Um jantar em Tavira


Pedro Correia,

 

No ponto mais alto de Tavira, junto ao castelo, com uma vista deslumbrante. A tarde vai-se escoando lentamente, ao ritmo deste Verão que tanto tardou a chegar. Gosto de rever as olaias e as oliveiras no largo fronteiro, de ouvir o som dos sinos a assinalar a passagem das horas, de ver o céu riscado pelo labor incessante das andorinhas. Janto na larga varanda debruçada sobre a cidade num dos meus restaurantes de eleição. A Ver Tavira. Entrada: pétalas de tomate confitado com lascas de bacalhau e tapete de massa brick regado com azeite de tomilho. Leio num jornal que a frota automóvel do Estado português aumentou em 1200 veículos entre 2008 e 2009 – excelente exemplo num país em crise. Perante casos como este, como é que o Governo socialista tem autoridade moral para pedir cada vez mais sacrifícios aos portugueses, nomeadamente no plano fiscal?

A noite vai caindo. Chega-me agora à mesa o prato principal: lombinho de tamboril enrolado em bacon confitado servido com camarão e risotto de coentros com molho de caril. Outro jornal informa-me que há já quem, a pretexto da crise, queira reduzir os feriados para o número mínimo (Natal e pouco mais) e questione até as “férias pagas” dos trabalhadores portugueses. Para esta gente, que se proclama de direita, o cenário ideal é o da China, onde o Partido Comunista funciona simultaneamente como entidade patronal e comissão liquidatária de todos os direitos laborais – incluindo o direito à greve e o direito ao sindicalismo independente do poder político. Uma vez mais, os extremos tocam-se.

Mas não há só más notícias nas páginas dos diários portugueses e espanhóis que folheio em férias. Um taxista britânico acaba de receber em herança 300 mil euros de uma velhota sem família recém-falecida num lar. O homem conduziu a senhora diariamente, durante duas décadas – e ela mostrou não ser ingrata, o que nos leva não perder por completo a fé na natureza humana. Parece aquele filme, Driving Miss Daisy. Mas os enredos da vida real ultrapassam tantas vezes os da ficção. Em quantidade e qualidade.

É hora da sobremesa. Bolo de mousse de chocolate com gelado de manga e framboesa. Todas as luzes de Tavira já se acenderam. Confirmo: é uma cidade de um encanto sem par.

 

23 comentários em “Um jantar em Tavira”

  1. …que bonito!Obrigada pela foto!E pela história do taxista!Coisas como estas fazem-nos pensar que há vida para além da crise 🙂

  2. Tavira é um dos meus “refúgios” de eleição. A ver se neste Verão não falho, pelo menos durante um fim-de-semana, o meu ritual café de fim de tarde na Praça Velha…

  3. Caríssimo,

    Na semana passada a agua estava gelada.

    Forte abraço, boas ferias e veja se descansa,

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