Lápis L-Azuli


Maria Dulce Fernandes,

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Hoje lemos: Annie Ernaux, ” Os Anos”.

Passagem a L-Azular: “Tudo será apagado em um segundo. O dicionário acumulado desde o berço até ao último leito será eliminado. Haverá silêncio e não haverá palavras para falar. Da boca aberta nada sairá. Nem um eu. A linguagem continuará a dispor o mundo em palavras. Nas conversas à volta de uma mesa festiva seremos apenas um primeiro nome, cada vez mais sem rosto, até desaparecermos na massa anónima de uma geração distante.”

Quando te dás conta que atingiste a primeira linha, páras para pensar naqueles que eram e já foram. Pensas neles com orgulho, carinho e ternura. Pensas apenas nos bons momentos, naqueles momentos que não te recordam sofrimento. Pensas também que vidas imensas e repletas de memórias brilhantes mereciam mais, bem mais. Mais luz, aplauso, reconhecimento. No fundo quedas-te em considerações sobre aquele futuro em que a tua presença não é mais, e em como serás lembrada pela posteridade.

(Imagem Google)

16 comentários em “Lápis L-Azuli”

  1. «DESCI NA ESTAÇÃO BARBÈS. Como da última vez, um grupo de homensesperava debaixo do metrô elevado. As pessoas avançavam na
    calçada com sacolas rosa das lojas Tati. Peguei a avenida Magenta,
    reconheci a loja Billy, com anoraques pendurados do lado de fora»
    linha 2 mercado barato
    o acontecimento

    1. Reconhecimento é bom, no sentido de enriquecimento pessoal. Cito muitas vezes a minha Bisavó Júlia que já morreu há uns bons 50 anos, como fonte da minha ” aforismoteca” pessoal. Os seus ditos, ditados e pregões que datam de quando nasceu em 1887, são e serão sempre actuais. Creio que qualquer pessoa gostaria de ser lembrada por deixar uma marca no porvir.

  2. “Pensas apenas nos bons momentos, naqueles momentos que não te recordam sofrimento.”
    Quem me dera! E estou na primeira linha já há anos.

    1. Eu também estou quase lá, Francisco. Apenas me resta uma tia, irmã da minha mãe e um tio, irmão do meu pai, ambos meus padrinhos de baptismo e casamento e os respectivos cônjuges. Em algum momento a tristeza e a mágoa irão gradualmente dar lugar ao carinho e as lembranças sofridas vão esbatendo a nossa memória, deixando que a luz nos embeleze as ideias. E sorrimos e rimos e vamos às lágrimas que o contento também traz lágrimas à mistura.

      1. quem nos quer bem deve ser apreciado durante a vida.
        um médico recomendou-me a terapêutica do esquecimento. «mais difícil ainda!»

        1. Sem dúvida. É por isso que eu sou completamente a favor da cremação. Não há lápide, não há flores, não há ” procissão”. É cuidar em vida. Mas não ter peso na consciência não quer dizer que não tenha recordações.

  3. “(…) No fundo quedas-te em considerações sobre aquele futuro em que a tua presença não é mais, e em como serás lembrada pela posteridade.”

    Escrevendo Maria Dulce, porque as palavras voam e a escrita fica.
    Pior do que “aqueles que eram e já foram”, são aqueles que são e já foram. Conheço tantos…
    Li em tempos no blogue Mãe Preocupada, um texto belíssimo, do qual recolhi um excerto que tomo a liberdade de transcrever aqui:

    «Todas as coisas são menos importantes do que aparentam quando as contamos. Na realidade, tudo são miudezas, quotidiano e o que sentimos como tremendo ou raro – a morte, um desgosto, uma traição, uma doença – não é senão o que no mesmo instante acontece a milhões de pessoas. Vivem desatentos aqueles que acreditam que a própria vida dava um livro, porque um livro dariam todas as vidas e, em bom rigor, a nossa tragédia é só pano de fundo e figuração no monumental enredo do outro e vice-versa, já que a história depende sempre mais de quem conta do que dos acontecimentos. Talvez seja por isso que se escreve, para que na enxurrada universal de perdas, dores e desalentos, não vá, arrastada e esquecida, a nossa ínfima parte. Contar é fazer justiça às coisas que deus ignora. MP»

  4. Dulce, eu uso a voz de David Mourão Ferreira, cujo lugar à mesa ficará para sempre guardado, espero:

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que se veja à mesa o meu lugar vazio

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que só uma voz me evoque a sós consigo

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que não viva já ninguém meu conhecido

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que nem vivo esteja um verso deste livro

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que terei de novo o Nada a sós comigo

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que nem o Natal terá qualquer sentido

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que o Nada retome a cor do Infinito

    1. David Mourão Ferreira, para além de ser um poeta superlativo, d”aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”, soube pôr em palavras e sentimento a falta. A dos nossos que foram e a nossa que virá a ser. Exactamente assim, Margarida.

  5. Não gostei desse livro que tenho em qualquer lugar e me foi oferecido. Também não concordo com muito do que o livro afirma. Mas é só uma opinião entre tantas; tão diversas e quiçá desnecessárias como a minha. Tenho noção de que o seu papel na posteridade nem sequer é posto em consideração por muita gente.
    Prefiro permanecer em vida. E ter agido ou exercido influência positiva em alguém, já me basta. Não para que me lembre. Não necessito – estando morta – de ser lembrada. Passei.

    1. Eu penso que cada um tem a sua própria história e todas as história de um povo perfazem a história de um país. Por vezes as pessoas são lembradas por acções insignificantes, outras por grandes feitos, bons ou maus. Mas cair no esquecimento é quase tão mau como não ter existido, mas Bea, acontecerá seguramente passadas 3 ou 4 gerações.

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