Há longos anos, durante um daqueles serões estivais em que depois de jantar se ia para a rua jogar às escondidas, encontrei-me com um amigo que junto à estrema de uma vinha que ficava por trás do conjunto de casas onde morávamos. Como é sabido, a escuridão ajuda quem se esconde e complica a vida ao que procura. Podíamos ali ficar várias horas que nunca nos iriam encontrar. O jogo só acabaria quando perdêssemos a paciência e nos aproximássemos do poste do candeeiro onde nos podíamos “salvar”. Aquela ronda tinha começado há pouco tempo e ficamos ali numa conversa sussurrada. Onde estávamos havia um réstia de claridade que só se extinguia junto ao chão. A estrema da vinha era a fronteira do nosso relativo conforto e estávamos tão bem camuflados que não me passava pela cabeça avançar para o seu interior, naquele breu absoluto.
De repente, ouvíamos um ruído irregular e mal disfarçado no interior da vinha. Ficamos imóveis. Provavelmente trocamos um olhar para avaliar a reacção do outro, mas a escuridão não nos permitiu chegar a nenhuma conclusão. Após uns instantes em que regressamos ao silêncio anterior, ouvimos um novo rastolhar vindo da mesma direcção. Não podia ser nenhum dos nossos companheiros. Ninguém a jogar às escondidas escolheria tais trevas para se esconder, e se fosse para se esconder não arrastaria os pés daquela maneira.
O sangue gelou-me nas veias. Que raio de ideia fora aquela de ir para ali àquela hora!
– Quem é que tá ai? – Perguntou o meu companheiro, num tom de voz em que o desafio conseguia disfarçar o temor.
Não houve resposta. Pensei para mim que àquela hora devia estar a dar uma qualquer treta aborrecida na televisão, mas que certamente era preferível de assistir a estar ali, com o sangue gelado e o coração a mil.
Uns segundos mais tarde, o ruído que nos tinha interrompido a conversa, repetiu-se. Ele levantou-se e eu segui-lhe o exemplo. De pé, a ténue claridade vinda da civilização iluminou-nos as costas. Pensei que que íamos sair dali. Olhamos um para o outro e desta vez consegui ver-lhe uma expressão que já lhe conhecia de outros momentos decisivos. Era com aquela cara que ele corria para marcar um penalty ou acelerava de bicicleta nas descidas. Dobrava a língua, trincando-a com força enquanto engelhava o nariz. Aquela era a cara com que este meu amigo se apresentava nos combates.
– Quem é que tá aí, caralho?
Como resposta, o ruído repetiu-se. No instante seguinte, e perante a minha estupefacção, este o meu amigo desatou a correu na última direcção que eu escolheria. Com a cara de combate, investiu com tudo. A sua corrida por entre as carreiras da vinha, desencadeou um novo agitar na zona de onde vinha aquela atentação. Ouviu-se um embate surdo entre corpos, seguido do assustado barrego de uma ovelha que ali ceava.
O mistério ficou logo esclarecido, assim como a confirmação daquilo que eu já sabia. Aquele tipo era de têmpera rija. Pouco macio, como se dizia. Mesmo sem saber ao que ia, ia de cabeça. Merecia a nossa admiração, respeito e até o nosso temor.
O tempo mostrou que esta sua característica lhe foi trazendo alguns dissabores. Associamos a idade à ponderação, e isso também se vai aplicando a ele, mas há uma maneira de estar, a que podemos descrever como a natureza das coisas, que acabam sempre por vir ao de cima e lutar contra elas tem tudo para se tornar num acto inglório.
Lembrei-me deste episódio depois de ouvir este podcast. Algures pelo minuto 13:30, Paulo Ferreira, referindo-se a Pedro Nuno Santos, diz que “ele não sabe o que quer fazer, mas vai fazer na mesma”. De facto, aquilo que já fomos vendo sobre a forma de PNS fazer política, lembra-me este meu amigo. É a trincar a língua dobrada e com o nariz franzido, que ele ameaça os banqueiros alemães e é também com a mesma atitude decide incinerar 3,2 mil milhões de euros na TAP ou a construir um aeroporto no Montijo, o mesmo exacto local que foi liminarmente chumbado pela Comissão Técnica Independente. É assim que ele funciona. Não sabe o que quer, mas avança com convicção. Depois de cada esbardalhanço, levanta-se, cada vez com mais dores e menos dentes, exibe as nódoas negras como se fossem medalhas e sacode o pó das vestes safadas. Os palermas, sádicos, ou masoquistas, sem o saberem, aplaudem. No fim do espectáculo, passa o tipo das finanças com o boné na mão.

