Frases do ano (36)


Ana Vidal,

“Há uns pândegos que dizem que fomos apanhados de surpresa pela crise internacional. É preciso ter coragem para dizer tal coisa.”

Ernâni Lopes, no Plano Inclinado de ontem

 

“Quem defende a durabilidade do Estado social, ou é ignorante ou mentiroso. Ou ambas as coisas, o que não é invulgar.”

Medina Carreira, no mesmo programa

28 comentários em “Frases do ano (36)”

  1. E, por acaso, estas duas figurinhas, que se divertem a insultar, têm algum crédito? Fizeram o quê? Contribuiram para quê, neste país? Quantas reformas acumulam mensalmente? Ah pois é…

    1. As suas observações estão muito estafadas. Já tenho encontrado gente mais esclarecida, desculpe que lhe diga.

      Não sei que crédito lhes dá, mas se não fizeram mais talvez seja por não terem sido chamados. Mas, visto que eles têm o direito à opinião como toda a gente, eu preferia que V. apontasse alguma coisa que eles digam e que a realidade não confirme.

      Não sei se eles acumulam reformas, mas se V. acumulasse reformas, além de se recusar a receber umas e de deitar outras pela janela fora, o que é que faria às restantes?

      1. Quem se assume logo á partida com o nick “Esclarecida” eu diria que está tudo dito, ao antes, escrito!

      1. Como gravo a série, vi. E este foi especialmente bom, por causa da presença de Ernâni Lopes, sempre claríssimo e didáctico nas intervenções (apeteceu-me roubar-lhe os quadros). Não me espantou nada aquilo que disse, com toda a autoridade de quem pratica o que recomenda. Mas que custa ouvir, custa. É doloroso ouvir a sentença, mesmo quando já se conhecem os crimes e os criminosos 🙁

        1. É doloroso, sim, mas pelo menos não nos chama idiotas.

          (Uma curiosidade: aprendi a escrever Hernâni com H, mas como estava na dúvida fui ver ao Expresso e encontrei lá as duas formas referindo-se à mesma pessoa. E agora?)

          1. Também aprendi com H. Mas julgo que no caso dele é mesmo sem a dita consoante muda. Não é o novo acordo ortográfico 🙂

    2. O Dr. Henrique Medina Carreira é das poucas pessoas neste país que revela a realidade. O resto é conversa. Os portugueses já estão fartos do circo montado em torno da situação actual do Estado português. Portugal precisa de gente séria e não de políticos que governam para se governarem.

  2. Pois é, já tinham avisado há muito…

    Entre a surpresa inocente
    e a falsidade ignorante,
    brota o motivo indecente
    dessa lamentação murmurante.

    Neste estado demencial,
    de tamanha estupefacção,
    a atitude prudencial
    não existe com tal inacção.

  3. Ao contrário do que insinua uma anónima que aqui apareceu, Ernâni Lopes fala com toda a autoridade. Foi ele que evitou a bancarrota em 1983-85, ao mesmo tempo que conduzia com sucesso as negociações para a adesão de Portugal à CEE. Medina Carreira, por sua vez, tem toda a razão no que diz: Portugal e outros países da UE não podem continuar a financiar o seu “estado social” à custa do esforço fiscal dos contribuintes europeus, designadamente os alemães, e das verbas comunitárias. Enquanto essas torneiras pingaram, povoámos o País de inúteis estádios de futebol e de milhares de rotundas igualmente inúteis. Mas agora as torneiras fecharam e “caímos na real”, como dizem os brasileiros.

    1. Claro, Pedro. Ambos sabem muito bem o que dizem e o único crime que cometem é mostrar ao país o estado real em que está, que é gravíssimo. Mas há sempre quem prefira acreditar no país do Noddy de Sócrates, o que eu até compreendo. O pior é que o preço de tanta fantasia é muito alto, e cada dia será mais.

    2. Se Ernâni Lopes realmente efectuou um excelente trabalho enquanto ministro das finanças já de Medina Carreira não me lembro de nenhuma opinião útil ou razoável, pelo contrário apenas manda bocas não sustentadas em nada. Por exemplo, onde é que o estado social de Portugal é, foi ou será sustentado pelos contribuintes alemães? pelo contrário se não existissem os mercados financeiros portugueses , gregos e espanhóis onde é que os bancos alemães teriam sem ameaças de default concretas (e não inventadas por quem quer aumentar spreads ) tantos lucros, de modo a financiar a economia alemã? concretamente há quanto tempo não são sequer alemães que constroem as suas cidades e os seu automóveis? como viveriam eles sem nós? onde é que os alemães são mais produtivos, só porque ganham mais? dar cabo do mercado interno português é acabar com as pequenas empresas portuguesas, o estado social português deverá ser incrementado de modo a sustentar o nosso desenvolvimento, exportar por exportar é transferir riqueza para o exterior, só resulta exportar se as reservas de valor obtidas forem bem investidas…

      1. O Pedro respondeu por mim. Caro Rivera, será que se dá conta da desproporção de forças e de peso entre Portugal e a Alemanha, na UE? Começo a duvidar.

