Charles de Gaulle, como Churchill e alguns outros gigantes da política do século XX, não cessa de estar na moda. Talvez por ser tão flagrante o contraste com os políticos actuais. Os ecos das polémicas de outras eras esbateram-se: como sublinhava há dias a revista L’ Express, os franceses preparam-se para assinalar em clima de consenso três efemérides relacionadas com o general – os 120 anos do seu nascimento (22 de Novembro de 1890), os 70 anos do seu célebre apelo à resistência gaulesa contra o invasor nazi (18 de Junho de 1940) e o 40º aniversário da sua morte (9 de Novembro de 1970). No mundo editorial parisiense, abundam por estes dias as obras relacionadas com o homem que salvou duas vezes a França (na II Guerra Mundial e em 1958, quando o seu regresso à política impediu o país de mergulhar na guerra civil devido ao conflito na Argélia).
Mas o maior acontecimento é a publicação integral das Cartas, Notas e Cadernos em três volumes – os dois primeiros à disposição do público desde segunda-feira e o último com edição prometida para Outubro. A “fascinante” leitura destes documentos – sublinha Jérôme Dupuis na L’ Express – permite reconstruir a vida do ex-presidente francês “quase dia por dia” e sobretudo descortinar “um destino a forjar-se perante os nossos olhos”. São cartas aos pais quando se encontra prisioneiro dos alemães durante a I Guerra Mundial, ao marechal Pétain, camarada de armas que viria a tornar-se o maior dos seus inimigos políticos, a um colaborador a quem deixou claro (em 1946) que detestava a expressão “gaullista”, cunhada a partir do seu próprio nome… O último documento é uma carta que escreveu ao filho, Philippe de Gaulle, no próprio dia em que morreu.
Estes documentos confirmam também o talento literário do militar que foi político mas preferia ter sido escritor, redigiu poesia e chegou até a concluir um romance, nunca editado. A sua vasta biblioteca pessoal, na mansão de Colombey-les-Deus-Églises, tinha mais livros de ficção do que de História – com autores como Hemingway, Aragon, Camus, Buzzati e Kipling. Manteve amizade e correspondência com autores tão diversos como Mauriac, Claudel e Cocteau. Malraux foi seu ministro da Cultura. E mesmo quando ocupou o Palácio do Eliseu, entre 1958 e 1969, gabava-se de ler em média três livros por semana. “Foi o último grande escritor de França”, não hesita em assinalar o editor Jean-Luc Barré à L’ Express.
De que homens de Estado – do estado a que a Europa chegou – se poderá hoje dizer o mesmo?



Gostei muito. «De que homens de Estado – do estado a que a Europa chegou – se poderá hoje dizer o mesmo?» A comparação é impossível. Só pode comparar-se o pouco com o muito, o menos com o mais, mas não faz sentido comparar o zero com o infinito.
Obrigado, compadre. E tens toda a razão.
O texto é da qualidade com que nos habituou.
Aos homens da política que se passeiam, hoje em dia, por essa Europa fora, nós aconselhamos-lhes que leiam De Gaule e Churchill, por este último tenho uma admiração enorme.
Eu tenho uma admiração enorme por ambos, Lili. Não só pela estatura política de Churchill e De Gaulle mas também pela dimensão intelectual que possuíam. Nessa época o nível de exigência na política era mais elevado, talvez pelo facto de as dificuldades serem igualmente de maior dimensão. É nos momentos mais difíceis que melhor se revelam os estadistas.
Mais um daqueles brilhantes artigos de fim-de-semana, que eu adoro.
E do género que me deixa verdadeiramente empolgada.
Obrigado, M. A. É um prazer redobrado escrever para leitoras tão simpáticas.
Grande em tudo, a começar pelo tamanho. Certamente o estadista francês mais ilustre desde Joana D’Arc, sem o brilhantismo de Napoleão na guerra, mas muito melhor político. As voltas que já deve ter dado no túmulo! (“Dites Ma France / Et retenez vos larmes”)
O mais curioso é que dois dos três líderes da guerra, no campo aliado, detestavam De Gaulle. Refiro-me a Roosevelt e Estaline, que não escondiam a sua aversão por ele.
Desta cepa já não há. Foi um tempo que acabou. A televisão estava no início e ninguém sonhava com a internet… deixam saudades.
De facto, a tv estava no início. Mas De Gaulle era um mestre no domínio da linguagem televisiva. Nenhum político daquela época, com a provável excepção de Kennedy, deu tantas conferências de imprensa. Cada uma delas – já vi várias – era uma verdadeira aula de comunicação política.