Da arte de bem apalpar os melões
É nos tempos de crise, quando a auto-estima dos portugueses anda em baixo, que vale a pena ir a um mercado. Nas grandes superfícies já não dá tanto jeito, onde tudo é mais sofisticado, os expositores, os produtos e até a clientela têm o tique de quem se «standardizou» e rendeu aos benefícios de qualidade, quantidade, preço e modernidade de uma grande superfície.
Restam, assim, os mercados. Os locais onde os portugueses podem ainda exercitar com deleite a sua condição de predestinados em tarefas que nenhum outro povo consegue cumprir com a eficácia e a sabedoria que Deus lhes deu em sorte. Basta observar um homem (tem de ser um homem, mulher não dá…) a escolher um melão. O potencial comprador de melões não compra um melão qualquer. Ele tem uma montanha de melões à frente, mas jamais se decidiria pelo primeiro da fila. Ele tem de pegar pelo menos em seis. E cada um deles é cuidadosamente sopesado numa mão, nas duas mãos, suavemente transladado de uma mão para a outra, antes de tamborilar os dedos na casca. Cheirar o melão, abaná-lo, rodá-lo entre os dedos e observá-lo a diferentes distâncias do globo ocular são outras operações que dizem bem da sabedoria inata do português a escolher melões. Porque não é agora um qualquer espanhol, ou italiano, grego e, muito menos, um daqueles louros do norte, que saberiam escolher um melão da forma elaborada, consciente, dedicada, empenhada e, sobretudo, SABEDORA, com que o luso comedor de melões selecciona o melhor, de entre uma montanha de melões do expositor. A expressão visual do comedor/seleccionador de melões português conta muito para o efeito, também. E ele aplica-se mais e melhor se souber que está a ser observado. Nunca um seleccionador de melões gastaria mais de cinco segundos para carregar com o eleito para a balança. Já com audiência, ele sabe que uns sólidos três minutos poderão ser usados na selecção do melão e isso faz-lhe quase tanto pela auto-estima como uma vitória do «glorioso». Se calha estar com a mulher, com a patroa, com a legítima, o caso, então, torna-se superlativo. A mulher tem de saber que não é por ser ele a mandar lá em casa que ela teve sorte. É sobretudo porque arranjou um marido que sabe escolher um melão. Ele sabe escolher melões. Coisa que a mulher jamais saberá. Fazendo-o por ela própria, arrisca-se a levar para casa um pepino e ter, depois, de suportar a arenga do marido, inevitavelmente começada, por um “eu não te disse? Porque é que não me chamaste?”
O cliente de melões português é um caso paradigmático da ventura de se nascer português. Demos novos mundos ao mundo, depois decaímos um bocado, é certo, mas, helas, sabemos escolher melões. O que absolutamente nos coloca na vanguarda do pelotão europeu. Mas repito. Isto é coisa de homem. De macho. Para as mulheres deixo a pungente tarefa de escolher um peixe. Depois de lhe pegar pelo rabo, abrir-lhe as guelras e carregar no olho remata com a pergunta sacramental para a mulher da venda:
– D. Justina, o peixe é fresco?
Ainda não perdi a esperança de ouvir uma D. Justina, algures, em alguma altura, responder:
– Não. Não é. Não leve que esse peixe já tem três dias de frigorífico. O melhor é passar ali à banca do lado.



Excelente texto. Demorei a decidir se me pareceu um retrato ou uma caricatura, mas decidi-me pelo retrato.
Um convidado de respeito, compadre. Parabéns ao Nelson.
Um abraço e obrigado pela gentileza
Nelsio Reprezas
É um prazer vê-lo por cá, Nelson. Gostei muito do seu texto, como aliás já esperava. É uma saborosa crónica que diz muito sobre nós, portugueses. Há quem passe a vida a ver passar os comboios. E quem passe a vida a apalpar (e apanhar) melões.
O prazer é meu, Pedro. E o privilégio também, por me sentir convidado em tão ilustre casa. Um abraço para si, extensivo, de resto, a todos os outros convivas. E uma vez mais o meu agradecimento pela simpatia do convite.
