
Gui Abreu de Lima: «Aqui, no silêncio que só tu ouves, procura a minha divisão a palavra que não existe. Levanto-me, porque é debaixo que venho. Do fundo sem fundo, de onde se implora: vá, bebe o que precisas de ti, dá à face a lágrima cristalina, olha-te no líquido reflexo. Logo eu, do andar depressa que nunca chega à frente, que é-me a vida adversa ao rigor do sentido, sol que evapora o choro para se não ver. Eu, que sem alarde me ergo, só queria a palavra e sou divisão.»
José Navarro de Andrade: «O modernismo fez esquecer a escola tardo-naturalista americana que durante o séc. XIX pintou no Oeste americano. Era uma terra de ninguém cheia de gente, um vazio repleto de histórias. Em menos de 200 anos tudo desapareceu, ou seja, foi preenchido. Sim, faz lembrar muitas coisas actuais e candentes, porque nada de novo se passa sob os céus que não tenha sido já visto, embora esquecido.»
JPT: «Vivo longe de Portugal há muito tempo, e torna-se-me óbvio que os anos vão-me tornando ainda menos capaz de perceber isso aí, de me perceber. Um tipo angustia-se com o que vai ouvindo e lendo sobre o país. Por amor ao rincão, e por medo do hipotético reformado futuro também, que “isto” não é só cidadania. Já imigrado irritei-me com o guterrismo (no qual votei), espantei-me no interlúdio subsequente (no qual votei), desesperei-me com o engenheiro Sócrates (do qual estou inocente). Nisto que esteve agora, ou ainda mais-ou-menos está, enfim, apenas esperei algo – muito pouco e por muito pouco tempo, ao descobrir que a desvergonha centrista levava Daniel Campelo para o governo, um explicitar do desrespeito radical pelo lógica do regime ou seja, do desrespeito por quem vota e por quem não vota mas por aí anda.»
Luís Menezes Leitão: «Um Governo em que o líder de um dos partidos da coligação não participa é um governo condenado a prazo. Se o PSD alinhar em manter um Governo sem Portas, irá assistir a um novo Governo Balsemão, destinado a vegetar até que lhe dêem o golpe de misericórdia, provavelmente já nas autárquicas, como aconteceu da outra vez. Eu acho que seria péssimo irmos para eleições, mas não estou a ver como estes dois líderes partidários podem construir presentemente qualquer solução de Governo.»
Patrícia Reis: «E»
Eu: «Chega a ser chocante a falta de memória histórica em Portugal. Só isso explica que a RTP tenha feito ontem uma entrevista a Freitas do Amaral, a propósito da actual crise na coligação, sem nunca o confrontar com a sua longa experiência nesta matéria. Com efeito, o fundador do CDS foi responsável pelo fim de duas coligações enquanto presidente dos centristas: em 1978, com o PS de Mário Soares, ao fim de escassos sete meses de frágil exercício governativo (abrindo caminho a três executivos de iniciativa presidencial), e outra em 1982, com o PSD de Francisco Balsemão, após 20 meses de um penoso mandato que deixou profundas cicatrizes na direita (e deixando o País à beira do colapso financeiro, o que viria a provocar a segunda intervenção do FMI em Portugal). Sem ser confrontado com estes factos, Freitas do Amaral lá foi distribuindo ralhetes aos actuais responsáveis políticos por esta “telenovela”, alardeando uma superioridade moral que obviamente não tem nesta matéria. As coisas são o que são.»
