Lápis L-Azuli


Maria Dulce Fernandes,

As-Aventuras-de-Tom-Sawyer.jpg

Hoje lemos: Mark Twain, “As Aventuras deTom Sawyer”

Passagem a L-Azular: “Ele teria então compreendido que o trabalho consiste em tudo o que um corpo é obrigado a fazer, e que o jogo consiste em tudo o que um corpo não é obrigado a fazer. E isso ajudá-lo-ia a entender o porquê de produzir flores artificiais ou fazer funcionar uma esteira ser considerado trabalho, enquanto derrubar nove pinos ou escalar o Mont Blanc se considerar apenas diversão. Há cavalheiros ricos na Inglaterra que dirigem carruagens de passageiros com quatro cavalos, vinte ou trinta milhas diariamente, no verão, porque o privilégio lhes custa um dinheiro considerável; mas se lhes fosse oferecido um salário pelo serviço que o transformasse em trabalho, provavelmente pediriam demissão.”

Diziam os antigos: “não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu.” E  bem verdadeiras são estas palavras. Quem não gosta de ter, porque ter confere poder? Todos gostam de ter algo que lhes confira notoriedade,  estatuto social. Vejo pela rapaziada que trabalhava comigo. Assim que ganhava uns cobres, queria lá saber do porvir! Queriam mesmo era vir de carro (a maior “bomba” possível) todos os dias trabalhar! Mas se puder trabalhar apenas quando lhe convém, melhor ainda. Que se lixem os prémios e os incentivos. Agora até já inventaram a “auto-baixa” que na realidade “não penaliza o estado nem os patrões, apenas quem falta”. Que grande patranha! Então se um funcionário falta e de seguida apresenta uma justificação conforme de três dias, durante esse período de tempo, quem é que faz o trabalho dele? Tudo o que é considerado trabalho torna a vida demasiado complicada… Eu sei! Tive 47 anos disso e o hábito não passa com um estalar de dedos.

(Imagem Google)

16 comentários em “Lápis L-Azuli”

  1. Já??
    Com apenas dois dias de reforma e já está rabugenta?
    Finja que está em tele-trabalho, custa menos a passar o tempo.

    1. Duas grandes invenções da mãozinha fechada, o tele-trabalho e a auto-baixa.
      Ambas como uma aderência de fazer explodir qualquer escala. Já pensou, por exemplo, em ir a um restaurante em tele-trabalho? Qualquer dia serão esses que irão ganhas estrelas Michelin

      1. Não diga mal do tele-trabalho que os putos não querem outra coisa. E a auto-baixa é bom. Eu ainda me lembro quando apanhei varicela e a médica me obrigou a ir ao posto porque não acreditou na minha mulher. Agora imagine, varicela em adulto, quando cheguei ao posto parecia que tinha lepra, fui logo atendido.
        A médica nem queria acreditar, foi chamar os colegas, tiraram-me fotografias e fiquei para a posteridade.

        1. Claro que os putos não querem outra coisa! Trabalhar de pijama, sem ter de tomar banho ou lavar os dentes, sem ter de apanhar transportes ou filas de trânsito, sem ter de almoçar a correr… não estamos a preparar homens ou mulheres para a vida, estamos a preparar bichos-preguiça.
          Já entendi de onde lhe vêm os caprichos! É da puerilidade! Quem não cresce é assim… até apanha doenças de crianças depois de velho…
          ( eu , por exemplo, tive rubéola com 25 )
          PS. A auto-baixa de nada lhe valeria. A varicela só deixa de ser contagiosa após todas as pústulas secarem. Coisa para 10 dias. Voltámos a ter experiência no assunto há 1 mês.

          1. “… não estamos a preparar homens ou mulheres para a vida, estamos a preparar bichos-preguiça.”

            Olhe que não. Eu quando era puto detestava ler porque não conhecia a maior parte das palavras, e agora olhe, até sei o que é que é o esternocleidomastóideo.

          2. Isso é fígado, mas passa com dieta de água fervida.
            O meu sobrinho é um crânio, o melhor do curso, vai ao ginásio, ao cinema, ao teatro, a museus e exposições e está em tele-trabalho. Tire-lhe o carro e o GPS e obtém uma pessoa muito enrascada em deslocar-se na capital e a desenrascar-se em geral sozinho em casa… exactamente porque passa muito tempo em casa sozinho.

