Convidado: JOSÉ ANTÓNIO ABREU


Pedro Correia,

 

Melanina

 

Estava parada do outro lado do cruzamento, junto a uma passadeira. Teria cerca de trinta anos e usava um vestido castanho, leve e curto. O cabelo também era castanho, bastante claro, quase louro, mas eram as pernas que chamavam a atenção. Não sendo muito longas, eram bem feitas e tão intensamente brancas que pareciam iluminadas a partir do interior. Nenhum dos homens que passavam ou que, como eu, aguardavam dentro dos veículos pela mudança das luzes dos semáforos parecia conseguir evitar olhar para elas. O semáforo da passadeira mudou para verde ao mesmo tempo que o que me mantinha parado. Arrisquei uma buzinadela de protesto do tipo do carro de trás para a ver avançar, a face interior da coxa direita surgindo por uma abertura do vestido a cada duas passadas. Ao arrancar, lembrei-me de uma passagem de um livro de P. D. James, lido há cerca de vinte e cinco anos. Num campus universitário, vários estudantes estão sentados na relva. Entre eles, uma rapariga de pele extraordinariamente branca, que James descreve como muito mais erótica (não tenho o livro à mão mas julgo não me enganar no termo) do que as restantes. Tratando-se do campus de uma universidade britânica, realçar a alvura da pele equivale provavelmente a descrevê-la como quase translúcida, de uma tonalidade que chega a ser incomodativa para a maioria dos homens (e, suponho, das mulheres) do sul da Europa. Mas a imagem de uma estudante magra, bela, com um vestido curto e pele muito branca, sentada na relva com dois ou três livros ao lado, aparentemente – mas só aparentemente – alheia ao seu próprio grau de sexualidade ficou-me na memória. Terá sido a primeira vez que o adolescente que eu era analisou o papel da cor da pele na sensualidade feminina, ficando aberto à hipótese das mulheres de pele branca poderem ser tão ou mais sensuais que as de pele bronzeada. (Isto de obter lições de vida em policiais em vez de o fazer nas grandes obras de literatura tem muito que se lhe diga, e talvez ajude a explicar algumas das minhas peculiaridades…)

 

Significa isto que me desagradam mulheres de pele bronzeada? Pelos milhões de costas bronzeadas por essas Costas fora, claro que não! Nunca negarei, excepto sob fundamentada ameaça de tortura – digamos, perante alguém maior do que eu, ou apenas ligeiramente mais pequeno, brandindo uma turquês e trauteando Sol da Caparica –, a possibilidade das mulheres serem atraentes independentemente da quantidade de tirosina que os seus melanoblastos entendam polimerizar. O que me faz um pouco de impressão é a ditadura do bronzeado que vigora por cá. Idolatramos tanto pele bronzeada que muita gente sente-se obrigada a consegui-la. Porque é moda; porque pareceria ridículo usar certos vestidos com pele branca; porque seria deprimente voltar ao emprego sem provas claras – ou, neste caso, escuras – de que as férias existiram e valeram a pena. Reconheça-se que isto tem um ponto positivo: mesmo em férias, quase toda a gente funciona por objectivos e ter um para cumprir sempre dá um propósito à quinzena no Algarve ou em Benidorm. Mas as pessoas que detestam grelhar ao sol sobre uma toalha amarrotada estendida em areia quente e com tendência a introduzir-se em orifícios delicados, besuntadas com creme de odor enjoativo, incapazes de escutar o som relaxante das ondas por causa das vozes dos milhares de outras pessoas que com elas partilham a praia (ah, a polifonia dos areais do sul de Espanha!) têm apenas três possibilidades: arranjarem uma forma de se convencer de que até é divertido (agradeço sugestões), irem contrariadas (e lá se vai a ideia de que as férias são relaxantes), ou permanecerem com pele branca e sentirem-se uma variante não tecnológica de nerds (já alguém viu um nerd bronzeado?). É verdade que se pode conseguir uma pele bronzeada sem deslocações à beira-mar, recorrendo a solários e auto-bronzeadores. Porém, os primeiros, para além de parecerem adereços concebidos para filmes do Flash Gordon ou do Austin Powers (i.e., kitsch), abrem excelentes perspectivas para quem deseje o seu próprio cancro, enquanto os segundos deixam a pele às manchas e – lamento pôr a questão de forma tão abrupta – a cheirar mal. Assim, se ficar bronzeado for mesmo importante para impressionar os colegas de trabalho (especialmente aquela ruiva curvilínea do serviço de pessoal que… er, não interessa) ou para ganhar dois pontos na escala de amor-próprio, mais vale ir à praia. Claro que tomar a decisão não basta. Como se sabe, frequentar a praia obriga a usar trajes reduzidos e isso também constitui problema para gente gorda e tímida, que é forçada a evitar ver-se reflectida nos vidros dos bares e dos automóveis (estes ainda por cima são convexos, deixando corpos rechonchudos positivamente esféricos) se, nos meses que antecedem as férias, não tiver entrado num regime diário de dez copos de água e duas ervilhas, complementado pela leitura de um par de livros de auto-ajuda. A prova da eficácia dos livros de auto-ajuda e da falta de eficácia das dietas é a quantidade de pessoas gordas que, sem qualquer vestígio de timidez, enchem as praias.

