Alguns dos mais ilustres “representantes da nação” marcaram presença (expressão horrível; ao cuidado do Pedro Correia) na Ovibeja. Estive por lá, mas não me cruzei com nenhum deles. Como é evidente, também não os encontrei na viagem de ida ou de regresso, porque tais figuras – como o nosso primeiro-ministro, que não me merece a maiúscula, e que vive tão obcecado com comboios de alta velocidade – nunca tornaram a entrar numa estação de comboios depois do cortar de fita da inauguração, e nunca viajaram num “Intercidades” ou num “Regional”. Eu faço-o regularmente, e normalmente com gosto, mas é um gosto cada vez mais amargo: o serviço da CP – empresa pública? – piora viagem após viagem. No país que quer tornar Lisboa na “praia de Madrid” por virtude de um TGV que não pode pagar, existem apenas dois comboios “Intercidades” diários entre Lisboa e Beja: um de manhã bem cedo, outro ao final do dia. Nesses comboios, e ao contrário do que acontece nas ligações “Intercidades” entre Lisboa e Faro, e Lisboa e Porto, o bar encontra-se fechado, pelo que um passageiro (ou “utente”, como eles agora gostam de dizer) não pode sequer comprar uma garrafa de água. Os alentejanos, como se sabe, são menos que os algarvios ou as pessoas do norte do país, e não merecem bar. O percurso demora duas horas e dez minutos, em linha não electrificada a partir do Pinhal Novo. Como tem sido hábito, as estações de comboio de zonas “do interior” estão fechadas. Ou seja, as antigas estações de comboios de Vendas Novas, Casa Branca, Vila Nova de Baronia e Cuba estão ao abandono (como acontece com as outras estações de comboios alentejanas: Grândola, Alcácer do Sal, Funcheira, para mencionar apenas as maiores). Também a de Beja está, apesar de nela ainda se venderem bilhetes; e os belíssimos azulejos da estação da capital alentejana estão estilhaçados, sem brilho, esquecidos. Digo que a estação de Beja ainda funciona, no sentido de que ainda lá se vendem bilhetes, mas num horário muito peculiar: a bilheteira encerra às seis da tarde, quando o último comboio parte daquela estação… às sete e um quarto, o que faz todo o sentido. A solução que resta aos passageiros neste é comprar o bilhete no comboio, quando o revisor passar. Mas bem podem esquecer o pagamento com Multibanco, até porque nem na estação, nem nas imediações da estação, existe uma máquina ATM ao serviço dos passageiros.
É assim que está a ferrovia no Alentejo, que (ainda) é território de um país que quer ter alta velocidade. Faz sentido, não faz?
(A ligação ferroviária entre Lisboa e Beja irá ser interrompida devido a obras, e a empresa irá assegurar o transporte de passageiros por autocarro, durante a interrupção. Não consigo deixar de pensar que isto pode ser uma das “manobras” da CP para acabar com os comboios para Beja sem haver muito barulho. Espero que este meu receio seja injustificado.)

Estive em Beja, esta sexta-feira. Depois de percorrer a Ovibeja, percorri a cidade. Lamento imenso a falta de visão estratégica que não se limita a brincar aos comboios, mas a matar as nossas cidades. A linha litoral até Faro está electrificada, mas é urgente que se revitalize o interior alentejano, electrificando a linha para Beja e ressuscitando a dignidade das cidades e vilas pela dignificação das suas estações. Temo que nada disso se passe em virtude da obsessão parola e vaidosa que perpassa o abominável homem-armani.
Nem mais. Podiam ser parolos e vaidosos, como são, mas possuir ao menos uma inteligência mediana, que não possuem.
Os seus receios fazem todo o sentido,atendendo ao passado recente da CP/REFER no que toca a linhas do interior. Ah mas claro,TGV para a “praia” é o que está a dar…
Eu confesso que prefiro “forças vivas da Nação” ,sei lá, deve ser fétiche…
Dizes muito bem, John. Estou farto de falar aqui na penúria da nossa ferrovia. É mais importante ir jantar de TGV a Madrid do que cuidar da linha férrea que herdámos do século XIX ou de desenvolver as linhas de mercadorias.
