(foto EPA)
Bem sei que o tema é suficientemente polémico, fracturante como alguns iluminados gostam de dizer, que as posições estão há muito radicalizadas, e que intervenções de organizações como a Associação Animal, em vez de trazerem argumentos inteligentes e ponderados ao debate apenas têm servido para extremá-lo ainda mais.
Mario Vargas Llosa é um homem que dispensa apresentações e não será pelo facto de estar ao lado dos adeptos da festa brava que vai deixar de ser lido ou respeitado, por muito que a partir de agora o queiram votar ao ostracismo.
Ninguém poderá ficar indiferente quando se diz que “Chi vuole proibire la tauromachia, in molti casi, e adesso nel caso di Barcellona, lo fa solitamente per ragioni che hanno a che fare più con l’ideologia e la politica che con l’amore verso gli animali“.
Proibir a festa brava poderia ser neste momento não menos infame do que proibir o consumo de marisco, mas não é nesse ponto que o debate deverá centrar-se.
Tal como escreve Vargas llosa, pelas restrições à liberdade que uma proibição implica, convirá ter sempre presente que “a imposição autoritária no âmbito do prazer e da paixão, é uma coisa que mina um fundamento essencial da vida democrática: a liberdade de escolha“.
Muitos haverá que discordam do ponto de vista do escritor. Eu próprio tenho dúvidas em aceitar determinado tipo de atitudes e a força de certos argumentos, mas confesso que o da liberdade de escolha, enquanto pilar estruturante da nossa vida em comunidade tem muita força e não será fácil encontrar o justo equilíbrio entre posições extremas.
Quem já viveu o silêncio sepulcral da Maestranza e sentiu um fio de suor a escorrer-lhe pelas costas numa tarde quente e solarenga, quem leu Ortega y Gasset, Unamuno ou Hemingway, viu alguns desenhos de Francisco de Goya, percebe do que falo e da importância do tema.
É que, pessoalmente, também tenho muita dificuldade em compreender alguns adeptos da tese proibicionista que depois não se coíbem de levar os seu próprios cães para a praia, deixando-os soltos e a fazer as necessidades em qualquer lado, indiferentes à falta de higiene e de respeito inerente a tal atitude e ao desconforto que provocam nos demais utentes do espaço público, obrigados a coabitar com a satisfação canina e o alheamento irresponsável dos seu donos.
Por tudo isso é importante ler o que saiu no Corriere della Sera, depois de já ter sido publicado em Espanha, no El Pais, e trazer de novo o debate para a praça pública.
Somos nós, cidadãos, que temos de decidir até onde queremos que vá a nossa liberdade. Antes que um fundamentalista qualquer decida de hoje para amanhã que estaremos condenados a comer batatas com acelgas, a deixar de tomar banho para não gastarmos água ou a acatar a “decisão” do rafeiro do vizinho que resolveu aliviar-se na primeira toalha de praia que encontrou.
P.S.: É bom que se saiba que sou um apaixonado por animais, cães e touros incluídos.


Eu nunca fui ver uma tourada ao vivo, nem cresci numa zona onde a festa brava tenha tradições. è provável que não sinta nenhuma afinidade com este espectáculo. Acho que é cruel, mas é mais uma das muitas crueldades que se cometem em relação aos animais…agora não percebi a relação entre a tourada e o levar animais para a praia.
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Mas o que têm a ver os cocós dos perritos cujos donos são badalhocos e (na rua ou na praia) não os apanham com o suplício dos touros?
Doencitas, non?
Estou muito de acordo com o que dizes, Sérgio. Parar e pensar antes de proibir, reflectir antes de extremar, cuidar antes de apontar – é um bom princípio.
Gosto de touradas. Mais a cavalo que a pé. Mas gosto. Acho um espectáculo, lindo. Não gosto de animais fechados em apartamentos, especialmente cães.( acho que precisam de liberdade para correr e o levá-los à rua quando os donos podem ou querem não chega ), mas também não fiz, nem me manisfestei á porta da casa dos donos dos cães, contra o que quer que fosse. Deveria ter-me manisfestado? Devia fazer o quê, quando estou na praia ( sendo proibido por lei a pemanência de cães ) e sou incomodado pelos cãezinhos? O facto de se gostar de touradas, não quer dizer que não se goste de animais, incluindo o próprio touro ( o que vai ser lidado ). A beleza do homem e do cavalo como conjunto unico, a pega dos forcados, especialmente o que vai para a cara do touro e até até mesmo o toureiro a pé que está sozinho frente a um touro……..
seu blog é muito bom! Eu não leio Português bem, mas eu amo o que você escreve!
Adoro animais.
Tenho 4 pastores alemães, vários aquários, e adoro a natureza .
Mas sou lúcido e não me sinto hipócrita para achar que não vale a pena matar um animal para gerar tantos fundos.
Caramba temos vacas que vivem meses a comer, literalmente , hormonas. Encafuadas num 4×3 a comer e beber.
