No último dia de Maio expirou o meu bilhete de identidade, e tive por isso de fazer o cartão do cidadão (esperei até ao último dia). Quando estava a dar os meus dados ao funcionário da repartição, ele disse-me que a morada que lhe tinha fornecido – do Alentejo, que é a que dou sempre para efeitos de documentação – não existia na base de dados utilizada, que, acrescentou, é a dos CTT. No entanto, o código postal coincidia com uma morada provável, pelo que, na falta de alternativas, ficou essa.
Previsivelmente, a carta que me permitia ir à repartição buscar o meu cartão do cidadão (maldita rima) foi parar à morada errada – mais precisamente, foi entregue a um vizinho cuja casa tem o mesmo número que a minha, mas que fica… no quarteirão ao lado (na prática, são dois bairros – maravilhas das “urbanizações” portuguesas). A vantagem das aldeias é que toda a gente se conhece; e, pelo menos na minha, não há grandes inimizades entre vizinhos – que eu saiba, claro. Por isso, a carta acabou por chegar a mim, intacta. Voltei hoje à repartição para ir buscar o meu cartão e alterar a morada. Mas, uma vez mais, foi-me dito: esta morada não existe.
O que não deixa de ser curioso: a casa está naquele sítio há largos anos, os meus pais vivem lá; o meu banco envia extractos regulares para aquela morada; a biblioteca municipal envia-me, todos os anos, um postal pelo meu aniversário (são simpáticos); a minha antiga universidade sempre enviou para lá correspondência; e, mais curioso, as Finanças enviam para lá toda a minha correspondência (o Fisco funciona sempre, afinal). Ora nunca uma carta foi parar a casa de um vizinho ou foi de alguma forma transviada. Logo, a morada existe, apesar de a base de dados dos CTT insistir que não. Digo à funcionária que isso é impossível, pelos motivos acima citados, e por um motivo bem mais simples: os meus pais têm o cartão do cidadão com a morada correcta. A partir do nome da minha mãe, a funcionária verificou que, na identificação dela, aparece a morada correcta. No entanto, essa morada continua a não existir; e se a morada não existe, explicou a funcionária, o cartão não pode ser emitido. Enfim, lá foi encontrada uma forma de contornar o sistema informático; mas meia hora mais tarde, estava eu a almoçar (muito para lá da hora), telefonam-me da repartição a dizer… que a morada que eu tinha dado não existia.
“Existe, sim, ou eu sofro de alucinações há quase uma década”, respondo-lhe, acrescentando: “é a base de dados dos CTT que está errada.” “Não pode ser.” “Não só pode como está. Resolvam como quiserem.” “Certo. Irá provavelmente demorar mais algum tempo do que o previsto.” “Está bem. Eu aviso o meu vizinho.”
E é isto o choque tecnológico. O cartão do cidadão não serve para eu votar à distância, a partir de Lisboa; não serve para eu ter uma consulta médica em Lisboa (já me foi recusado atendimento médico várias vezes); e a base de dados utilizada não reconhece um lugar onde vivem algumas dezenas de pessoas. Doze euros para isto. Porreiro, pá.

Alentejo, aldeia onde todos os vizinhos se conhecem, correios… pode crer meu caro foi um lapso de antecipação do futuro… Aldeia, vizinhos, correios, a sua morada, tudo isso existe mas deixará de existir. No meu mapa previsional já não consta…
V vive próximo do fim do Mundo!
Eu vivo é para lá do fim do mundo… está a ver onde Judas perdeu as botas? Siga em frente até à rotunda, vá pela segunda saída, entre na primeira à direita. Qualquer coisa deste género..!
Já te recusaram atendimento médico? Em centros de saúde? Eu estou registada noutra cidade, mas nunca tive problemas aqui. De uma vez, pedi consulta de urgência, e nem fizeram perguntas. De outra, num centro diferente, fizeram-me uma inscrição provisória. Estranho muito isso.
Três vezes. A última foi durante o auge da gripe A. Com todos os sintomas de gripe, fui de 738 desde Santo Amaro até ao hospital de Santa Maria.
Mais ou menos como eu, depois de seis anos aqui, a receber cartas de todas a gente, descubro ao pedir o Cartão de Cidadão que o código postal que sempre usei está errado.
Desconfio da base de dados dos CTT.
Caro João, já dizia o Willy Brandt: “Todos os problemas políticos têm solução, excepto um – o da burocracia administrativa.”
Simplex.
E dizia muito bem.
Eh!eh! (desculpa, eu sei que para ti não tem graça nenhuma, mas a história acaba por ter piada por ser tão.. tão… kafkiana. É isso.)
Ora essa, Teresa. Temos mesmo que nos rir destas aventuras. É que se elas não forem cómicas, são trágicas… e eu sempre prefiro o riso.
Permito-me perguntar: se quer votar em Lisboa e se quer aceder a serviços de saúde em Lisboa, por que não dá a sua morada de Lisboa – que, pelos vistos, é o local onde você efetivamente reside a maior parte do tempo – para o cartão?
V. já estava a fazer falta no imbróglio, Luís. Quanto é que o Simplex lhe paga?…
Respondo de boa vontade, caro Luís: porque vivo em Lisboa há sete anos, e mudei sete vezes de casa (dá uma por ano), sempre para freguesias diferentes e tão díspares como Alvalade e Algés. Uma vez que o serviço em si funciona mal, teria de mudar o meu historial clínico sempre que mudo de casa. É pouco prático.
