«Não passa um dia sem que o Governo mude de posição sobre qualquer coisa.» Não é uma conclusão brilhante do Daniel Oliveira, porque já toda a gente sabe isso, mas veio dar novo alento a este país que ainda ontem apanhou mais um murro no estômago. É que a única posição relevante do Governo anunciada ontem foi a da ministra da Educação sobre o fim das reprovações. Portanto, aguarda-se com grande expectativa a mudança de posição que há-de surgir hoje.
Aproveito para deixar uma sugestão ao Governo. Como se sabe, a mudança de posição diária tem tendência para desacreditar quem governa. De cada vez que um ministro anuncia qualquer coisa, no dia seguinte é invariavelmente dado o dito por não-dito. Ora, isso é escusado. Basta que os ministros deixem de falar e que seja sempre e só o primeiro-ministro a anunciar tudo. Se for apenas ele, não será preciso voltar atrás, pois já toda a gente sabe que não é para levar a sério.

Os ministros dos governos socialistas, já nos habituaram aos anuncios mais delirantes. Este de acabar com os chumbos, é mais um, com a justificação de que nos paises nordicos tambem é assim. Como se as realidades fossem sequer parecidas, que como sabemos não são.
Mas o que mais me espantou, foi o acordo da Confap, e do Sindicato dos professores. O Sindicato é um cata-vento, mas o Albino, em nome dos Pais aplaudir uma medida destas, deixa-me arrepiado.
Sabemos que a Confap esteve quase sempre ao lado de Maria de Lurdes Rodrigues, a incendiaria-mor do ensino em Portugal, mas defender a banalização da mediocridade, e do analfabetismo mais do que já é hoje, para as futuras gerações, é talvez o maior crime que o PS deixa como herança aos portugueses.
Temos de convir que a Educação entrou em queda há muito. Mas o PS pode gabar-se de ter proporcionado que essa queda passasse a ser livre.
Pois, mas ouvi-lo… Chato, emproado, previsível, repetitivo, os mesmos chavões recorrentes, a inventar a pólvora diariamente, com aquele optimismo transbordante de quem vende Magalhães urbi et orbi… Procuro termo de comparação e nem o Marcelo Caetano se lhe iguala, com a seca das suas conversas em família. Assim, de repente, sem pensar muito, só me lembro do Tomás, do companheiro Vasco e do seu ministro do trabalho. Chatos deste calibre são raridades.
Concordo. Tenho plena noção de que a minha sugestão não é perfeita: esse inconveniente de dar diariamente a palavra ao primeiro-ministro é realmente um contra tremendo a ter em conta.
Ainda ontem a Ministra da Educação, em entrevista, veio dizer que tinha sido mal interpretada. Afinal, não é bem assim. A sorte é a comunicação social que traz a lume as atoardas deste governo, se não estaríamos definitivamente perdidos. Seria muito difícil ou pedir muito que arranjassem alguém que percebesse de educação? É que a adoptarmos modelos de fora não vamos lá. É inane comparar a Finlândia, e como eles gostam da Finlândia, com Portugal. São realidades que não se tocam, logo adoptar o modelo finlandês não tem sentido num país diametralmente oposto. O modelo inicial de avaliação de professores foi importado do Chile, e deu o resultado que deu: era inexequível e disparatado. Ontem, a Ministra ainda levantou a questão do ratio professor/aluno. Não sei onde vão buscar aqueles números mas sei que as turmas podem ter até 28 alunos e com 28 alunos numa turma é muito difícil. Se esses professores que aumentam o ratio estão em organismos do Ministério da Educação, pois que venham dar aulas para as escolas e arranjem funcionários para os substituir e cumprir as tarefas burocráticas. Por outro lado, havia que acabar com algumas disciplinas no 3º Ciclo do Básico e investir noutras. Não passa pela cabeça de ninguém que os alunos possam ter Inglês apenas uma vez por semana, popr exemplo, e que tenham Estudo Acompanhado que, pelo que sei, é tudo menos meta-aprendizagem. Mas está tudo tonto?
