DELITO há dez anos


Pedro Correia,

21523202_SMAuI.jpeg

 

Eu: «Eu ainda sou do tempo em que o lançamento de um livro de um grande escritor português tinha chamada de capa obrigatória nos jornais e figurava entre as principais notícias de um telediário. E lembro-me de anos de excelentes colheitas literárias, em que era possível haver vários romances de sucesso, escritos pelos melhores autores nacionais, nos mesmos tops de vendas. E cada um tinha mesmo as suas claques de apoio: havia quem amasse e odiasse um Torga, um Rodrigues Miguéis, um Manuel da Fonseca, um Redol, um Régio, um Abelaira, um Sena, um Tomaz de Figueiredo, um Urbano, um Carlos de Oliveira, um Ruben A.

Lembro-me por exemplo de 1982/83, biénio de excepcional produção literária entre nós. Foi um período em que as tais claques se mobilizaram em defesa e justificação e apologia dos respectivos autores de cabeceira. Um período em que, com poucos meses de intervalo, surgiram nas livrarias o Memorial do Convento, de José Saramago, Balada da Praia dos Cães, de José Cardoso Pires, Os Meninos de Ouro, de Agustina Bessa-Luís, e Para Sempre, de Vergílio Ferreira. Um verdadeiro luxo, já para a época. Algo impensável nos tempos actuais, em que uma certa sacralização dos escritores e da sua obra parece coisa irremediavelmente do passado.

Também eu tinha um campo de estimação nestas leituras: Vergílio Ferreira era um dos meus autores preferidos. Gatinhava ainda em termos jornalísticos, com 20 anos mal cumpridos, e já dava nota entusiástica da Conta Corrente, um dos livros que mais polarizaram opiniões no início da década de 80.

Bem amado, mal amado: poucos ficavam indiferentes nas polémicas que estalavam nas redacções de jornais nesse tempo em que ainda era possível reflectir e discutir e em que a obsessão de preencher a todo o instante as exigências da intensa produção on line não tinham transformado os jornalistas em formiguinhas laboriosas e proletárias acarretando sem cessar o grãozinho noticioso para que, serão após serão, às aristocratas cigarras do comentário jamais falte matéria para perorar interminavelmente nas pantalhas.

Havia os fãs de Agustina, os indefectíveis de Cardoso Pires, os primeiros entusiastas de Saramago e aqueles que, como eu, se prendiam sobretudo à obra de Vergílio Ferreira, descobrindo-a com crescente interesse de título para título — Vagão J, Manhã Submersa, Aparição, Cântico Final, Alegria Breve.»

Um comentário em “DELITO há dez anos”

  1. A que se deve a decadência, afinal segundo a narrativa só de pois do 25 de Abril é que chegaram os amanhãs que cantam para pagar à Fenprof milhares de milhões?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *