O país do pão
Guarda tudo. Sobra uma espinha com uma escama de peixe, uns farrapos de salada, um nervo do bife, dois feijões carrapatos com três folhas de coentros e uma lasca de atum e é certo que, de acordo com o aprendido na escola e nos lavores femininos, a coisa acaba embrulhada em papel de prata, possivelmente mais caro do que o conteúdo que guarda, a esperar putrefacção adequada na prateleira do frigorífico.
Guarda tudo e, enquanto guarda a nova sobra, aproveita para deitar fora as outras coisas mais antigas que, pelo cheiro ou pela cor de varejeira, já estão aptas para o lixo.
Então as côdeas, meu Deus, essas ficam a repousar na lata do pão até que o bolor as cubra porque, diz, “com tanta gente a passar fome…”
E as bolorentas nunca, em tempo algum, vão para o lixo (que Deus me perdoe) sem ser beijadas e embrulhadas, que o pão é sagrado e pode parecer mal.
O Botas soube fazer a coisa.
Nada do que é aproveitável, principalmente se for de baixo valor, deve ser deitado fora devendo esperar que se degrade irremediavelmente para não cometer pecado.
Poupadinhos, pobrezinhos mas limpinhos, pacientes, agradecidos e atentinhos, tanto que ainda hoje se ouve dizer que o que nos faz falta é um Salazar, o que seria aceitável não fosse o estado de decomposição em que ele próprio já estaria nesta altura.


O Luís é uma simpatia. Gosto muito de o ver e ouvir na televisão. Tem um impagável ar camiliano, mesmo no que escreve.
Grande Abraço e bem-vindo ao DdO.
Grato Joaquim.
Camiliano, hein!!!
Um abraço
É um gosto vê-lo por cá, Luís. Obrigado por ter aceite o convite. Um abraço, com votos de boas férias.
Grande abraço Pedro. Deixei lá na loja uma saudação especial onde reuni muitas das 100 palavras que o Pedro diz não gostar mas que sei serem do seu agrado 🙂
Até Setembro.
Parabéns, Luís, e boas férias.
Obrigado João.
Um abraço.
Deliciosamente corrosivo, Luís. O seu texto lembrou-me uma frase entre o cómico e o surreal que li ontem (na Visão ou na Sábado, já não me lembro), da Lili Caneças: “Espremia os ossos do frango para fazer soufflé”. Imagino que a senhora se referia a tempos de penúria que atravessou, mas não quis deixar de sublinhar que nem em tempos de vacas magras perdeu o chique e a sofisticação…
Este país é uma anedota, de facto, e o humor ainda é o que nos vale.
Obrigado Ana
Tinha de ser um texto corrosivo ou então não conseguia o meu delito anual de opinião.
🙂
Só um por ano?? Ah, Luís, vamos ter de convidá-lo mais vezes…
🙂
Incluindo para um dos nossos jantares.