Podia ser um forcado


Paulo Sousa,

Há longos anos, durante um daqueles serões estivais em que depois de jantar se ia para a rua jogar às escondidas, encontrei-me com um amigo que junto à estrema de uma vinha que ficava por trás do conjunto de casas onde morávamos. Como é sabido, a escuridão ajuda quem se esconde e complica a vida ao que procura. Podíamos ali ficar várias horas que nunca nos iriam encontrar. O jogo só acabaria quando perdêssemos a paciência e nos aproximássemos do poste do candeeiro onde nos podíamos “salvar”. Aquela ronda tinha começado há pouco tempo e ficamos ali numa conversa sussurrada. Onde estávamos havia um réstia de claridade que só se extinguia junto ao chão. A estrema da vinha era a fronteira do nosso relativo conforto e estávamos tão bem camuflados que não me passava pela cabeça avançar para o seu interior, naquele breu absoluto.

De repente, ouvíamos um ruído irregular e mal disfarçado no interior da vinha. Ficamos imóveis. Provavelmente trocamos um olhar para avaliar a reacção do outro, mas a escuridão não nos permitiu chegar a nenhuma conclusão. Após uns instantes em que regressamos ao silêncio anterior, ouvimos um novo rastolhar vindo da mesma direcção. Não podia ser nenhum dos nossos companheiros. Ninguém a jogar às escondidas escolheria tais trevas para se esconder, e se fosse para se esconder não arrastaria os pés daquela maneira.

O sangue gelou-me nas veias. Que raio de ideia fora aquela de ir para ali àquela hora!

– Quem é que tá ai? – Perguntou o meu companheiro, num tom de voz em que o desafio conseguia disfarçar o temor.

Não houve resposta. Pensei para mim que àquela hora devia estar a dar uma qualquer treta aborrecida na televisão, mas que certamente era preferível de assistir a estar ali, com o sangue gelado e o coração a mil.

Uns segundos mais tarde, o ruído que nos tinha interrompido a conversa, repetiu-se. Ele levantou-se e eu segui-lhe o exemplo. De pé, a ténue claridade vinda da civilização iluminou-nos as costas. Pensei que que íamos sair dali. Olhamos um para o outro e desta vez consegui ver-lhe uma expressão que já lhe conhecia de outros momentos decisivos. Era com aquela cara que ele corria para marcar um penalty ou acelerava de bicicleta nas descidas. Dobrava a língua, trincando-a com força enquanto engelhava o nariz. Aquela era a cara com que este meu amigo se apresentava nos combates.

– Quem é que tá aí, caralho?

Como resposta, o ruído repetiu-se. No instante seguinte, e perante a minha estupefacção, este o meu amigo desatou a correu na última direcção que eu escolheria. Com a cara de combate, investiu com tudo. A sua corrida por entre as carreiras da vinha, desencadeou um novo agitar na zona de onde vinha aquela atentação. Ouviu-se um embate surdo entre corpos, seguido do assustado barrego de uma ovelha que ali ceava.

O mistério ficou logo esclarecido, assim como a confirmação daquilo que eu já sabia. Aquele tipo era de têmpera rija. Pouco macio, como se dizia. Mesmo sem saber ao que ia, ia de cabeça. Merecia a nossa admiração, respeito e até o nosso temor.

O tempo mostrou que esta sua característica lhe foi trazendo alguns dissabores. Associamos a idade à ponderação, e isso também se vai aplicando a ele, mas há uma maneira de estar, a que podemos descrever como a natureza das coisas, que acabam sempre por vir ao de cima e lutar contra elas tem tudo para se tornar num acto inglório.

