.

      1. Qual quê! Senta-se num deles e apoia os pés no outro, e escreve com o caderno ou o portátil nas pernas flectidas! Asseguro que resulta…
        (namoradeiras é um nome muito mais giro, e tb já lhes ouvi chamar coscuvilheiras 🙂 – deve depender da casa… :)-, mas eu conheço-os por “sedas”. Um nome desoncertante para os banquinhos de janela mas que vem de há muitos séculos e parece ter raiz em «sedeo, -ere» = sentar-se, estar sentado).

        1. Sedas é um nome delicioso. Eu diria que esses banquinhos de pedra devem ter tido em cima, em tempos que já lá vão, almofadas de seda e de veludo. É uma explicação fantasiosa, claro.

  4. Muito belo, Ana.
    E ou estou a fazer uma grande confusão, ou estive há apenas três dias olhando esse quadro, no Thyssen-Bornemisza, em Madrid. Que las hay…

    1. Las hay, por supuesto.
      É verdade, também já lá estive embasbacada a olhar para ele. E para o enorme Hopper do cimo da escada, que foi outra emoção grande.
      🙂

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