Como certamente todos têm reparado, tenho-me abstido de tecer quaisquer comentários ao que se está a passar no PSD desde que começou a campanha para a liderança. Vasco Pulido Valente já disse praticamente tudo o que havia a dizer. Da inutilidade do congresso santanista à pobreza dos candidatos à liderança.
A disputa dos tempos de antena tem sido grande, a luta no terreno bastante acesa, e algumas das sondagens que têm sido apresentadas suficientemente pérfidas para gerar as maiores desconfianças, quer quanto à situação real entre os candidatos, quer quanto à futura liderança, tantas e tão cruas têm sido as acusações recíprocas de manipulação.
As apostas dizem que vai ser um jotinha o vencedor.
Pedro Passos Coelho, ostracizado pela direcção Ferreira Leite, lá foi fazendo o seu caminho. A máquina está bem oleada, o homem conhece o partido, tem a sua gente bem colocada e acomodou a embalagem às modernas exigências do marketing político. A imagem que hoje Passos Coelho quer passar é a de quem tem conhecimentos, profundidade e uma vida profissional e académica que não o envergonha. Bom, mas uma coisa é a imagem que se quer passar e outra é a que efectivamente se tem. Passos Coelho, como jotinha que foi e que dificilmente deixará de ser, não teve vida profissional ou académica até ao final da juventude. Isto considerando que de acordo com os novos padrões da sociologia e os critérios da banca, a juventude termina aos 35 anos. Até essa idade, normalmente, uma pessoa normal faz o seu curso, eventualmente o mestrado, alguns até o doutoramento, mas arranja uma profissão e começa a trabalhar. E se não for filho do patrão faz o caminho desde o princípio. Sobe a escada. Passos Coelho pode ser tudo, até uma excelente pessoa, coisa de que eu não duvido, mas não é um modelo que deva ser seguido. Um tipo que quando deve estar a estudar e a tratar de arranjar uma profissão dedica quase em exclusivo o seu tempo às jotas, e depois faz toda a sua carreira quase até aos quarenta na política, para só depois acabar o curso e chegar à vida profissional apadrinhado por um dos “senadores” do PSD, não será o líder de que o PSD necessita nem aquele que poderá ser apresentado ao país como diferente de José Sócrates. A clonagem nunca me pareceu uma boa escolha.
Sobre Paulo Rangel, indiscutivelmente o mais ousado de todos, paira neste momento a desconfiança. Rangel deslumbrou-se com a ida para o parlamento europeu, convenceu-se, ou convenceram-no, de que era o maior. E ele lá seguiu, impante e inflamado, com o seu estilo muito próprio, muito desengonçado, muito cantinfleiro, prometendo rupturas sem se rir, desfazendo promessas antigas em nome das novas que amanhã esquecerá, fazendo de conta que era a autoridade em questões de carácter (dos outros), gerindo as intervenções que ia fazendo no “circuito da carne assada” com cada vez menos à-vontade, encaixando os ataques certeiros de Passos Coelho e Aguiar Branco. O balão esvaziou tão depressa quanto encheu, sem rumo definido. Sem incentivos para distribuir aos fiéis, a debandada está à vista. No pouco tempo que lhe falta até regressar ao parlamento europeu cumprirá a Rangel manter uma réstia de esperança, de coerência e de dignidade no discurso, o que já não será fácil.
Aguiar Branco deixou-se ultrapassar pela máquina do partido. As máquinas dele são outras. Ele é mais um Nuvolari do que um Ivan Capelli. É verdade que o seu passado, percurso, estilo e sensatez falam por si. Mas o PSD há muito que perdeu a sensatez e não será por esse lado que militantes sedentos de poder estarão dispostos a ir. O PSD está há demasiado tempo fora do poder e a direcção de que Aguiar Branco é nesta corrida o símbolo máximo atrasou ainda mais essa almejada meta. Num partido onde raramente se perdoam os mais pequenos deslizes, incluindo o simples “mau hálito político“, ninguém estará disposto a perdoar-lhe o papel desempenhado até aqui. Será o mais bem preparado, penso eu, mas isso de pouco lhe servirá na hora da derrota.
Em todo o caso, há um aspecto que ainda não foi devidamente sublinhado, mas para o qual eu gostaria de aqui chamar a atenção. É que até agora ninguém se lembrou de falar nos apoios de cada um, de fazer a lista desses apoios e de perceber por que razão os “barões” se dividiram. Ver quem Menezes e Ribau Esteves apoiam (não deixa de ser irónico ver Pacheco Pereira ao lado deste figurante no apoio a Paulo Rangel), ou com quem estão Alexandre Relvas, Carlos Carreiras, Mendes Bota ou Jardim, e comparar as tomadas de posição já conhecidas desses senhores com os sinais que vêm de algumas concelhias e distritais do partido, diz quase tudo sobre o que espera o futuro líder. Santana Lopes já fez a sua parte. Morais Sarmento, com o sentido de oportunidade e a elegância de um raging bull, também. A divisão não poderia ser mais evidente e de estar mais extremada. A confusão está para durar.
