Uma viagem na nossa terra


Pedro Correia,

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Viagem de comboio Faro-Lisboa, no Alfa pendular. Princípio da tarde: quatro amigos do Entroncamento, sexagenários já reformados, foram almoçar à capital do Algarve e regressam à terra. Durante três horas, só falam de comida. E em voz bem alta: toda a gente na carruagem os escuta.
Alguns excertos:

A – Aqueles carapauzinhos e aquele arrozinho estavam de estalo!
B – E o porco preto também.
C – Só fiquei sem saber se era porco ou era porca.

(todos riem)

 

D – Valeu a pena virmos almoçar a Faro. Agora havemos de ir a Beja. Um gajo come lá, perto da estação, e volta. Uma açorda à alentejana, um ensopado de borrego…
A – E aviamos antes um pratinho de caracóis. Com orégãos, à alentejana.
C – Tem é de ser à sombra, para não derretermos.
 

(todos riem)

 

B – Eh, pá! Quando é que vamos almoçar à Farmácia? Dizem que é o melhor restaurante do País. E que tem um vinho branco de Amarante que é um espectáculo.
C – Onde é?
B – Em Matosinhos. O gordo do Preço Certo diz que é muito bom.
D – Ele deve ir lá muita vez!

(todos riem)


A – Então sempre se faz a sardinhada na terça-feira?
C – Claro que sim. Vamos reunir o grupo…
A – Vão o Mesquita, o Vasco Pedreiro, o Zé Maria Lavrador. Posso convidar o meu amigo Trindade e o meu compadre Canaca.
D – Eu levo vinho. Tenho lá vinho bom bom bom. Cinco estrelas.
B – Batatinha nova também é preciso levar?
C – Eu levo o café.
A – Eu combino aqui com o Pratas e vamos comprar as sardinhas ao Pingo Doce. Tenho que saber quantas são. Não convém comprar a mais, para não se estragarem.
B – Cinco a cada um chegam.
C – Eu como cinco ou seis, não mais.
A – Então compram-se cinquenta sardinhas: pode aparecer mais um voluntário… E cinco quilos de batatas.
B – Eh, pá! É melhor alugares uma camioneta.

(todos riem)


A – E para que horas se marca aquilo?
D – A sardinha é muito indigesta. É melhor ser ao meio-dia.
C – É conveniente arranjar tomate também?
A – Vou à praça comprar uma broazinha.
B – Ó Rodrigues, e um Serra da Estrela?
A – Faz-se uma sopinha também, se for preciso.
D – Para a sardinha não se leva cerveja, só vinho. Disso trato eu. Tenho lá do bom! Tira-se a rolha e parece champanhe.
C – Eu levo uns pastelinhos de bacalhau.
B – Isso pede cerveja. Eu levo umas cervejinhas.
A – A gente depois lava a loiça. Tenho lá um avental…
B – Tens lá um avental?! És algum maricão?

(todos riem)

23 comentários em “Uma viagem na nossa terra”

  1. Que grupo do caraças.

    A título de curiosidade: a Farmácia referida pelo B e assim conhecida há décadas é a Adega Campos, em Leixões, onde outrora almoçavam os grandes industriais têxteis do Norte, que iam ao cais verificar o algodão que vinha de Angola e Moçambique.

    A Farmácia (porque fazia bem à saúde) era em chão de terra, mesas compridas e bancos corridos. Cada qual servia-se dos panelões até não querer mais (o mesmo com o vinho da casa). O preço era fixo. Não faço ideia como estará hoje em dia.

    1. Eram uns pândegos que não se imagina. Tugas até à medula. O que aqui vem é, naturalmente, só uma pequena parte do paleio que foram travando durante a viagem. Sempre – e só – a falarem de comida e bebida. Duas horas bem contadas. Quando já não tinham assunto, próximo de Lisboa, acabaram a cantar o fado – e puseram quase toda a gente na carruagem, incluindo estrangeiros, a cantar com eles.

  2. … (choro a rir, neste momento)
    … (sem capacidade para reflexões mais profundas)
    … (continuo a rir)
    … (mas que isto dá que pensar, dá)
    … (continuo a rir)
    … (post perfeito)

    :))))

  3. Caríssimo, assim à vista desarmada, as violas eléctricas da foto parecem Fenders.
    E a minha dúvida (tenho uma Fender) é: o que é que as Fenders têm a ver com esses glutões ?
    Saudações musicais.

    1. Tirando o número quatro não tem nada a ver, 100 Anos. Foi só para dar um toque suplementar de ‘non sense’ à coisa. Podia ter posto quatro sanfonas ou quatro “ferrinhos”. Mas não era a mesma coisa.

      1. Obrigado.
        Tenho uma certa, digamos, veneração pelas Fender, em especial pelas Stratocasters e pelas Telecasters, que são, segundo penso, exactamente as que aparecem na gravura.
        Seria engraçado no fim de um repasto bem servido e bem regado cada um dos glutões pegar na sua Fender e os quatro fazerem um som alusivo ao seu estado de alma.
        Mas isso era capaz de já ser pedir demais…

  4. Mesmo tendo-me perdido nas letras (apesar das cores) é uma conversa deliciosa. E seja que tema for é importante que continuemos a ver grupos de amigos reformados e bem dispostos a conseguirem deslocar-se, a alguma distância, com o objectivo nobre de almoçar. Nos dias que vão correndo já não será uma visão frequente.

  5. Também é bastante Português gozar com a parolice do povo (dos “populares”, como dizem na TV). Eu pelo menos estou sempre a fazer isso. O que me irrita mais é mesmo a brejeirice.

    1. Estes não eram nada “parolos”, acredite. Com passe vitalício da CP, que lhes permite andar de comboio quando querem e onde querem (daí almoçarem em várias capitais de distrito). Parolos são os que não têm esta regalia.

  6. A continuarem assim, estes amigalhaços vão mesmo almoçar à Farmácia não tarda nada. E jantar ao Hospital. E dormir ao Cemitério…
    Mas uma coisa é certa: vão felizes!

    Adorei o post.

  7. Muito gostoso este post turístico-gastronómico, relatando as aventuras destes quatro comilões. Acho piada a estes maduros que se dispõem a fazer centenas de quilómetros num dia só para apreciar um bom petisco.

  8. Que delicioso Post , Pedro. A foto não podia ser melhor – eu pensava que não houvesse “fastio” que resistisse…:))

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