A sua primeira caminhada é da sua cela até ao carro que a levará ao amtadouro. Vida cruel. Mas necessária.
Esta também é cruel , e necessária. Deixemo-nos de extremismos, Temos muito mais por onde pegar.
“Esta também é cruel , e necessária”
Cruel, sim. Necessária, porquê?
1- Sem defender a Associação Animal (nem estou a par dos fins) e sem o querer ofender: também não consigo ver no seu texto “argumentos inteligentes e ponderados ao debate”.
2- “Le Grand Bluff Tauromachique” de Andrée Valadier, para perceber a complexidade (ou simplicidade) do ritual. Treinos privados antes do espectáculo, todo o tempo que os bichos demoram a recuperar, até à forma como torturam e matam em arena. Para quê ? Puro divertimento (aka cultura).
3 – “Proibir a festa brava poderia ser neste momento não menos infame do que proibir o consumo de marisco, mas não é nesse ponto que o debate deverá centrar-se.”
Não vejo qualquer ligação e até acho ridícula a tentativa. Todos sabemos que não é tradição comer touro, mas é normal ver a sua matança (para quem gosta, para quem pode). Todos sabemos que é normal e tradição comer marisco (para quem gosta, para quem pode).
4 – Não vejo, igualmente, a ligação do animal doméstico com a do animal selvagem no contexto da sociedade (doméstica). Facto, são animais. Facto, se não é doméstico não merece a mesma consideração, por quem escolhe domesticar.
5 – Animais selvagens (fora do seu habitat): acabam no circo, zoo, ou na arena, neste caso. Diferença? Nesta torturam à vista de todos, naqueles pode eventualmente acontecer nos bastidores. Animais domésticos? Era chocante…
6- Está mais que visto e sabido: a tourada é um exclusivo do gosto requintado do povo latino.
7 – Não tenho nada contra as touradas, simplesmente não vejo coragem nos intervenientes nem razões para ser a favor de um divertimento sádico.
Tal como será sadismo ter cães fechados em apartamentos o dia inteiro. Ou não será sadismo os cães saírem de casa só quando dá jeito ao dono? Domésticos? Deixaram de ser animais? Quanto a comer carne de touro……há quem a coma.
Subscrevo o comentário de Susana, muito sensato.
E corrijo o meu no ponto 7 onde diz “não tenho nada contra as touradas” pois queria dizer que não tenho nada contra quem as apoia (já por isso vivemos em democracia).
As touradas são legais. Levar um animal de estimação para a praia, não. Quem o faz pode ser alvo de uma coima, que está prevista na lei. Duas coisas incomparáveis, portanto. Quanto à liberdade… A minha liberdade termina onde começa a liberdade dos outros, animais incluídos. Promover um espectáculo que assenta unicamente na violência exercida sobre um ser vivo não é promover a liberdade nem a cultura. Um ritual que consiste em retirar um animal do seu habitat natural, onde se sente seguro, para o colocar num espaço confinado, estranho, indutor de destabilização e stress, e que culmina na agressão gratuita e brutal do touro apenas para regozijo da multidão sedenta de sangue, não é certamente cultura. E não é pelo facto de algumas figuras reconhecidas nos meios intelectuais aceitarem esta prática que esta se torna menos censurável. Concordo que “a imposição autoritária no âmbito do prazer e da paixão, é uma coisa que mina um fundamento essencial da vida democrática: a liberdade de escolha”. É precisamente o que se faz nas touradas – a imposição autoritária e tirânica do homem sobre o animal, onde o prazer de um se sobrepõe ao direito do outro. Daí que estas não possam ser toleradas.
Não sou apreciador de toiradas, como não sou de futebol ou de fórmula 1. Por vezes, na televisão, vejo uns bocados, aprecio a galhardia dos cavalos e dos cavaleiros, admiro a bravura dos forcados, e dou comigo a dizer que essa, sim, é uma forma decente de um homem mostrar que é valente, ao contrário de tantos outros que mostram a coragem ao volante pelas estradas deste país, ou espancando as mulheres. E, depois de um “safari” no Ribatejo, em que admirei os toiros, garbosos e solitários, perguntei-me e pergunto-me se o fim das toiradas não será também o fim desses animais nobres, dos cavalos, dos toireiros. Talvez fosse possível manter o espectáculo, tornando-o menos cruel, menos sanguinário, menos injusto para o toiro, obrigado a lutar ofuscado após dias de escuridão, num meio hostil que não compreende, ferido brutalmente, com ferros que, além do mais, são um perigo para os forcados. Talvez. Porque, se nada mudar, tarde ou cedo a toirada acabará.
A minha posição sobre isto é conhecida neste blogue, Sérgio: eu gosto e pronto. Sem razões que o justifiquem, porque é difícil encontrá-las fora da esfera da emoção. Lamento, não sou perfeita. Alguém é?