
José António Abreu: «Podia questionar se a expressão mais usada actualmente pelo Partido Comunista, «pacto de agressão», não deveria ser ‘acordificada’ à força (como anda a acontecer aos ‘contatos’ e aos ‘fatos’) e tornar-se «pato de agressão» (caso em que seria conveniente alterá-la para «patos agredidos», com os portugueses – ou, de forma a excluir banqueiros e administradores de várias empresas ex-públicas, o «povo português» – no lugar dos patos).»
Luís Menezes Leitão: «Em boa hora a D. Quixote resolveu reeditar estas Memórias de Humberto Delgado, publicadas originariamente em Londres em 1964, que adquiri na última feira do livro. Sendo esta reedição de 2009, não está escrita felizmente no inenarrável “acordês” com que insistem em maltratar a nossa língua. O livro é fascinante, permitindo-nos conhecer o percurso e o pensamento de uma personagem altamente complexa. Humberto Delgado faz uma avaliação histórica muito rigorosa do país, demonstrando uma erudição incomum. Inicialmente apoiante de Salazar, é curioso como se vai afastando dele por não conseguir concordar com o regime de ortodoxia financeira em que ele mantinha o país, em contraste com a expansão económica que a Europa vivia no pós-guerra em virtude do plano Marshall. Nas suas palavras, os outros países europeus tinham moedas fracas e inflação, mas as pessoas tinham dinheiro. Portugal tinha um escudo forte, sem inflação, mas o povo vivia na miséria. Não consegui deixar de fazer um paralelismo com a actual situação do euro.»

o regime de ortodoxia financeira em que ele mantinha o país, em contraste com a expansão económica que a Europa vivia
Um contraste inexistente: na década de 1960 Portugal experimentou um dos maiores crescimentos económicos da Europa. Foi a década do “milagre económico português”.
Humberto Delgado protagonizou um dos últimos episódios do populismo militar em Portugal: um militar, que aparece sempre como tal (fardado, etc), a aparecer com uma ligação direta ao povo e uma contestação aos políticos poderosos, mas sem medidas concretas a apresentar além do “obviamente, demito-o”.
Uma espécie de Sidónio Pais meio século mais tarde.