Relativamente à questão eleitoral, posso dizer-lhe que é com muito boa vontade (e dentro das minhas possibilidades) que me desloco à minha terra natal para votar. Continuo a gostar muito da terra, e acho que o meu voto lá tem muito mais importância do que em Lisboa
Agora pergunto-lhe eu: se os serviços estão informatizados, o que impede o centro de saúde de Alcântara, por exemplo, de me atender e de ter acesso ao meu historial clínico se eu precisar de lá ir? E se eu for votar em Alcântara – o que impede a mesa de voto de, ao introduzir o meu cartão no leitor, colocar o meu voto na freguesia a que ele pertence? É que se a tecnologia não serve para coisas como estas – que efectivamente simplificam a vida dos cidadãos -, então é redundante, ou pior: é apenas mais uma camada de burocracia, quando o seu propósito devia ser o de reduzir a burocracia.
A sua pergunta sobre o mau funcionamento dos serviços de saúde faz sentido, de facto.
Talvez haja envolvidas questões de privacidade, de procurar impedir que qualquer médico, que não apenas o seu médico de família, tenha acesso ao seu historial clínico. Não sei.
De qualquer forma, penso que seria mais vantajoso para si poder ser atendido por um médico em Lisboa, mesmo que esse médico fosse mudando à medida que a sua residência muda, do que só ter médico no Alentejo, onde ele de nada lhe serve.
Luís: qual médico de família? O meu último médico de família saiu do centro de saúde do meu concelho há dois anos, e nunca mais me foi atribuído um – a mim ou às pessoas da minha aldeia. Actualmente, o meu imunoalergologista, médico particular, sabe muito mais sobre a minha saúde do que todos os médicos juntos lá do centro de saúde..!
Na prática, eu posso ser visto por um médico em Lisboa: se adoecer a um sábado, posso ir ao atendimento complementar do centro de saúde da minha freguesia; se adoecer noutro dia qualquer, vou para as urgências do Santa Maria ou do São José. Passo lá umas horas (sete para traumatismo craniano, cinco para sintomas de apendicite, duas, com desistência, por arritmia cardíaca ou algo similar). Por gripe A foi rápido, se excluírmos a viagem de autocarro…
Pois, mas se você tivesse a sua morada oficial em Lisboa, talvez conseguisse que lhe atribuíssem um médico de família cá, e então, talvez quando adoecesse durante a semana pudesse recorrer rapidamente a esse médico, em vez de ir para as urgências.
Parece-me que, em matéria de serviços de saúde, a sua situação atual, de ser residente no Alentejo, não tem nenhuma vantagem para si. Se residisse oficialmente em Lisboa poderia, pelo menos teoricamente, ser vantajoso para si (ter acesso mais barato e rápido a cuidados de saúde).
Mesmo que você depois, dentro (da área) de Lisboa, mudasse de residência, sempre disporia do médico de família da sua residência antiga. A minha mulher, por exemplo, desde que veio viver comigo, já lá vai um ror de anos, nunca deixou de utilizar a sua médica de família do seu antigo local de residência, em vez de se mudar para um médico do seu novo local de residência, uma vez que gosta dessa médica.
Em suma, continuo a não ver vantagem nenhuma, para si, em manter a sua residência oficial no Alentejo. Se residisse em Lisboa poderia não ter vantagens, mas até podia ser que tivesse. E quando tivesse que votar, teria que se deslocar menos, e o seu voto até contaria mais (para as legislativas).
Estive quase – quase – a fazê-lo depois do meu último filme com os serviços de saúde, em Novembro. A verdade é que, tanto quanto sei, isso não é muito fácil de fazer sem um comprovativo de residência; é verdade que de uma vez consegui inscrever-me num clube de vídeo com um talão de uma entrega de pizza (estava lá o nome e a morada), mas duvido que aceitem a factura do Meo para efeitos de residência.
De qualquer maneira, e voltando ao ponto inicial – afinal, para que serve o cartão do cidadão? Para ficar bonito na carteira?
Olha, John, uma vez que o Luís se referiu à privacidade, deixo-te aqui uma achega: trata do chip para as autoestradas e acrescenta-lhe os dados que puderes.
Como ficarás com todas as situações memorizadas na matrícula do automóvel, bastar-te-á entrar de carro nos Centros de Saúde, nas mesas de voto, nos Registos Civis, nos CTT e em casa dos teus vizinhos mais próximos lá na terra.
Haha.
Mas, João, apesar de a ideia ser excelente, ela tem um pequeno problema: eu nem carta de condução tenho..!
Isso é que é mais grave. Mas podes requerer ao Parlamento, talvez, um chip de pendurar ao pescoço…
A história que conta é um exemplo da forma distorcida como a incompetência lida com a tecnologia – em vez de porem a tecnologia ao serviço das pessoas perdem tempo e feitio a “encaixarem” as pessoas e os problemas nos espaços que a tecnologia terá criado para elas.
E conseguem assim que uma coisa maravilhosa, que é um bom computador a trabalhar para as pessoas, se torne um pesadelo e uma paranóia tecnológica.
Há gente que onde põe a mão, estraga logo – o toque de Midas ao contrário, em vez de ouro fazem m….da.
E aos baldes… Diria que o problema é burocrático: as mentes que concebem este tipo são burocráticas, e não conseguem pensar de outra forma.
A sua morada é na Terra do Nunca. Onde Peter Pan já pode casar com o Capitão Gancho…
Cumpts.
… E a Sininho com a Alice do País das Mravilhas?
Kafkiano…
Por acaso ainda não precisei de C.U., agora CC…Mas há coisas giras que se passaram com a minha mulher : Andaram a chatear para fazer uma inscrição no Centro de Saúde, onde não há médicos de família…depois não põe o nº no cartão com a desculpa-pois é disso que se trata- porque é beneficiária da ADSE…Ah, e convém guardar o Cartão de Eleitor, que furaram com zelo, porque normalmente o CC não funciona nas mesas de voto…
Ah ganda pinóquio!