«3. Sacanagem … Sacana+agem é o ato praticado por indivíduo sacana: 1 Ação, dito ou procedimento de sacana; 2 Bandalheira, imoralidade, safadeza; 3 Patifaria
Dizem que sacana é olho de peixe em japonês que era o que eles chamavam aos primeiros europeus que lá chegaram.
ouvi dizer que até chamam biduru ao vidro
« ” Kagaku ” (Science)
O Partido Sórdido é useiro e vezeiro na produção de sócrates…
Mais um bandalho (e já com “curriculum”…) na calha…
JSP
Curriculum de nódoas negras.
Bem apanhado. Condenados ao marialvismo, portanto.
Condenados a isto.
Repete-se a ideia: quem não é dos nossos é uma besta. Quem é dos nossos é bestial como o Passos Coelho. Teve a firmeza de dizer que não cortaria as pensões aos idosos e depois cortou. Boas cepa. O que é nosso é bom.
“Quanto ao corte das pensões acima dos 1500 euros, o Governo confirma a redução através da “aplicação da Contribuição Extraordinária de Solidariedade, criada em 2010”, acrescentando que será aplicada de forma similar à utilizada na redução das remunerações da administração pública em 2011, sendo que esta medida “permitirá uma redução da despesa de 0,25 por cento do Produto Interno Bruto (PIB).” se-politica-no-segundo-governo-de-socrat es/noticias/veja-aqui-as-principais-medi das-do-pec4-1811643.html
De qual dos PECs constava esta proposta?
Veja aqui:
https://www.dn.pt/dossiers/politica/cri
“Passos Coelho. Teve a firmeza de dizer que não” ao “dono disto tudo”. É obra.
Depois passou a dizer-se “ámen” e agora estamos de rastos. E há gente que gosta de nos ver na lama…
Mesmo quando não se diz ámen, reencaminha-se o email para a cunha avançar.
Bem, não tivemos aeroporto no Montijo, mas tivemos uma comissão para ver onde seria. O Montenegro já diz que vai fazer outra comissão para ver se a comissão viu bem. Isto com calminha, e mais duzentas comissões técnicas lá para 2100 o aeroporto estará pronto. Entretanto, podemos ter dado os aeroportos aos franceses da Vinci por não os sabermos gerir, mas em comissões damos cartas.
Quem é que exigiu que se constituísse a CTI?
Quem é que pressionou a CTI para que não fossem divulgadas as conclusões?
Os vinte e tal por cento que não acham este governo mau ou muito mau, até acabam por ter graça.
“Os vinte e tal por cento que não acham este governo mau ou muito mau, até acabam por ter graça.”
Realmente visto assim até parece que há setenta e tal por cento que acha este governo mau.
Não será melhor fazer as contas primeiro antes de dizer asneiras?
Não leu bem. Mau e muito mau. São duas categorias juntas.
VExca e o seu umbigo, embora só tenham direito a um voto, farão parte do 1% que avalia de muito bom.
E sim, acabam por ter graça.
Não será melhor tratar essa dislexia?
Reparou nas aspas? A frase é sua, tem uma disjunção e não uma conjunção. Eu sei que a matemática não é o seu forte, mas isto é básico.
Faça lá as contas novamente e não se esqueça dos 50% de abstenção.
o da ANA sabe mais em terra que todos os outros no ar.
ou será no Montijo ou não será em lado nenhum.
Ana, qual Ana? Quem está em regime de resguardo é a Marta. Diz que não se lembra de nada.
é a ANA do Arnault das negociatas
Não. O das negociatas é o BFF. O dos 78.800 eur.
Sim, esse artista é português. Mas sempre com qualquer outro (incontrolável) artista o fulano do boné nunca falhará. Afinal os dissabores são dos outros.
A diferença não é do artista, é da partitura que permite, e permitirá, tantas fífias.
Não entendi.
“Podia ser um forcado”, sim, pelo menos estava mais preparado para as marradas que com ele vão ter. Não é?
Está a chamar-lhe marrano? Cristão-novo? Recém convertido à social-democracia?
O seu amigo é que levaria a marrada mas aqui,com o pns levamos todos e ele safa-se .
Para além de pagarmos as dívidas pagamos-lhe o ordenado.
Não está mal isto isso das arremetidas.
Tenho muito respeito pelos forcados, especialmente porque não avançam para a besta com o coiro dos outros.