Nota-se bem quando os comentários são feitos por quem conhece o sistema, como é o caso deste. Quando vi a entrevista com a ministra, e porque a entrevistadora não percebia do assunto e, portanto, nem sabia que perguntas fazer nem, menos ainda, como contraditar, dei comigo a dizer o mesmo que a Leonor: é desonestidade intelectual dividir o número de alunos pelo número de professores para chegar a tal rácio, sabido que é que não falta por aí quem nada faça. Ainda não há muito tempo, no Ensino Básico 1 em cada 3 professores não tinha turma; e há milhares de BE/CRE, os centros de formação, os professores de apoio, as direcções das escolas, os sindicatos, as estruturas regionais e centrais do ME, onde pululam “professores” que, se alguma vez o foram, já se esqueceram — mas progrediam na carreira como os outros.
Por outro lado, e para me não alongar, é também desonestidade intelectual comparar o ensino português com o finlandês ou qualquer outro, como se lá ele também fosse monolítico. Há o privado e o público, há cursos profissionais e outros de prosseguimento de estudos… A comparação não deve ser feita entre escolas piloto, daquelas que se mostram aos governantes estrangeiros em visita, mas entre realidades equivalentes. E essa gente não lava a roupa suja em família. Não tenho qualquer simpatia pela Finlândia nem pelo seu modelo civilizacional (é preciso licença para comprar uma garrafa de vinho e é nesse paraíso que têm ocorrido recentemente morticínios nos liceus) e não gosto que façam de nós portugueses mais parvos do que já somos, atirando-nos com dados que não podemos aferir, de um país que nem conhecemos nem parece ter elementos civilizacionais comuns connosco.
Meu caro, tiro-lhe o chapéu. A clareza do que desenvolve e que apenas pode comparar-se com a da Leonor Barros ainda me deixa mais tonto. É que eu já nem pachorra tenho para raciocinar com seriedade.
Obrigada, José-catarino. Sou professora do Secundário, conheço bem o contexto, embora me questione muitas vezes sobre o que é que se passa no 3º Ciclo do Básico. Quando me cruzo com crianças de tenra idade, verifico que são astutas, vivaças, falam melhor do que falávamos quando tinhamos a idade deles, são capazes de raciocínios mais elaborados, portanto algo se passa para chegarem ao Secundário num estado muito diferente do que descrevo e como não são burras, algo tem de se passar. Não culpo os professores mas tenho a certeza, pelo que me é dado a observar, de que algo está muito errado e que para bem de todos, devia mudar. Enquanto não houver uma cultura de rigor nada feito. Quem sabe e se esforçou, trabalhou e se interessou passa, quem não quis saber, não fez rigorosamente nada e não atingiu os níveis de desempenho esperados, obviamente não deve passar. Não me parece assim tão difícil.
Quanto ao ratio, sou radical: quem é professor que exerça, quem não é que vá fazer outra coisa qualquer. Não entendo um professor que prefira estar sentado numa cadeira a cumprir tarefas que não ensinar. Se assim é, é porque o ensino não lhe serve, logo não tem sentido nenhum que ocupe uma vaga enquanto tal. E sim, agora, criaram essa figura do professor bibliotecário que não tem turmas (só se pedir, a lei não obriga) e só ‘biblioteca’, e às vezes pouco. Os Directores dos Centros de Formação também não dão aulas, só dirigem o Centro, e pasme-se ainda têm uma palavra a dizer na nossa avaliação. Sabe deus como alguns são… Assim, é claro que o ratio é alto. Faltam ainda os dos sindicatos, os que estão na Inspecção e Direcções-Gerais de Educação.
O ensino devia levar uma volta a sério, começando por aqui, passando pelo número de alunos por turma, mais exigência e rigor e mais responsabilidade por todos os envolvidos: pais, alunos, professores. Não deve haver tolerância com os incumpridores, devem ser sentidas as consequências dos nossos comportamentos. É claro que pode haver um espírito punitivo nesta minha tomada de poisção, mas se não forem mostrados os limites e consequências dos nossos actos, o resultado será tenebroso.
Outra coisa que me tem irritado bastante nos últimos tempos, é o cavalo de batalha de que voltaram as faltas justificadas e injustificadas. Ora, se não fossem tão ignorantes nunca diriam um disparate destes. É que sempre houve faltas justificadas e injustificadas, a diferença é fazia-se prova de recuperação, outro cancro do ensino recente, quando se ultrapassasse o triplo das justificadas e o dobro das injustificadas. Muito eduquês, eu sei, mas a verdade é esta.
Sim, Leonor, deve estar tudo tonto. Pelo que dizes, parece-me que só escapas tu, mas eu próprio nunca me senti mais tonto, perante este cenário que estamos a suportar.
Não sei por quanto tempo mais, João 😉