Lembrei-me deste episódio depois de ouvir este podcast. Algures pelo minuto 13:30, Paulo Ferreira, referindo-se a Pedro Nuno Santos, diz que “ele não sabe o que quer fazer, mas vai fazer na mesma”. De facto, aquilo que já fomos vendo sobre a forma de PNS fazer política, lembra-me este meu amigo. É a trincar a língua dobrada e com o nariz franzido, que ele ameaça os banqueiros alemães e é também com a mesma atitude decide incinerar 3,2 mil milhões de euros na TAP ou a construir um aeroporto no Montijo, o mesmo exacto local que foi liminarmente chumbado pela Comissão Técnica Independente. É assim que ele funciona. Não sabe o que quer, mas avança com convicção. Depois de cada esbardalhanço, levanta-se, cada vez com mais dores e menos dentes, exibe as nódoas negras como se fossem medalhas e sacode o pó das vestes safadas. Os palermas, sádicos, ou masoquistas, sem o saberem, aplaudem. No fim do espectáculo, passa o tipo das finanças com o boné na mão.

27 comentários em “Podia ser um forcado”

  1. «3. Sacanagem … Sacana+agem é o ato praticado por indivíduo sacana: 1 Ação, dito ou procedimento de sacana; 2 Bandalheira, imoralidade, safadeza; 3 Patifaria

  2. O Partido Sórdido é useiro e vezeiro na produção de sócrates…
    Mais um bandalho (e já com “curriculum”…) na calha…
    JSP

  3. Repete-se a ideia: quem não é dos nossos é uma besta. Quem é dos nossos é bestial como o Passos Coelho. Teve a firmeza de dizer que não cortaria as pensões aos idosos e depois cortou. Boas cepa. O que é nosso é bom.

    1. “Quanto ao corte das pensões acima dos 1500 euros, o Governo confirma a redução através da “aplicação da Contribuição Extraordinária de Solidariedade, criada em 2010”, acrescentando que será aplicada de forma similar à utilizada na redução das remunerações da administração pública em 2011, sendo que esta medida “permitirá uma redução da despesa de 0,25 por cento do Produto Interno Bruto (PIB).”
      De qual dos PECs constava esta proposta?
      Veja aqui:
      https://www.dn.pt/dossiers/politica/crise-politica-no-segundo-governo-de-socrates/noticias/veja-aqui-as-principais-medidas-do-pec4-1811643.html

    2. “Passos Coelho. Teve a firmeza de dizer que não” ao “dono disto tudo”. É obra.
      Depois passou a dizer-se “ámen” e agora estamos de rastos. E há gente que gosta de nos ver na lama…

  4. Bem, não tivemos aeroporto no Montijo, mas tivemos uma comissão para ver onde seria. O Montenegro já diz que vai fazer outra comissão para ver se a comissão viu bem. Isto com calminha, e mais duzentas comissões técnicas lá para 2100 o aeroporto estará pronto. Entretanto, podemos ter dado os aeroportos aos franceses da Vinci por não os sabermos gerir, mas em comissões damos cartas.

    1. Quem é que exigiu que se constituísse a CTI?
      Quem é que pressionou a CTI para que não fossem divulgadas as conclusões?
      Os vinte e tal por cento que não acham este governo mau ou muito mau, até acabam por ter graça.

      1. “Os vinte e tal por cento que não acham este governo mau ou muito mau, até acabam por ter graça.”
        Realmente visto assim até parece que há setenta e tal por cento que acha este governo mau.
        Não será melhor fazer as contas primeiro antes de dizer asneiras?

        1. Não leu bem. Mau e muito mau. São duas categorias juntas.
          VExca e o seu umbigo, embora só tenham direito a um voto, farão parte do 1% que avalia de muito bom.
          E sim, acabam por ter graça.

          1. Não será melhor tratar essa dislexia?
            Reparou nas aspas? A frase é sua, tem uma disjunção e não uma conjunção. Eu sei que a matemática não é o seu forte, mas isto é básico.
            Faça lá as contas novamente e não se esqueça dos 50% de abstenção.

  5. Sim, esse artista é português. Mas sempre com qualquer outro (incontrolável) artista o fulano do boné nunca falhará. Afinal os dissabores são dos outros.
    A diferença não é do artista, é da partitura que permite, e permitirá, tantas fífias.

  6. “Podia ser um forcado”, sim, pelo menos estava mais preparado para as marradas que com ele vão ter. Não é?

  7. O seu amigo é que levaria a marrada mas aqui,com o pns levamos todos e ele safa-se .
    Para além de pagarmos as dívidas pagamos-lhe o ordenado.
    Não está mal isto isso das arremetidas.

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