  4. Cara Ana Vidal,
    Eu tenho vários nomes para os pândegos. Pândegos são todos aqueles que nos emprestaram o dinheiro. Às tantas não são tão pândegos quanto isso, mas se o Hernâni Lopes o diz quem somos nós para afirmar o contrário.
    Eu acho que o Estado social é durável, logo sou ignorante ou mentiroso ou ambas as coisas. Também conheço várias pessoas que pensam o mesmo. Vou ver qual a percentagem de mentirosos, de ignorantes ou de ambas as coisas ao mesmo tempo (embora um ignorante sobre esta matéria, por definição, não possa ser mentiroso; mas a frase é boa na mesma)
    Cumprimentos.
    Rui Monteiro

    1. Pândegos é o que não falta neste país, meu caro. Mas são mais os que se riem de nós do que os que nos fazem rir, infelizmente. Mas não sei bem a quem se refere com “todos aqueles que nos emprestaram o dinheiro”: a banca portuguesa, a internacional ou a própria UE? É que, no que toca à última, o que fizemos (ou o que não fizemos, melhor dizendo) com os subsídios recebidos é da nossa inteira responsabilidade…
      Quanto ao Estado social, a questão não é acreditar no modelo (eu também o subscrevo em grande parte) mas na durabilidade desse modelo a médio/longo prazo, com o panorama que temos pela frente: uma população cada vez mais envelhecida, desemprego galopante, economia de rastos, etc. Será impossível responder aos encargos sociais dentro de alguns anos, creio eu, e não me parece que os meus filhos venham a ter sequer uma reforma assegurada pela Segurança Social.

      1. Cara Ana Vidal,
        Eu explico-me melhor. Estamos mais endividados do que o que devíamos Estamos em risco de “default ” segundo alguns. Então são tão pândegos os que pediram dinheiro a mais como os que o emprestaram. É que os risco de uns não pagarem é o risco de os outros não receberam. Se uns são pândegos, então, os outros são-no igualmente. Bem, como na Europa toda está-se a assistir a uma política de forte contracção da despesa, pelos vistos, somos tão pândegos como a Merkel , o Sarkozy e por aí fora.
        Enfim, estava a comentar as frases, que me parecem bastante más (como disse, a do Medina Carreira nem sequer faz sentido). Ambas revelam a profunda arrogância dos autores. Mais essa arogância dá até para um certa degradação da linguagem e pelo recurso à desqualificação de quem deles discorda. Não gosto deste tipo de pessoas; mas há gostos para tudo.
        Não estava a discutir a matéria. Também o posso fazer e faço-o muitas vezes por dever profissional e como cidadão. Não me parece é que se possa fazer essa discussão a partir de duas frases como as que apresenta.
        Cumprimentos
        Rui Monteiro

        1. Caro Rui, voltamos a discordar, como já se percebeu: primeiro, porque eu acho que as frases podem servir tão bem como ponto de partida para essa discussão como outras quaisquer sobre o tema (para quem critica nos outros a arrogância, o seu comentário não está nada mal, hein?); depois, porque aquilo que ambas dizem, cada uma à sua maneira, é que a permanente omissão da realidade por parte dos nossos governantes tem sido intencional e não inocente, o que me parece evidente. Até porque a tese da ignorância os desclassificaria completamente, não acha? Não é crível que os indicadores e sinais de uma crise desta dimensão não sejam identificados pelos que tratam estas matérias por tu, e esses sinais aparecem sempre com antecedência suficiente para tomar medidas, por muito drásticas que sejam, se preciso for, o mais cedo possível. O busílis é que isso interfere com os votos porque é pouco popular, e a pirotecnia que tem sido feita e mantida até ao limite do absurdo deve-se a isso mesmo. Basta vermos como o primeiro-ministro insiste ainda, contra tudo e contra todos, em manipular os dados e a falar em recuperações milagrosas…
          Não temos os mesmos gostos, de facto. Eu prefiro os que não me escondem as más notícias aos que me iludem e me tratam como se eu fosse imbecil.

