Só há pouco li, na revista “Actual” do Expresso, um extenso artigo de Rui Ramos sobre Salazar e o Estado Novo, no qual esbarrei com este período: «Perseguiu e exilou o bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, em 1958-1959.» É um simples detalhe retirado do todo, mas chamou a minha atenção. Como a História não se inventa e como já me tenho dedicado ao assunto, retirarei de um livro que publiquei há meia dúzia de anos um excerto em que narro o episódio.
«Em 1958, D. António Ferreira Gomes (1906–1989), bispo do Porto, depois de duas intervenções entendidas como críticas à situação, dirige uma carta a Salazar em que reclama a liberdade de os católicos defenderem os princípios sociais da Igreja. Considerado incómodo para o regime e aconselhado a afastar-se, o bispo desloca-se a Roma no ano seguinte e, na volta, é impedido de entrar no País, ficando em Tuy (na Galiza) e passando depois a viver entre Espanha, França (Lourdes) e o Vaticano. Em rigor, não tem o estatuto de exilado político e não chega a ser substituído como bispo do Porto. O Papa João XXIII — Ângelo Giuseppe Roncalli (1881–1963) — nomeia-o para uma das comissões que preparam o concílio Vaticano II e o seu regresso só vai ser possível dez anos mais tarde, em 1969, na sequência de um movimento em que sobressai o advogado portuense Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro (1934–1980), num envolvimento que o transporta à política, para se destacar depois como deputado da “ala liberal” nos finais do Estado Novo.»
Não deve dizer-se, portanto, que o bispo do Porto foi perseguido e exilado de facto e menos ainda que isso ocorreu em 1958/59. Na verdade, o plano foi mais bem urdido: esperaram que ele fosse ao estrangeiro e criaram uma teia artificial de dificuldades administrativas na fronteira para impedir a sua reentrada em Portugal. O afastamento do bispo durou uma década, mas foi em vão que o Estado Novo pressionou a Igreja para que o substituísse na diocese do Porto.
Imagem — Estátua de D. António Ferreira Gomes (Porto, Clérigos)


Muito oportuno post João. Guardei cópia da Carta a Salazar, tão falada, mas que eu não conhecia em concreto.
Ainda bem que foi interessante para si, Ariel.
Gostava imenso de ter lido esse extenso artigo, no suplemento Actual, que como é habitual, estava à disposição dos leitores da Biblioteca Municipal de Setúbal. Não o pude fazer porque um palerma qualquer arrancou as folhas onde estava o dito artigo deixando um manuscrito onde se podia ler “QUERES SALAZAR? VOLTA PARA O ESTADO NOVO!”.
Enfim, Portugalol 2010, nação Socialista.
Há sempre uns espertos prontos para exercer “acção directa” e ainda tentar dar lições aos outros.
Caso interesse, o artigo que procura em http://portugaldospequeninos.blogspot.c om/2010/07/salazar-na-historia.html e com a vantagem de estar em português e não em brasileiro como no ‘saco de plástico.
Cumpts.
Agradeço, em nome dos leitores a quem possa interessar.