Nelson Reprezas
Excelente quadro este que aqui nos deixou, que retrata com exactidão a “expertise” dos homens portugueses neste tipo de tarefas (e não só) em que somos absolutamente imbatíveis.
Parabéns, Nelson, pela sua pontaria certeira.
Luís Figueira
Agradeço a gentileza, também
Nelson Reprezas
Parabéns (extensivos ao blogue) por esta merecida distinção, caro amigo Nelson. Como sempre, deliciei-me com o texto. Forte abraço.
Meu caro Torquato
Uma das coisas giras nesta coisa da blogosfera é que a gente vai-se encontrando por aqui, por ali, às vezes por ali e outras vezes por aqui… :)) Grande abraço e obrigado pelo distinto elogio…
Magnífico retrato. Ainda há dias, olhando para uma caixa com dezenas de melões, me questionei como há quem consiga, pela simples apalpação e teste de narina, fazer a escolha acertada.
Bom… eu tentei ilustrar o quadro. Daí até se acertar vai alguma distância
Pois, já eu tenho um homem que não sabe escolher melão nem meloa, nem mesmo melancias que são mais familiares aqui nos Açores, será que ele tem pitafe ?:))
Delicioso texto, Nelson Reprezas , digo mais, um bálsamo para a “época”…:))
( estive ausente, por uns tempos, não pude acompanhar-vos, agora vou pôr-me em dia)
Já estávamos com saudades, Maria.
Também eu João e obrigada pela sua atenção à minha ausência. Voltei , embora com pouco tempo para comentar…Fico-me pela leitura – o que é muito bom.:))
Um abraço.
Espero que vá dando sinal, Maria.
“Puxe” por ele, Maria Ema, Não há homem que resista ao apelo de apalpar um bom melão. Vá por mim :)))))
Nelson Reprezas
Confirmo, Maria Ema. O Nelson está cheio de razão.
Apalpar até pode fazê-lo, eu é que não acredito no tacto dele…Quanto aos melões, claro.:))
Hum…
:o)
Belo texto, sem dúvida. Com este ninguém se pode queixar de ficar com um melão (apesar dos sólidos 3 minutos na escolha do retrato).
Os três minutos têm mais a ver com a coreografia do que da necessidade real de se avaliar o melão :))
Nelson Reprezas
Sobre o peixe: há muitos, muitos anos, antes mesmo dos frigoríficos, ia vender à minha aldeia peixeira que à pergunta sobre a frescura do peixe respondia no falar cantado da Nazaré: Não é, mas temos de o comer, que não há outro!
Vá lá que hoje, com os frigoríficos, dá para armazenar até às caixas. Como os robalos, por exemplo… :))
Nelson Reprezas
Até há robalos em sacos, veja-se só.
Gostei do texto, e na verdade é engraçado quando ” encalhamos ” com estas histórias tão portuguesas…dei comigo a lembrar-me que sempre que preciso de comprar uma dessas preciosidades, vou á mercearia e peço :
-Oh Sr. Fernando podia por favor escolher-me um melão?
O engraçado é que na mercearia, tem também a D.Graciete e a D.Jesuina, mas percebo agora porquê, nunca pedi a nenhuma delas que me resolvesse o ” assunto do melão”´.
Tá visto é mesmo algo já interiorizado, o melão é mesmo assunto de homens, eh eh eh…
20 pontos ao Nelson que teve tão engraçada lembrança.
só podia mesmo ser de homem, meu caro cr. E obrigado pelo cumprimento
Nelson Reprezas
Ao lado, Nelson. É a nossa cara CR. Eheh…
Imperdoável… É que “cr” presta-se às mais diferentes interpreatções. Imagine-se ainda que à frente do cr ainta tinha um 9… :)) Quero aqui desculpar-me à Cr, que presumo ser a vossa ristina Ferreira de Almeida, depois de ler com atenção a vossa lista de colaboradores, humildemente pela ligeireza com que respondi no comentário. Desculpado??? 🙂
Desculpado, claro. Mas CR é uma nossa simpática e fidelizada comentadora.