          1. Cara Ana Vidal,
            Não estava a pensar voltar ao assunto mas interpela-me com graça. De facto, o meu texto é arrogante, reconheço. Aliás, os meus amigos acusam-me disso com frequência. Tento melhorar mas não é fácil.
            Vamos ao que interessa. No ano passado houve eleições. O jogo político faz-se como se fez. O partido do governo desvalorizou a situação das finanças públicas (muitos outros governos da Europa e não só também o fizeram). A oposição procurou pintar tudo de negro. Como sempre, no meio é que estava a virtude. O governo fez alguma coisa para melhorar a situação das finanças públicas durante 5 anos (estamos de acordo ou não?) mas desvalorizou os efeitos da crise na situação, já e si, precária das finanças públicas. Eu não diria que mentiram (nem uns nem outros).
            Mas o escrutínio da acção pública não se faz só com os partidos. A comunicação social, por exemplo, tem um papel fundamental nisso. Só que a comunicação social (sobretudo a televisão) está preguiçosa e, em vez de estudar os assuntos e informar com detalhe, substitui isso por umas conversas com os “cromos” do costume (que já estiveram em vários governos, que têm inclinações partidárias diversas, que estão zangados com a vida). Como toda a gente sabe que são parciais, ficamos todos na mesma.
            As Universidades também podem ter um papel nisso. Só que, nesta matéria, sobra em opinião o que falta em estudo. Sobretudo, falta pluralidade de opiniões. A maior parte dos economistas que aparecem (muitos deles a fazer política, diga-se) são de determinadas áreas. Quase nunca aparecem os da área da história económica ou da economia do desenvolvimento, por exemplo. Quase todos são macroeconomistas. Um macroeconomistas vê a realidade de uma determinada forma e valoriza certas dimensões que outros não valorizam ou desvalorizam mesmo. A realidade noutros países é muito distinta. A discussão é muito mais plural. Aliás, se não fosse a blogosfera, ficávamos todos a pensar que os economistas têm todos a mesma opinião.
            Quanto à situação financeira do País, sei bem que é muito grave. Mas não é só a situação financeira do Estado. Se fosse só do Estado, as coisas dependiam mais de nós. O maior problema está no sector privado. Por exemplo, os bancos financiaram os privados com “spreads” muito baixos, mas que estavam de acordo com a euforia da época. Só que a maturidade dos empréstimos aos particulares é diferente da maturidade dos empréstimos que eles obtiveram lá fora para os conceder. Agora, não se conseguem refinanciar lá fora às mesmas taxas do passado e têm compromissos a muito longo prazo com os seus clientes com “spreads” do tempo da euforia. A crise também dificulta muito mais coisas. Há empresas que vão à falência; pessoas que são despedidas e entram em incumprimento; projectos imobiliários que estão parados, etc, etc, etc.. A ida dos nossos banqueiros a Bruxelas foi um acto de desespero (não acha?).
            Quanto ao estado social, temos que fazer opções. As minhas são diferentes das do Medina Carreira. Mas são opções e são opções políticas. As ideias não são neutras e nenhum de nós detém a verdade. A única diferença é que ele aparece na televisão e eu não. É preciso fazer um outro discurso político (de esquerda, digo eu) sobre a sociedade que queremos. Eu prefiro ter uma sociedade mais igualitária, com menores níveis de consumo, com maiores níveis de qualificação e de cultura dos cidadãos. E, para isso, o estado social é muito importante. Estou a falar contra o meu (suposto) interesse pessoal e, portanto, sou irracional do ponto de vista de certos economistas. É que também considero que sem estado social com uma certa dimensão não existe democracia. Às vezes parece que nos estão a dizer que a democracia é muito cara e não nos podemos dar a esses luxos.
            Enfim, isto já vai longo, muito longo mesmo. Como vê, estamos em desacordo em muitas coisas (pelo menos, você gosta do Medina e eu não) mas nenhum de nós trata o outro como pândego, ignorante ou mentiroso.
            Cumprimentos.
            Rui Monteiro
            (Uma última provocação: consegue fazer melhor do que a sua última frase. Eu, por exemplo, não prefiro nenhum deles. Prefiro pensar pela minha cabeça)

          2. Caro Rui, só agora respondo porque estive todo o dia sem net. E sabe o que lhe digo? Afinal não estamos assim tão em desacordo…
            Mas provocação por provocação, sempre lhe digo que também o acho capaz de melhor final: pensar pela sua cabeça não o impede de ouvir os outros, pois não?
            🙂

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