Ler (23)


Pedro Correia,

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Como já revelei aqui, há uns tempos tive a ideia de elaborar uma lista das cem melhores obras da literatura universal de ficção, ano por ano, entre 1901 e 2000. Todo o século XX. Isto serviu-me de incentivo a ler ainda mais. E a fazer descobertas que não faria de outro modo. 

Tenho algumas décadas “fechadas” – se é que uma lista ambiciosa como esta poderá ser estabelecida em definitivo. Mas outras continuam por completar. Diria que me faltam uns vinte livros para pôr fim à empreitada. Problema: creio que nenhum deles tem menos de 500 páginas. 

 

À medida que fazemos descobertas na literatura, logo outras nos surgem pela frente. E cedemos à tentação de as desvendar. Isto explica, em larga medida, por que motivo uma lista tão ambiciosa como esta dificilmente será fechada. 

Assim me chegou às mãos A Paixão Segundo G. H., de Clarice Lispector – escritora que nunca me tinha seduzido. Mas dei uma oportunidade à obra: poderia estar ali o melhor romance publicado em 1964. Concorrendo com Uma Questão Pessoal (Kenzaburo Oe), Uma Noite em Lisboa (Erich Maria Remarque) ou até Herzog, um Homem do Nosso Tempo (Saul Bellow).

Nada como espreitar.

 

Pois espreitei. E o que li deixou-me estarrecido. Pelos piores motivos.

É um “romance” quase ilegível. Começa aliás com uma frase mutilada e acaba com outra também destituída de sentido após sofrer corte abrupto. Tudo centrado numa mulher sem nome (possível alter ego da autora) que, ociosa, deambula pelo vasto apartamento que denota meios de fortuna, supostamente no Rio de Janeiro.

Lá no fundo há um aposento onde há muito não entrava: é o quarto da criada, agora vazio. Inspecciona-o atentamente: está mais limpo do que supunha.

De súbito, encontra uma barata. E entala-a na porta do guarda-vestido, onde o bicho vai agonizando.

 

Isto ocorre na página 37 da edição portuguesa (Relógio d’ Água, 2013). Mais de cem páginas depois, lá continua ela, no mesmo quarto.

Começa a delirar, vai-se espraiando em monólogos sem sentido. Tomando o leitor como suposto confidente. A partir de certa altura até me trata por tu. Um tu impreciso, impessoal. 

Debita frases ocas em catadupa. Seguem-se alguns exemplos:

«Amor é muito mais que amor: amor é antes do amor ainda: é planctum lutando, e a grande neutralidade viva lutando. Assim como a vida na barata presa pela cintura.» (p. 73)

«Esquenta-me com a tua adivinhação de mim, compreende-me porque eu não estou me compreendendo. Estou somente amando a barata. E é um amor infernal.» (p. 91)

«A tentação é comer direto na fonte. A tentação é comer direto na lei. E o castigo é não querer mais parar de comer, e comer-se a si próprio, que sou matéria igualmente comível.» (p. 101)

«A verdadeira tragédia está na inexorabilidade do seu inexpressivo, que é sua identidade nua.» (p. 111)

«Sabia que teria que comer a massa da barata, mas eu toda comer, e também o meu próprio medo comê-la. Só assim teria o que de repente me pareceu que seria o antipecado: comer a massa da barata é o antipecado, pecado seria a minha pureza fácil.» (p. 129)

Torneira aberta, jorrando conversa da chacha. Tudo por causa de uma malfadada barata. Que talvez até fosse um escaravelho, admite ela na pág. 92. 

 

Já basta de citações para se perceber o que padeci. 

Típico exemplar do chamado nouveau roman, então na berra. Romance sem trama, sem enredo, sem personagens, sem diálogo, sem substância. E sem o menor interesse. Só palavras pairando no vácuo. Felizmente o “novo” fez-se logo velho e fechou os olhos para sempre. 

Após ter feito sofrer muitos leitores.

 

Não é Kafka quem quer, mas quem pode. Para arrancar reminiscências das entranhas, muito melhor a madalena do Proust do que a nojenta barata da Lispector.

Adeus, para nunca mais.

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40 comentários em “Ler (23)”

  1. É preciso coragem para dizer assim tão mal de uma escritora tão afamada.
    (Já abri uns livros de Lispector e não vi neles nada que valesse a pena ler. Julgava que fosse só problema meu.)