 

 

Mas afinal por que gostamos tanto de pele bronzeada? Aparentemente por causa de Coco Chanel e de Josephine Baker. A primeira ter-se-á distraído ao sol durante uma visita à Riviera na década de vinte do século passado, enquanto a segunda começava mais ou menos na mesma altura a deixar os parisienses pelo beicinho por cantar bem e, acessoriamente, por aparecer quase nua em palco. Os fãs de ambas, umas revistas de moda e alguns industriais com olho para o negócio trataram do resto. (Como se pode negar a perfeição da sociedade capitalista, que nos leva a gastar montes de dinheiro em férias na praia mas nos dá em troca um tema para dois dias de conversa, um bronzeado para duas semanas e a visão de corpos quase nus?) Antes de Coco e de Josephine, pele escura era vista como característica das classes baixas, forçadas a trabalhar ao ar livre. Durante vários séculos, a nobreza fez mesmo questão de branquear a pele, pintando de cor-de-rosa apenas as maçãs do rosto em sinal de boa saúde que, sendo muitos dos produtos branqueadores à base de chumbo, mercúrio e arsénico, nunca durava – mas os cadáveres tinham pele clarinha e tal não se devia apenas aos livores da morte. Na verdade, ainda hoje existem zonas do globo onde pele clara é bem vista: muitos indianos continuam a tentar branqueá-la e experimentem lá convencer uma gueixa a apanhar banhos de sol. Podíamos também discutir o caso do Michael Jackson mas não vale a pena.

 

Deixando a lição de História e voltando às mulheres (não consigo evitá-lo, por muito fora de moda que isso me coloque), não são os tormentos físicos e psicológicos que elas sofrem para conseguirem ficar da cor da Halle Berry que verdadeiramente me incomodam. (Como quase toda a gente, penso nos outros em função do que é mais interessante para mim, processo a que chamo «altruísmo autocentrado»). O meu problema é simples e de ordem visual: no Inverno, por causa do frio (vivo no Porto, onde as temperaturas matinais chegam a rondar os zero graus), tudo o que se vê das mulheres é a ponta do nariz e das orelhas, o que, mesmo havendo por aí pontas de nariz e de orelhas absolutamente deslumbrantes, me parece insuficiente; no Verão, quando qualquer homem heterossexual e mulher homossexual (estou a tirar um curso online de politicamente correcto) têm oportunidade de apreciar outras zonas (a curvatura dos ombros e do pescoço, a pele suavemente retesada sobre as omoplatas e a depressão entre estas, as covinhas de cada lado dos joelhos, a ondulação em torno do umbigo, aquela zona no fundo das costas onde a reentrância da coluna desaparece num subtil Y invertido), elas apressam-se a eliminar a possibilidade de a isso se juntar a fruição de uma palete de cores completa, do branco nórdico 8365 ao preto 890 (catálogo da Dyrup), e ficam todas em tons de castanho. É certo que isto torna especialmente gratificante descobrir exemplares que se estejam nas tintas (é uma maneira de dizer) para a moda do bronzeado, como a rapariga do semáforo, mas não compensa totalmente a chatice que constitui esta nossa tendência para a uniformização. Mesmo – gostaria de deixar isto bem claro – nada me movendo contra as omoplatas da Halle Berry. Infelizmente.

 

Nota: agradeço o convite ao Pedro Correia e a inconsciência a todos os colaboradores do ‘Delito’. Hesitei quanto ao tema deste post mas, depois de verificar que Fernando Moreira de Sá já falara do Porto e que A. Pinho Cardão já desancara no governo, achei que podia disparatar um pouco.

 

José António Abreu

17 comentários em “Convidado: JOSÉ ANTÓNIO ABREU”

  1. É um pouco estranho ver um post meu fora do ambiente natural dele. Mas agradável (apesar dos muitos pormenores que tenho vontade de mudar). Mais uma vez, obrigado pelo convite.

    E só como informação, Pedro, olhe que as omoplatas são do outro lado…

  2. De repente, sinto-me um pouco menos sozinho. Pensava ser o único a franzir o nariz à “ditadura do bronzeado” (apesar de, enfim, ser provavelmente um tanto ou quanto nerd). Ainda que não conseguisse em dia algum elaborar um texto tão bom sobre o tema. Excelente participação!