Ainda há pouco tempo se partia de Lisboa e se tinha de mudar algures para chegar não sei se a Beja ou a Évora numa automotora a cair de podre, através de uma linha coberta de mato, a passo de tartaruga, para fazer numa hora um percurso de dez minutos.
Tanto quanto sei, a automotora já não faz aquele percurso, mas ainda estão em funcionamento entre Faro e Vila Real de Santo António. Ou estavam, da última vez que fui a Tavira.
Mas eu gosto muito dessas automotoras…
Também eu gosto das automotoras. Mas não são para viajar – são para turisticar e nostalgiar.
Naturalmente.
Excelente post, que denuncia o abandono a que se vai votando Beja, o Alentejo e o interior. Muitas vezes com um inexplicável silêncio dos mandantes autárquicos.
Destaquei na Praça.
Obrigado.
Daqui por uns meses veremos se o Intercidades regressa ou não… mas não faço apostas.
A previsão é de 1 (um) ano. Ando à procura do comunicado da CP mas… não está fácil 🙁 etition.html
Acrescente-se que o IC serve muitos que, vivendo em Beja e/ou Évora, trabalham em Lisboa, pelo que esta interrupção vai trazer sérias complicações.
Desconheço se esta petição
http://www.petitiononline.com/flexi001/p
teve pernas para andar e se a mesma servirá de alguma coisa. Fica aqui registada.
O corte de circulação não vai afectar só Beja mas também Évora.
Por acaso, não sei se a circulação Beja – Funcheira se vai manter ou não.
De qualquer forma, como alguém aí mencionou, são vias do século XIX, que estão num estado que vai para lá da simples manutenção. Para melhorar a via, é preciso reconstruir-la.
Boa pergunta.
Sobre a reconstrução, bom, a oportunidade foi perdida quando foi feita a electrificação da linha, não foi? O projecto ficou apenas entre o Pinhal Novo e Faro. Ah, longe vão os tempos em que se viajava sem mudanças entre o Barreiro e Vila Real de Santo António.
Olá,
o troço que vai fechar para obras (Bombel – Évora ) não está electrificado. As obras incluem a electrificação até Évora.
Se bem que com um pormenor: a sub-estação em Évora que vai alimentar a linha actual é a mesma que vai alimentar a linha de AV e faz parte do caderno de encardos da AV, não faz parte do caderno de encargos da modernização da linha até Évora.
Para os curiosos, sugiro uma consulta ao directório de rede da 2011.
http://www.scribd.com/full/30665335?acce ss_key=key-lmlsumip69bdq4vqqy1
Da página 55 em diante estão mapas da rede com as caracteristicas da via: electrificação, velocidades, cargas, etc.
Não é 100% completo e actualizado, há restrições que só estão noutros documentos.
Privatize-se a CP.
O João Campos fala destas coisas da ferrovia como se foram uma peculiaridade do “interior” e do Alentejo, quando não o são. Na Linha do Norte, bem no litoral, passa-se exatamente a mesma coisa: estações fechadas e sem Multibanco. Ou seja, nada do que o João Campos descreve neste post é um sinal particular do Alentejo ou sequer do interior do país.
Eu não digo que estas situações sejam exclusivas do Alentejo, Luís. Infelizmente não o são. No entanto, o caso da linha do Norte eu não conheço; e por isso falo do Alentejo, por onde costumo viajar.
Comboios vão continuar a circular: 010/imtt-impede-fecho-na-linha-do-alente jo-19309832.htm
http://jornal.publico.pt/noticia/01-05-2
Excelente apontamento que aqui deixas, João. Nunca é de mais denunciar aqui o péssimo serviço prestado pela CP, a vários níveis.
Se é para o país perder dinheiro eu e eu andar a pagar comboios só por uma questão de nostalgia,nesse caso,encerrem já hoje todas as linhas de comboio e acabem com esse despesismo imediatamente.