Lápis L-Azuli


Maria Dulce Fernandes,

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Hoje lemos: José Luis Borges, “Ficções”.

Passagem a L-Azular: “Funes discernia continuamente os calmos avanços da corrupção, das cáries, do cansaço. Podia sentir o progresso da morte, da umidade. Era ele o espectador solitário e lúcido de um mundo multiforme, instantâneo e quase intoleravelmente preciso. Babilônia, Londres e Nova York dominaram a imaginação dos homens com feroz esplendor; ninguém, nas suas torres lotadas ou nas suas avenidas urgentes, sentiu o calor e a pressão de uma realidade tão infatigável como aquela que dia e noite convergia para o infeliz Ireneo, no seu pobre subúrbio sul-americano. Era muito difícil para ele dormir. Dormir é uma distração do mundo; Funes, de costas no catre, nas sombras, imaginava cada fresta e cada moldura das casas precisas que o cercavam. (Repito que a menos importante de suas memórias era mais detalhada e mais vívida do que nossa percepção de gozo  ou tormento físico.) A leste, num trecho não bloqueado, havia casas novas e desconhecidas. Funes imaginou-as negras, compactas, feitas de escuridão homogênea; naquela direção  virou o rosto para dormir.  Costumava também  imaginar-se no fundo do rio balançando,  anulado pela correnteza.”

É intolerável imaginar o inimaginável, principalmente para quem nunca conheceu o verdadeiro sofrimento e para quem o tormento dos outros não passa de ficção. “Dormir é uma distracção do mundo”, tantas vezes a única para quem pode e um inalcançável graal para quem procura, a miragem da paz que poucos conseguem alcançar. 

(Imagem Google)

4 comentários em “Lápis L-Azuli”

  1. «Segundo um estudo realizado por Antonio Andrade, Jorge Luis Borges tem ascendência portuguesa: o bisavô de Borges, Francisco, teria nascido em Portugal, em 1770, e vivido na localidade de Torre de Moncorvo,»

    «As sete obras deste livro não requerem maior elucidação. A sétima (“O jardim de veredas que se bifurcam”) é policial; seus leitores assistirão à execução e a todos os preliminares de um crime cujo propósito não ignoram, mas que não compreenderão, parece-me, até o último parágrafo.»

    OBRAS COMPLETAS DE JORGE LUIS BORGES
    encontrei na Net

    para férias reler:
    BRILLAT – SAVARIN in PHYSIOLOGIE DU GOUT

    Une écologie de l’alimentation / Sous la direction de Nicolas Bricas
    Damien Conaré, Marie Walser

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