Não acerto uma… peço, uma vez mais, desculpa a ambas… e não digo mais nada senão esgoto os tiros ao lado :))))
Nelson Reprezas
Sem qualquer problema, meu caro. Eheh…
Olha que boa surpresa encontrá-lo aqui, vizinho! Gostei muito de lê-lo, como sempre, mas lamento contrariar-lhe a tese… é que eu sou meia ribatejana e sei escolher melões tão bem (ou melhor!) do que qualquer homem. Dou de barato que não tenha as mesmas sensações ao apalpá-los, mas enfim, não se pode ter tudo…
😉
Longe de me equiparar as características sensoriais de cada qual, minha cara vizinha :)))) Tenho a certeza que um melão é um melão e coisa diferente é a sua palpação, isto é quase glosando um conhecido treinador de futebol aqui da paróquia :))))
Outra coisa que não questiono é a sua costela ribatejana e, estou certo, proficiência na escolha de um melão doce, suculento e a saber àquilo que só o “melão branco de Almeirim”, por exemplo, pode saber. Mas há uma coisa em que estou certo os homens lhe levam a melhor. É na tal coreografia de mercedo. Diga lá que não… 🙂
Já agora e a propósito de vizinho, Sabe que a Santini agora tem um posto de venda de sorvete no bar do Guincho?????
Nelson Reprezas
Lá está… as estranhas analogias que moram nas cabeças masculinas é que levam a essa interessantíssima coreografia de mercado, vizinho. De facto, sou mais discreta a apreciá-los (aos melões, claro) e a escolhê-los… mas acerto quase sempre.
Em casa da minha avó os melhores melões eram pendurados em redes e guardados até ao Natal, imagine! Mas era no tempo dos “casca de carvalho”, uma delícia que desapareceu com a maldita normalização de tudo.
Obrigada pela informação sobre os Santini dos meus pecados, embora a minha praia de eleição seja a Adraga. Aí ainda não chegaram… mas é sempre bom estar atento!
🙂
Adorei o texto, Nelson. Fantástico. Eu nunca ponho a mão no peixe mas confesso que de vez em quando lá sai essa pergunta. Quanto aos melões e à fruta em geral, excepto morangos e cerejas, cheiro tudo antes de comprar. Nada elegante, eu sei, mas é mais forte do que eu. Bem-vindo e apareça sempre.
Muito obrigado pela simpatia, Leonor. E o prazer foi todo meu.
Nelson Reprezas
Gostei tanto do texto! E o que eu sempre embirrei com essa pergunta inútil que ouvi a minha mãe fazer vezes sem conta quando em criança ia com ela ao mercado! Quanto aos melões, sou completamente estereotipada: não tenho o menor talento para escolhê-los.
Penso que nenhum de nós escapou ao episódio do peixe, nalgum momento da nossa meninice :))) Já quanto aos melões, a Teresa não que se sentir diminuida. Como eu disse, a tarefa é sexista, mesmo. E obrigado pela gentileza do comentário também.
Nelson Reprezas
E isso é tão genuinamente português que nem preciso ouvir o sotaque para saber a nacionalidade dos pouquíssimos homens em volta das mini montanhas de melões nos mercados brasileiros!…:)
Duuuuulce, que prazer ver-te em delito :))) Eu concordo em absoluto. O português só perde a performance se emigrado para um local onde não há melões. Que não me consta ser o caso do Brasil. ***
Quero pedir desculpa pelo atraso em responder a alguns dos comentários, designadamente à Cristina e à Dulce. Tal se ficou a dever a um período de ausência, de resto assinalado no meu blogue.
E uma vez mais aqui deixo o meu reconhecimento pela passadeira vermelha do Pedro Correia que muito me honrou. Tal como um muito obrigado pela simpatia com que todos os comentadores privilegiaram o post. Obrigado a todos.
Nelson Reprezas