Alguns excertos:
B – E o porco preto também.
C – Só fiquei sem saber se era porco ou era porca.
D – Valeu a pena virmos almoçar a Faro. Agora havemos de ir a Beja. Um gajo come lá, perto da estação, e volta. Uma açorda à alentejana, um ensopado de borrego…
A – E aviamos antes um pratinho de caracóis. Com orégãos, à alentejana.
C – Tem é de ser à sombra, para não derretermos.
(todos riem)
B – Eh, pá! Quando é que vamos almoçar à Farmácia? Dizem que é o melhor restaurante do País. E que tem um vinho branco de Amarante que é um espectáculo.
C – Onde é?
B – Em Matosinhos. O gordo do Preço Certo diz que é muito bom.
D – Ele deve ir lá muita vez!
(todos riem)
A – Então sempre se faz a sardinhada na terça-feira?
C – Claro que sim. Vamos reunir o grupo…
A – Vão o Mesquita, o Vasco Pedreiro, o Zé Maria Lavrador. Posso convidar o meu amigo Trindade e o meu compadre Canaca.
D – Eu levo vinho. Tenho lá vinho bom bom bom. Cinco estrelas.
B – Batatinha nova também é preciso levar?
C – Eu levo o café.
A – Eu combino aqui com o Pratas e vamos comprar as sardinhas ao Pingo Doce. Tenho que saber quantas são. Não convém comprar a mais, para não se estragarem.
B – Cinco a cada um chegam.
C – Eu como cinco ou seis, não mais.
A – Então compram-se cinquenta sardinhas: pode aparecer mais um voluntário… E cinco quilos de batatas.
B – Eh, pá! É melhor alugares uma camioneta.
(todos riem)
A – E para que horas se marca aquilo?
D – A sardinha é muito indigesta. É melhor ser ao meio-dia.
C – É conveniente arranjar tomate também?
A – Vou à praça comprar uma broazinha.
B – Ó Rodrigues, e um Serra da Estrela?
A – Faz-se uma sopinha também, se for preciso.
D – Para a sardinha não se leva cerveja, só vinho. Disso trato eu. Tenho lá do bom! Tira-se a rolha e parece champanhe.
C – Eu levo uns pastelinhos de bacalhau.
B – Isso pede cerveja. Eu levo umas cervejinhas.
A – A gente depois lava a loiça. Tenho lá um avental…
B – Tens lá um avental?! És algum maricão?


Que grupo do caraças.
A título de curiosidade: a Farmácia referida pelo B e assim conhecida há décadas é a Adega Campos, em Leixões, onde outrora almoçavam os grandes industriais têxteis do Norte, que iam ao cais verificar o algodão que vinha de Angola e Moçambique.
A Farmácia (porque fazia bem à saúde) era em chão de terra, mesas compridas e bancos corridos. Cada qual servia-se dos panelões até não querer mais (o mesmo com o vinho da casa). O preço era fixo. Não faço ideia como estará hoje em dia.
Eram uns pândegos que não se imagina. Tugas até à medula. O que aqui vem é, naturalmente, só uma pequena parte do paleio que foram travando durante a viagem. Sempre – e só – a falarem de comida e bebida. Duas horas bem contadas. Quando já não tinham assunto, próximo de Lisboa, acabaram a cantar o fado – e puseram quase toda a gente na carruagem, incluindo estrangeiros, a cantar com eles.
Tens a certeza que não foste no comboio com o Waldorf, o Statler e Cia., dos Marretas, disfarçados de nacionais? 🙂
Marretas eram de certeza. Eheh…
E da CP. Companheiros da Paródia.
… (choro a rir, neste momento)
… (sem capacidade para reflexões mais profundas)
… (continuo a rir)
… (mas que isto dá que pensar, dá)
… (continuo a rir)
… (post perfeito)
:))))
Caríssimo, assim à vista desarmada, as violas eléctricas da foto parecem Fenders.
E a minha dúvida (tenho uma Fender) é: o que é que as Fenders têm a ver com esses glutões ?
Saudações musicais.
Autenticidade
Tirando o número quatro não tem nada a ver, 100 Anos. Foi só para dar um toque suplementar de ‘non sense’ à coisa. Podia ter posto quatro sanfonas ou quatro “ferrinhos”. Mas não era a mesma coisa.
Obrigado.
Tenho uma certa, digamos, veneração pelas Fender, em especial pelas Stratocasters e pelas Telecasters, que são, segundo penso, exactamente as que aparecem na gravura.
Seria engraçado no fim de um repasto bem servido e bem regado cada um dos glutões pegar na sua Fender e os quatro fazerem um som alusivo ao seu estado de alma.
Mas isso era capaz de já ser pedir demais…
Eheheheh. Também acho que já seria pedir de mais. Deu-lhe pró faduncho, e já não foi mau… Um deles cantava afinadinho.
De-li-ran-te….!!!
:)))
O mais engraçado era que dominavam por completo as atenções e até parecia que nenhum deles se apercebia disso.
Mesmo tendo-me perdido nas letras (apesar das cores) é uma conversa deliciosa. E seja que tema for é importante que continuemos a ver grupos de amigos reformados e bem dispostos a conseguirem deslocar-se, a alguma distância, com o objectivo nobre de almoçar. Nos dias que vão correndo já não será uma visão frequente.
É bem verdade, Ana. Antes isso do que ficar horas perdidas num solitário banco de jardim.
Também é bastante Português gozar com a parolice do povo (dos “populares”, como dizem na TV). Eu pelo menos estou sempre a fazer isso. O que me irrita mais é mesmo a brejeirice.
Estes não eram nada “parolos”, acredite. Com passe vitalício da CP, que lhes permite andar de comboio quando querem e onde querem (daí almoçarem em várias capitais de distrito). Parolos são os que não têm esta regalia.
A continuarem assim, estes amigalhaços vão mesmo almoçar à Farmácia não tarda nada. E jantar ao Hospital. E dormir ao Cemitério…
Mas uma coisa é certa: vão felizes!
Adorei o post.
Uma viagem de comboio diferentes das outras, Ana. A vantagem de não recorrer sempre ao alcatrão.
Muito gostoso este post turístico-gastronómico, relatando as aventuras destes quatro comilões. Acho piada a estes maduros que se dispõem a fazer centenas de quilómetros num dia só para apreciar um bom petisco.
Também eu, Luís. Estes, pela pinta, devem mesmo ser bons garfos.
Que delicioso Post , Pedro. A foto não podia ser melhor – eu pensava que não houvesse “fastio” que resistisse…:))
Obrigado, Maria Ema. Deu-me gozo fazer este texto, confesso.