O próximo líder, se for quem se espera, acabará por desmantelar o que ainda sobra do PPD, única forma de voltar a dar voz aos heróis da Gebalis, uma banca para as laranjas de alguns empresários algarvios e, quem sabe, de um dia refundar o partido. Se Passos Coelho chegará algum dia, também, a ter oportunidade de desmantelar o país, é o que ainda vamos ter de aguardar para saber. Já falta muito menos do que aquilo que se possa imaginar. Até lá teremos de nos contentar com as fulgurantes análises de Pedro Lomba e Luís Delgado.

Gostei de ler.
Percebe-se Pedro, porque gostou de ler.
Percebe-se.
Soa bem, é acústico.
Redondo.
Só que isto nao é análise política, nem comentário!
Impecável!
P.S. Gostei particularmente da comparação Nuvolari – Ivan Capelli.
Caro Senhor!
Na qualidade de simples cidadã, sem conhecimento profundo nem sequer superficial das “vidas partidárias”, fico deslumbrada com textos como este, onde quase, como num guião de um filme se vai dando a conhecer os perfis psicológicos e o percurso partidário destes “nobres” cidadãos que tudo fazem a fim de serem eleitos para a nobre missão de governar um País! Contudo, da minha leitura, infelizmente, retive umas palavras chave: -“…militantes sedentos de poder…” – Pois! Acho que é esta a síntese de todas as acrobacias partidárias, sejam do partido X ou Y! Em contrapartida, o Povo está sedento de Justiça Social, de Igualdade de Oportunidades…, e já não tem paciência para estes senhores…
Bem,naminha opinião a vitória de Passos Coelho será o melhor que poderá acontecer a Socrates.O homem é um clone, e mal por mal…
Quanto a Aguiar Branco,é um histórico,mas para nossa infelicidade dificilmente ganhará,porque claramente lhe fizeram uma ultrapassagem pela direita e empurraram-no para a valeta.
Paulo Rangel,nem me merece atenção,especialmente depois daquele tiro no pé na questão das assinaturas de Aguiar Branco. Então só se pode confiar nos jornalistas quando as noticias são a respeito dos outros senhor Rangel? Quer dizer; ao Primeiro ministro exige que justifique e contrarie as informações prestadas pelos meios de comunicação social,mas ele quando confrontado dentro do próprio partido na questão das assinaturas não tem que se justificar…
Valha-nos um burro aos coices…
Deus nosso Senhor é pai de cada atrofiado…
Por tudo isto,quem tá fecundado,somos todos nós,porque nem oposição em condições temos…
Não gostei do seu comentário.
Em primeiro lugar, o “vazio” de dizer politica.
Em segundo lugar, a visão por características pessoais. Este palhaço é melhor que aquele violinista, e aquele melhor que o maestro…Não é seguramente discutir politica, meu caro!
Em terceiro lugar, não diz um único facto politico ou decisão politica que implique a tomada de posição. E porquê? Porque o comentador andou distraído. Paulo Rangel lançou temas, raciocínios e resultados.
Nada disse o relator, e nada disse porque não sabe, e não sabendo refugia-se nos adjectivos, porque os substantivos da economia, da autoridade, da justiça, da educação não são de comentar porque o autor não pode.
…a sua abstenção de comentário foi pois um momento lúcido.
a etica da escolha de comentários é uma coisa…deixe lá já comentei noutros sitios reportando-me ao seu escrito que obviamente detesto.
Deve haver um engano ( e cito-o):
…«Ver quem Menezes e Ribau Esteves apoiam (não deixa de ser irónico ver Pacheco Pereira ao lado destes dois figurantes no apoio a Paulo Rangel)»…
Mas Menezes é pelo PPC!
Até por instinto se lá chegava…:)
Tem razão. Li agora na página de pessoal de Menezes que ele apoia PPC . Está rectificado. São tantas as manifestações de apoio e desapoio que às tantas se perde… o Norte.
Não vejo por que motivos o Sérgio considera necessário que Pedro Passos Coelho, ou qualquer outro político, tenha, à margem da política, uma vida profissional e académica cheia de sucesso.
Um bom político, para o ser, deve ser um político profissional. Não deve ser um político em part time, um amador, deve ser um profissional. Não precisa de, aliás não deve, ter uma carreira profissional e académica. Parece-me a mim…
Por que motivo se há-de exigir de um político aquilo que não se exige de um qualquer outro profissional, ou seja, que exerça duas profissões ao mesmo tempo?
Sérgio, obviamente deve ser dada a dúvida: viu mais tarde e por isso nao colocou. Da minha parte, perdões.
“Como certamente todos têm reparado, tenho-me abstido de tecer quaisquer comentários ao que se está a passar no PSD …”
Respondendo ao seu comentário:
NADA!