Sobre a imprensa local *


Paulo Sousa,

O Portomosense assinalou há poucas semanas a sua milésima edição. O que para uma publicação de amplitude nacional seria um facto merecedor de registo, é neste caso um feito de extraordinária dimensão.

Escrevo estas linhas num tempo em que a imprensa livre vive ameaçada. A digitalização da informação banalizou o acesso a conteúdos aparentemente noticiosos e aparentemente gratuitos. Na palma da mão recebemos as últimas novidades e acontecimentos e, juntamente com elas, a ilusão de que estamos bem informados. Quando a intenção de quem produz a notícia, é simplesmente angariar muitas visualizações, a verificação dos factos descritos perde a importância. Para isso, usam-se títulos contundentes, mostram-se fotos chocantes, exploram-se as tragédias e, se isso for necessário, amolga-se a verdade. Vale tudo para conseguir audiência. Pelo meio das notícias, segue publicidade em barda e, sem dar por isso, o leitor deixou de ser o freguês e passou a ser o produto.

A imprensa livre precisa de leitores dispostos a pagar por informação relevante e credível, e essa é a única forma de se assegurar a independência dos jornalistas. Só assim poderá atingir o seu fim último, bem lembrado pelo Director Luís Vieira Cruz na milésima edição, e que é o de ser o maior inimigo das ditaduras.

A imprensa local vive sob essas mesmas ameaças, mas tem também a responsabilidade de fazer das suas páginas um registo do que mais relevante acontece na nossa terra e que, a partir delas, ficará disponível para memória futura.

É encantador folhear jornais locais publicados há cinquenta ou cem anos atrás. Graças aos arquivos digitais acessíveis em linha, é fácil fazê-lo. Com os pés assentes no Outono de 2023, e conhecedores das datas e do processo que levou ao fim do regime anterior, é interessante lermos o que sobre ele diziam os seus contemporâneos.

Quando, daqui a cem ou mais anos, os que cá estiverem, folhearem a 1006ª edição de O Portomosense, o que pensarão de nós? Acredito que para eles, seremos apenas gente que viveu nesse sítio distante chamado passado, e nas suas considerações seremos vizinhos de personagens históricas muito anteriores a nós, e de outras que ainda não nasceram. Facilmente confundirão António Costa com Afonso Costa e Marcelo Caetano com Marcelo Rebelo de Sousa, não tivessem sido todos eles gente do tempo da República.

É por isso que o que mais aprecio ler nas páginas deste nosso quinzenário são as entrevistas feitas aos nossos mais velhos. Nem todos se exprimem com a mesma clareza e desenvoltura, mas cada um à sua maneira, tem algo para nos dizer, tem algo que deve ficar registado para o futuro. Usar o jornal para dar voz às nossas gentes, associar um nome à imagem de um rosto, a um discurso e a uma memória, é sublinhar aquilo que somos e fintar o esquecimento. Quando isso acontece, cumpre-se a natureza do jornal local.

Por isso, e fingindo que o jornal só foi fundado umas semanas mais tarde, não posso deixar de aproveitar esta milésima edição, para dar os parabéns ao nosso quinzenário O Portomosense. Todos os que o imaginaram e lhe dão forma merecem o nosso apreço e reconhecimento. E que venham mais mil edições!

 

* Texto publicado no jornal O Portomosense

6 comentários em “Sobre a imprensa local *”

  1. não tivessem sido todos eles gente do tempo da República

    Quer esta frase dizer que o “tempo da República” irá acabar? Que voltaremos a ter monarquia?

  2. para em parte contrariar «Lisboa é Portugal, o resto é paisagem».
    no insepulto interior ainda se encontra quem persista em existir.
    os governantes bem se esforçam por nada fazer e lembrar constantemente «que descanse em pás e que o Senhor o acompanhe» RIP

    1. São deliciosas essas notícias. Olha esta para troca d’O Mensageiro de 9 de janeiro de 1932:
      “Nada de situações ambiguas. Ou pelos reviralhistas ou pela União Nacional, que não sendo pròpriamente um partido é um agrupamento em que são chamados a colaborar, a ingressar todos os verdadeiros portugueses, que querem sua Pátria livre e respeitada. Abatidas as bandeiras partidárias para se hastear unicamente a Bandeira da Pátria, a União Nacional conta nas suas fileiras portugueses vindas de todos os campos, sem lhes exigir mais do que um passado honroso e sem crimes e a sua adesão a um Novo Estado, que começando a libertar Portugal em 28 de Maio de 1928, só abandonará as rédeas do poder – fiquem certos disso os reviralhistas, os medrosos, os despeitados e os equilibristas – quando uma nova mentalidade política dominar por completo o espírito publico.”
      Uma jóia.

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