No ponto mais alto de Tavira, junto ao castelo, com uma vista deslumbrante. A tarde vai-se escoando lentamente, ao ritmo deste Verão que tanto tardou a chegar. Gosto de rever as olaias e as oliveiras no largo fronteiro, de ouvir o som dos sinos a assinalar a passagem das horas, de ver o céu riscado pelo labor incessante das andorinhas. Janto na larga varanda debruçada sobre a cidade num dos meus restaurantes de eleição. A Ver Tavira. Entrada: pétalas de tomate confitado com lascas de bacalhau e tapete de massa brick regado com azeite de tomilho. Leio num jornal que a frota automóvel do Estado português aumentou em 1200 veículos entre 2008 e 2009 – excelente exemplo num país em crise. Perante casos como este, como é que o Governo socialista tem autoridade moral para pedir cada vez mais sacrifícios aos portugueses, nomeadamente no plano fiscal?
A noite vai caindo. Chega-me agora à mesa o prato principal: lombinho de tamboril enrolado em bacon confitado servido com camarão e risotto de coentros com molho de caril. Outro jornal informa-me que há já quem, a pretexto da crise, queira reduzir os feriados para o número mínimo (Natal e pouco mais) e questione até as “férias pagas” dos trabalhadores portugueses. Para esta gente, que se proclama de direita, o cenário ideal é o da China, onde o Partido Comunista funciona simultaneamente como entidade patronal e comissão liquidatária de todos os direitos laborais – incluindo o direito à greve e o direito ao sindicalismo independente do poder político. Uma vez mais, os extremos tocam-se.
Mas não há só más notícias nas páginas dos diários portugueses e espanhóis que folheio em férias. Um taxista britânico acaba de receber em herança 300 mil euros de uma velhota sem família recém-falecida num lar. O homem conduziu a senhora diariamente, durante duas décadas – e ela mostrou não ser ingrata, o que nos leva não perder por completo a fé na natureza humana. Parece aquele filme, Driving Miss Daisy. Mas os enredos da vida real ultrapassam tantas vezes os da ficção. Em quantidade e qualidade.
É hora da sobremesa. Bolo de mousse de chocolate com gelado de manga e framboesa. Todas as luzes de Tavira já se acenderam. Confirmo: é uma cidade de um encanto sem par.


…que bonito!Obrigada pela foto!E pela história do taxista!Coisas como estas fazem-nos pensar que há vida para além da crise 🙂
A história do taxista é fantástica. Estou demasiado preguiçoso para fazer ‘links’… ma è vero.
Eu acredito. E cuidado com a preguiça, que é pecado mortal! E continuação de boas-férias! 🙂
Estás muito poético. E muito confitado… será da noite que cai em Tavira?
Sabe-me tão bem estar longe de Lisboa, Ana. A minha ruralidade ancestral vem logo à superfície.
Então goza-a bem! Mas não voltes de patilhas e bigode farfalhudo, que te ficam mal…
Já que pedes, assim (não) farei.
Tavira é um dos meus “refúgios” de eleição. A ver se neste Verão não falho, pelo menos durante um fim-de-semana, o meu ritual café de fim de tarde na Praça Velha…
Gosto de Tavira em qualquer mês. Mas sobretudo em Junho, mês das festas da cidade, que está toda engalanada e tem arraiais de rua.
Uma curiosidade: gostou da música ao vivo? Just for the record.
Não havia, embora o piano estivesse lá. Talvez houvesse mais tarde: como não almoço em férias, costumo jantar mais cedo – cerca das 19.30.
Caríssimo,
Na semana passada a agua estava gelada.
Forte abraço, boas ferias e veja se descansa,
A água agora está melhorzinha.
Obrigado. Abraço.
Boa continuação e continue a deliciar-nos com os seus post´s de férias.
abraço
Têm sido férias com muito futebol. De quatro em quatro anos é assim.
Abraço.
E quanto foi a conta para pagar esse elaborado repasto?
E quem pagou, você do seu bolso ou alguma empresa (qual?) por si?
Foi com o dinheiro dos contribuintes portugueses, Lavoura. Ainda não lhe tinha contado que as minhas férias costumam ser pagas com o dinheiro dos contribuintes?
Gostei muito desse “…Jantar em Tavira”, Pedro, fiquei com água na boca, quero mais…:))
Tavira é um dos meus refúgios, Maria Ema. Outro é o Funchal.
E tudo isso foi regado com quê?
‘Vinha da Defesa’, branco. Não estava mal.
Boa escolha, sem dúvida. Embora actualmente eu só beba branco quando não há vinho, como dizia o outro…
Pois. Mas quando o calor aperta, não fica nada mal uma garrafa de branco num ‘frappé’ à distância da mão.