
«No dia 25 de Novembro de 1975 a RTP estava novamente ocupada por forças militares. O líder dos ocupantes, Duran Clemente, proibiu-nos categoricanente que eu e a minha equipa saíssemos das instalações do Lumiar. Quanto tentei desrespeitar esta ordem, que me parecia ilegítima, o Capitão chegou a levantar a arma na minha direcção. Olhei em redor: apenas ali estavam presentes os militantes comunistas e alguns da esquerda mais extremista, além de outros que nem à RTP pertenciam.»
João Severino, Recordador Olex, p. 107
Ed. Âncora, 2022

Muito obrigado, grande blogger Pedro. Bem hajas.
João Severino, numa odisseia ao volante por países como a China, o Paquistão e o Irão, mas
o mais importante é a cassette que este mês ainda não foi tocada, ou não estivéssemos em tempo de feiras.
O texto a seguir é uma análise posterior(publicada no livro Crónicas e Cartas de Manuel de Portugal em 1976) à crónica originalmente publicada em 1 de Novembro de 1975 com o título “Carta Aberta ao Pacóvio Pagante” : “A indisciplina das Forças Armadas,em Novembro,atingia o auge da rebaldaria bandalhesca. Caído o Gonçalvismo procuravam os adeptos do “camarada” Vasco minar o que ainda restava daquilo que fora,em tempos,o Exército Português. Soldados de alpargatas,de lenço ao pescoço,cabelos desgrenhados,a vergonha de uma tropa fandanga que se pavoneava nas ruas alardeando um revolucionarismo de porcaria,um socialismo de pouca vergonha. Na zona do Intendente militares e prostitutas formavam,nas características do abandalhamento,um quadro digno de Zola. Havia unidades onde as ordens se discutiam em plenários sem fim. O povo pagava esta opereta de cordel,este espectáculo de bonifrates fardados. Surgiu,deste modo,a “Carta ao Pacóvio Pagante”,ao Zé Povo que alomba,que geme,que paga e que sofre. Não sabe o povo que o Grémio Literário que servia Lagosta Thermidor ao sr Tenreiro,cozinhava agora Linguado au Meunier para o sr Rosa Coutinho. Mas o povo pressentia,aqui e além,que houvera uma revolução que em nada o beneficiaria em termos de valores reais para lhe satisfazer as necessidades básicas. Os hospitais eram os mesmos,mas com menos médicos, Os géneros encareciam ou rareavam. As escolas ou não abriam,ou ensinavam pouco. Dizia-me um economista sueco que “nunca tinha visto um Povo caminhar tão alegremente para uma bancarrota suicida”. O que era verdade. Não sei se haverá alguém capaz de calcular os milhões de horas de trabalho que se perderam,inutilmente,em plenários sem fim.Falava-se muito na independência nacional. Esquecendo que a primeira independência nacional é a independência económica.E esta só se obtém com o trabalho da grei. Não é assim sr Professor Sousa Franco?Os mais capazes,os mais sérios,os mais trabalhadores assistiam revoltados ao batuque grotesco de uma minoria barulhenta que falava,falava,falava. Gastámos em perdigotos,em cuspo e em chorrilhos de asneiras,milhões e milhões de contos. Rico e perdulário País. Pediu-me o Salazar sacrifícios e para “produzir e poupar”. Para o futuro. Pediu-me o “camarada” Vasco mais sacrifícios e que entrasse na “Batalha da Produção”. Para garante do porvir da “feliz sociedade socialista”. Canta-me o Pinheiro de Azevedo a música das “medidas de austeridade” e do “trabalhar mais e comer menos”.Para sobrevivermos.
Que geração,que século,que País. Ao que chegámos…