    1. Concordo.
      Mas reconheço-me como ignorante em matéria de Literatura. Pensava que era defeito meu ….. é que já li algumas coisas dessa autora e nunca percebi nada e foi um frete ler até ao fim. E pasmava ao aperceber-me que foi uma escritora muito considerada por muita gente. Nasceu na Ucrânia mas a língua ´materna dela era o português (versão brasileira) pois veio para o Brasil creio que com meses de idade.
      Sinto uma certa satisfação por verificar que há conhecedores de Literatura que pensam como eu.

    1. Tanta treta pseudo-existencialista para comer a barata 100 páginas depois – e vomitar logo a seguir.
      Se a tivesse comido logo na pag 10, em vez de “romance” era apenas conto.
      As árvores mutiladas agradeciam.

      1. Tal e qual! -Há escritorzecos que, para conseguirem vomitar uma frase de três ou quatro palavras, que os leve a dar nas vistas, até de modo a que sejam citados por outros, que é o que deve ter acontecido com esta senhora; entalam baratas, árvores ou até gente, na portas do guarda-vestidos ou em qualquer ratoeira, a agonizar e a purgar! E que ninguém tenha dúvidas…
        Ainda bem que alguém sabe filtrar a boa escrita, ainda!

  2. Desconheço a autora e nem ambicioso fazer-lhe qualquer defesa mas, da minha experiência, muitos livros sofrem com más traduções. Não sei se será o caso.

  3. É por ser fim de semana ou é mesmo uma certa animosidade contra a escritora ucraniana?
    Confesso que não li esse livro mas já li várias obras dela e não notei que se afastasse muito da média geral.

        1. Sempre escreveu em português, não em ucraniano.
          Essa sua tese equivaleria a dizer, por exemplo, que o Carlos de Oliveira (nascido em 1921 em Belém do Pará) é escritor brasileiro, não português.

  4. Gosto qb de Clarice Lispector. Mas esse foi livro que me custou ler. Como também aconteceu com “A maçã no escuro”. Não sei as qualidades que têm mas hão-de tê-las porque são duas obras muito faladas:) Mas li outros como A descoberta do mundo, ou os contos e foram eles que me convenceram. Apesar do que a escritora diz em entrevista – que os jovens a lêem e gostam das sus obras -, sou descrente. Ou os jovens mudaram um imenso de então para cá.

      1. Li-o todo, de cabo a rabo. E é como disse, gosto da escritora, não gostei desse livro. Mas é a minha opinião, acredito que haja qualidade para além do meu gosto pessoal, não sou crítica literária e já reparei que existem livros célebres – e célebres por serem bons -, e que não me agradam, são difíceis de entender. Deve ser o caso:). Quem sabe nós dois somos a excepção que confirma a regra.

        1. Não é preciso ser “crítico literário” para se gostar muito, gostar um bocadinho ou detestar um livro.
          Neste livro, detestei tudo.
          A falta de história, a falta de enredo, a falta de diálogos, a falta de personagens, a falta de mensagem, o péssimo gosto de se encher um livro a falar de uma barata num quarto vazio. A linguagem oca, cheia de frases que nada comunicam e nada significam.
          Como esta:
          «A verdadeira tragédia está na inexorabilidade do seu inexpressivo, que é sua identidade nua.»
          «A inexorabilidade do seu inexpressivo.» Quase parece um lema do vácuo desta literatura.

          Felizmente, a escola literária em que a autora se inseria – o chamado ‘nouveau roman’, de inspiração francesa – passou há muito de moda. E não ficou com boa reputação, longe disso.
          Paz à sua alma.

      2. Esqueci uma coisa: penso que será um livro em sentido figurado e que talvez elabore reflexões importantes sobre a paixão. Certa vez ouvi Tolentino Mendonça a dissertar sobre esse livro. E a sua interpretação foi surpreendente. Lembro-me que o considerou o melhor livro da escritora.

        1. A Tolentino Mendonça, já desde a sua juventude que lhe atraem estes livros de senhoras brasileiras, tanto de gastronomia como os de baratas encalhadas nas portas. Todas as grandes e notáveis Personagens têm os seus fetiches. Por exemplo, o Churchill, eram as cuecas de seda cor-de-rosa …

          1. Prontus, mas porque esta treta?
            E sempre com ar de polícia pra saber quem é quem, quando a questão era sobre um livro que não entra nos melhores cem.
            Se o comentário fosse ‘fez muito bem dar opinião para não ler este livro, obrigado’ também se preocupava com o nome e apelido?

          2. E continuas a dar treta, não largas uma conversa tipo d. mariquinhas do elevador.

          3. Com tanta treta, sem nada para dizer, devias cometer um romance também.
            Com uma barata burguesa, para dar toque “ideológico” à coisa. Esmagada pelo tacão de ferro do proletariado.
            Ainda eras eleito p’ró comité central.

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