          3. Temos de dar um voto de confiança aos putos, não podemos esquecer que são eles os governantes de amanhã. E quando tínhamos a idade deles não havia GPS, nem carro tínhamos.
            O mundo mudou, agora somos nós os velhos do Restelo. Não perca a esperança.

          4. Eu não sou Velho do Restelo. Nem auguro infortúnios. Bato-me taco-a-taco com esta malta nova acerca de tudo um pouco. No que toca a BD, por exemplo, que é um interesse comum a várias gerações, dou-lhes uma abada de tal modo que chegam a convidar-me para soirées de jogos de tabuleiro de cultura geral.
            O que eu quero dizer é que, exactamente por não termos carros, smartphones, tablets e GPSs, tínhamos uma preparação diferente para as ” intempéries ” da vida que eles não têm. E se houvesse, por exemplo, um blackout de várias semanas e se encontrassem sozinhos? A título de estudo, seria um desastre.

          5. E o que é que os nossos pais diziam de nós? Não era o mesmo?
            Quantas vezes eu ouvi dizer que a nossa geração não sabia nada e que a quarta classe deles era muito superior à nossa universidade.
            Sempre houve este conflito de gerações, faz parte da evolução de um país só que o aparecimento das novas tecnologias acelerou exponencialmente essa evolução e foi a nossa geração a responsável por isso.
            Só temos de aceitar e acompanhar, mais nada.

          6. Os meus pais nunca me diminuíram, pelo contrário. Aprendi tudo o que era necessário aprender em casa para poder, com 12 anos , tomar conta dos meus irmãos, qusndo os meus pais tiravam um tempo para eles, o que significava alimentar, lavar e deitar ( com os exageros dos dias de hoje, alguém por certo apresentaria denúncia à CPCJ…). Incentivaram-me a viajar, aprender línguas, ler, conversar com os adultos sobre a actualidade. Tinha um X para os transportes e sabia que era qb. Se queria guloseimas ou outras coisas, tinha de me levantar cedo para ir a pé, por exemplo, e ficar com o dinheiro para as ” excentricidades”. Pintava pratos, azulejos etc. que uma amiga que tinha uma pensão vendia aos turistas o que com 15,16 anos me dava alguma liberdade financeira. Quando comecei a ” trabalhar por 3 meses” ficava sozinha em casa, cozinhava, lavava , limpava, passava a ferro ( arrrrghhh)… nada disto existe agora. Comida de microondas, ou vegetariana para não dar trabalho de improviso a quem não sabe estrelar um ovo…
            Claro que os rapazes não entendem, porque tinham sempre quem tratasse deles por isso é que são tão limitados e aceitam tão bem a geração bicho-preguiça.

          7. Você não perde uma para dar uma ferroada. O que é que os rapazes tinham de entender se era o tipo de educação na altura.
            Tenho uma irmã mais velha que eu dois anos, ela tinha lavores femininos e eu tinha oficinas de serralharia. Na escola ela ia por uma escada e eu ia por outra. Acha que é por isso que os rapazes são limitados?
            Você com 15 anos pintava pratinhos, eu com 14 pintava casas aos meus vizinhos, aos 15 comecei a trabalhar a sério numa fábrica.
            São outros tempos, provavelmente esta geração não aguentaria o que nós aguentamos, sem dúvida. E nós, conseguiríamos aguentar o que os nossos pais aguentaram? Não será a mesma coisa?
            O mundo mudou, e esta geração, por muito que nos custe é da nossa responsabilidade.

          8. Ainda bem que consegue ver ao longe, vá lá!
            Se nós fomos/somos capazes de aguentar o que os nossos pais aguentaram? Claro! E mais ainda! Fui a primeira pessoa de toda a minha família a reformar-se depois dos 60 anos de idade! Provavelmete você também foi aos sessenta? E esta hein, Michelangelo ?

          9. “estamos a preparar bichos-preguiça.”

            ok não deveria ter desatado a rir…

  2. Cesare Pavese; LAVORARE STANCA
    Camminiamo una sera sul fianco di un colle,
    in silenzio. Nell’ombra del tardo crepuscolo
    mio cugino è un gigante vestito di bianco,
    che si muove pacato, abbronzato nel volto,
    taciturno. Tacere è la nostra virtù.

    ‘Deus tenha no Céu quem inventou o descanso’

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *