Francisco de Sales nos salve


Ana Cláudia Vicente,

Hora de almoço. Pavilhão polivalente onde se encontram afixados os resultados dos exames nacionais. Entrevista de uma repórter de canal noticioso por cabo com um finalista de prestigiado estabelecimento de ensino secundário lisboeta.

 

Jornalista: Correu-lhe bem, o Exame de Português?

 

Aluno: Sim, tive 15.

 

Jornalista: Subiu ou desceu, em relação à nota do ano?

 

Aluno: Manti.

46 comentários em “Francisco de Sales nos salve”

  1. Sim, sim um merecidíssimo 15! Também, se ele soubesse conjugar correctamente o verbo manter, nesse caso teria 20, não?
    Não vamos ser demasiadamente exigentes com as crianças, está bem?…

  2. Deixe-me “conferir”:
    Eu manti, tu mantiste, ele mantiu…
    Está certo…, não percebo porque é que prejudicaram o rapaz daquela maneira indecente. Com um 15 é capaz de não conseguir entrar numa daquelas faculdades que exigem médias mais altas, coitado. Que injustiça!

    1. Por acaso (coisas minhas) significa duas coisas, Luís:

      – que, «na linguagem falada, rapidamente, descuidadamente, muita gente dá imensos erros gramaticais»;

      – que, nas outras linguagens, também muita gente dá imensos erros gramaticais.

    2. Olá, caro Luís Lavoura. Até posso concordar consigo no tocante a que, em algum momento, todo damos o nosso pontapé na língua-mãe, mas irra, há erros e erros, e a conjugação dos verbos mais básicos costuma ficar resolvida pelo 7º, 8ºano! Não estamos a falar de advérbios esquisitos ou concordâncias bizarras. Não consigo concordar consigo: erros destes significam alguma coisa.

    1. Olha o João da Praça da República! Votos de consideráveis quantidades de ar condicionado para essas bandas 🙂

      No meu tempo de aluna e professora-estagiária o 15 era bem acima da linha d’água, agora não sei.

  3. Epá estes jornalistas, também são uns cuscos, tem de saber tudo…

    A ver se a rapariga lhe perguntou:

    Então ontem, correu-lhe bem a saída?
    Subiu ou desceu em relação á anterior?

        1. Mas não, cara eventual familiar 🙂 (dos “Vicentes”)

          Não aludia ao seu post, antes ao comentário de quem assinou como cr às 17:39.

          E tem razão, quem é que afinal está livre de não errar? Ou será herrar…?

  4. LOL
    Ah pois ou de onde julgam que saem, por exemplo, os pivots (que me perdoem os meus amigos e co-bloggers jornalistas) e jornalistas que nos brindam com tantas pérolas? Os três anos de Bolonha também não ajudam grande coisa.

  5. O rapaz já se vem justificar que ” mantiu “. Aguardem ! Minha rica 4ª classe !!!!! Meus ricos professores !!!! Estes não admitiam que eu ” mantisse ” daquela forma ! Como é que ele diria o mesmo em Mirandês? Ou com o sotaque dos Açores ? Mantive ?

      1. Penso que mantive é açoriano, porque, por enquanto, nos Açores também se fala português. Em algumas situações, melhor que no ” contenente “.

      1. Pode até nem ter grande potencial para título de post . Mas de uma coisa eu tenho a certeza : Estava apto a fazer melhor figura, que o figurão que dá respostas daquelas. Mas olhe que há jornalistas, que não vão muito mais longe. Por isso é que eu gosto do DO, aqui, além de outras coisas, também se aprende português.
        Até se consegue brincar ” à séria “.

        1. Se a nossa língua sofre tratos de polé, obviamente que o meio jornalístico não poderia escapar, até pela visibilidade acrescida em relação a tantas outras profissões.
          Aqui também há uns deslizes (eu próprio, desde logo), mas é verdade que todos nós procuramos que o DO seja um lugar de culto do português. E o seu brasileiro é muito bom, Zé. À séria.

  6. O “fostes”, o “vistes” e o “fizestes” são os clássicos seguidos bem de perto pelo “prontos” mas o “manti” é muito bom. Quero pensar que o miúdo era gago e quando disse o “ve” já estavam na parte comercial do noticiário.

    1. Deus o ouvisse e tivesse pena dele, meu caro. E de nós.

      — Ouvisteis, Senhor?
      — Ouvi – respondeu o Altíssimo.
      — Tivesteis pena, Senhor?
      — Não me conti – respondeu Ele.

      1. O rapaz ao chegar a casa ouviu a mãe a dizer-lhe “disseste manti na televisão e não estava correcto, vai já estudar”.
        Mais tarde e depois dele estudar a mãe pergunta-lhe “já bebeste o leite?” ao que ele responde “bebive”…

    2. Se calhar foi isso, a última sílaba foi engolida na montagem, caro(a) comentador(a) 🙂

      Quanto ao ‘prontos’ uma nota curiosa para os aficcionados da conservação das interjeições em extinção: já repararam que aquele tem sido quase absolutamente substituído pelos bordões de linguagem

      ‘tipo’ (a meio da frase), e
      ‘é assim:’, no início?

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