“Não sou daqueles que desistem do investimento nem mudo de rumo face à primeira contrariedade”, proclamava José Sócrates a 1 de Maio, garantindo aos portugueses que o Governo iria “manter-se firme” na defesa do comboio de alta velocidade. Um ano antes, o primeiro-ministro já sonhava que o TGV teria “um impacto absolutamente extraordinário” na economia e no emprego, que se faria sentir já “em 2009 e 2010”. Afinal, como tem acontecido desde que tomou posse, Sócrates voltou a faltar à verdade, comprovando que vive num país de fantasia, totalmente dissociado dos factos: o Governo acaba de anular o concurso público internacional relativo à construção da linha do Transporte de Grande Velocidade no troço Lisboa-Poceirão, adiando assim para as calendas um projecto que chegou a prometer como uma hipótese de saída para a crise. A terceira travessia em Lisboa, antes apresentada como uma das grandes obras do regime, é igualmente metida na gaveta. Isto vem justificado num notável despacho assinado pelos ministros das Finanças e das Obras Públicas, que reconhecem a existência de uma “significativa e progressiva degradação da conjuntura económica e financeira” do País. O Diário da República desmente assim as torrentes de propaganda de um governo cada vez mais à deriva. Tudo isto quando se sabe que a dívida pública portuguesa aumentou num ano de 80% para 87% do PIB, correspondendo a uma média de 2,5 milhões de euros por hora, e os juros que o Estado português tem de pagar atingiram um novo máximo, o que torna quase inevitável a intervenção do Fundo Monetário Internacional. “Há muito que Angela Merkel manda mais que Sócrates na nossa política orçamental”, como acaba de escrever no Público Luís Campos e Cunha, que foi o primeiro responsável pelo Ministério das Finanças do actual ciclo político socialista.
No meio deste caos, por bandas do partido do governo há ainda quem encha a boca com a putativa defesa do “estado social”. Quem fala verdade é a titular da pasta da Cultura, Gabriela Canavilhas, ao aludir ao “colapso” iminente do mesmíssimo “estado social”. A pianista é ela, mas quem insiste em dar-nos música são alguns outros. Sentados a seu lado no Conselho de Ministros.


Pobre Nau Catrineta…
Desse mar assaz tormentoso
do discurso governativo
sopra um vento comatoso
de grande teor defectivo.
Neste estado tão degradante
que há muito é reconhecido,
seguimos num ritmo trepidante
para um caos escurecido…
Esta Nau Catrineta não passa o Cabo das Tormentas. Porque o Adamastor vai a bordo.
Que tal mudar o nome para Alice?
Ou Humpty-Dumpty. Prestes a cair do muro.
Claro que o TGV tem um “um impacto absolutamente extraordinário” na crise. É só esperar que venha a crise.
O projecto não é adiado para as calendas, compadre. Daqui a seis meses o TGV voltará a ter um “um impacto absolutamente extraordinário” na crise. E Sócrates voltará a faltar à verdade.
Deste Sócrates já só é de esperar cicuta.