  3. Mas que bem que me sinto com este post. Ainda este fim de semana encontrei um amigo que me perguntou – então quando vai de férias? – já fui e já vim, respondi. Ah, tão branquinha…
    :)))

    1. Fico feliz por ter podido ajudar, ariel. E diga lá ao seu amigo que o efeito das férias não tem obrigatoriamente de se ver na cor da pele. As melhores consequências de umas boas férias são interiores…

  4. Caro José António Abreu:
    Desvanecidíssimo pela citação.
    Mas eu não desanquei no Governo; limitei-me a dizer a verdade mais óbvia.

  5. Belo texto, divertido como os deste tipo o devem ser :). Apenas achei que faltava a referência ao “Endechas a Bárbara Escrava” do bom velho Luís Vaz.

    Quanto à atracção pela pela bronzeada, isso pode dever-se precisamente ao facto de ter sido apanágio de classes mais baixas. A verdade é que a maior parte de nós terá muito mais antecedentes dessas classes que da nobreza (ou alta burguesia), pelo que tais escolhas terão sido inculcadas já nos nossos genes. Durante séculos, a pele bronzeada seria um sinal de saúde, porque apenas quem fosse saudável poderia passar tantos dias fora de casa e apanhar o sol necessário para a cor surgir. Isto fez com que a cor da pele fosse associada à beleza (a maior parte dos conceitos geralmente aceites na área da beleza terão a ver com sinais externos de saúde).

    Já no caso da nobreza surgia o oposto: apenas passaria tempo ao sol quem tivesse problemas de saúde que a isso o obrigassem, sendo que os mais ricos teriam exércitos de médicos ao dispôr para tratar deles dentro de casa. Além disso, se as classes baixas andavam fora de casa, não iriam eles, a classe dominante, fazê-lo. Isso talvez tivesse predisposto essas pessoas para o seu ideal branco de beleza.

    De notar, no entanto, que há ainda a componente do exotismo a considerar. No norte da Europa dá-se muitas vezes mais atenção a gente bronzeada (pelo menos em termos de ideais eróticos) do que no sul (onde são em barda). No sul da Europa (tal como na Índia) passa-se o oposto.

    Enfim, são questões pouco a preto e branco e muito no intermédio. Bronzeadas, direi, mesmo sabendo que é piada extremamente fraca…

    1. Falta grave, é verdade, não me ter lembrado d’”aquela cativa”. Acredito que tivesse umas omoplatas deslumbrantes…

      E tem provavelmente razão, sobre as razões que levam a maioria a preferir pele bronzeada (embora eu tenda a acreditar muito no poder das modas) e sobre o factor “exotismo”. De qualquer forma, deixe-me realçar outra vez que não tenho nada contra pele bronzeada. Gosto é de diversidade.

  6. Estou acostumada a cores variadas, não seria esta uma cidade coalhada de todas as raças e cores. Mas aquele branco inglês me causou espécie, quando o conheci. Não é cor. É a total ausência de. Uma coisa assim meio zumbi. Mas os ingleses quando tomam sol pioram. Ficam uma coisa assim meio tomate seco em salada de nabo. Um problema. Enfim! Por sorte há gosto para tudo.

    direto de são paulo, aquela cidade onde há de tudo, até paulistas!

    1. Será que hoje alguém fala que não gosta de um certo tom de pele escura? Não seria racismo? Não é errado dizer que se a pele for muito escura é esquisita, com cor disso e daquilo? Então por que o oposto é permitido, é aceito?
      Tivesse você nascido tempos atrás e você iria amar gente com cor de nabo, porque seu “discurso” é típico de pessoas que permitem que o ridículo mundo da moda controle o que pensam, criaturas bitoladas. E isso não é meio, é totalmente zumbi. Pior que parecer é SER UM. Há preconceito para tudo. Mas por sorte há indivíduos de mente aberta que sabem apreciar flores de todos os tipos, da mais alva até a mais negra…

  7. Leve, descontraído, divertido, com um apelo inicial delicioso àqueles fugazes momentos que vivenciamos e que de uma forma algo inesperada se alojam na nossa memória; somos mesmo feitos, também, de pequenas grandes coisas, de reflexões acerca do simples que extravasam o óbvio e aparente, de sensações que ficam de breves minutos que passaram.
    Mas…confesso que o prazer da leitura do seu texto (uma ínfima parte!) se terá devido ao tom claro que ostento (curiosamente mais facilmente alvo de “reprovação” proveniente das “pares” que do sexo oposto!). Eheh.

    1. Obrigado, Sílvia. Esses pequenos instantes são os condimentos da vida (passe a imagem um tanto lamechas): também se viveria sem eles mas o sabor não seria o mesmo.

      E bom, é verdade, com frequência as mulheres são mais duras para outras mulheres do que os homens. Especialmente quando falamos de coisas como a cor da pele. Desconfio até que, perante uma mulher atraente, quase todos os homens ficam daltónicos.

  8. Caro José António,
    Excelente estreia aqui no DELITO, como eu já previa. É um prazer recebermos visitas – e quando essas visitas nos trazem textos de grande qualidade, como foi o caso, o prazer redobra.
    Um abraço.

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