
Tenho mencionado várias vezes este assunto: a mania de atribuir diferentes títulos portugueses a obras de fama universal que há muito foram lançadas no nosso mercado e não cessam de regressar aos escaparates com novo embrulho.
Umas vezes é mera estratégia comercial: título alterado, para o leitor incauto, pressupõe obra diversa.
Outras vezes corresponde apenas à mania de “parecer diferente”, mudando por mudar – quase sempre para pior.
Há ainda uma terceira hipótese, talvez a mais frequente: pura ignorância.
Há uns tempos, numa livraria em Lagos, vi estas duas edições emparelhadas – segundo a ordem alfabética, que prevalece nos postos de venda. As lombadas falam por si. À esquerda, a clássica tradução da obra-prima de Emily Brontë: O Monte dos Vendavais; à direita, o mesmo romance com título modificado. Para pior.
A Colina dos Vendavais: perde-se a toada de redondilha maior das sete sílabas poéticas do título original, modificando-a sem nenhum ganho de significado e óbvia perda de efeito estético.
É o que acontece quando se confia a tarefa a alguém incompetente.

Emily Brontë tem pouca sorte com os tradutores portugueses. Já houve pior do que isto. No início da década de 70, as Publicações Europa-América lançaram este clássico de 1847 na sua popular colecção de livros de bolso com um título que não lembraria ao D. Fuas: O Monte dos Ventos Uivantes. Com cinco palavras, nove sílabas métricas e manifesta infidelidade não à letra mas ao espírito do texto original, aplicando-lhe uma lógica de google translate muito antes de esta ferramenta digital existir e quando nem a internet havia sido inventada.
Na década seguinte, a Dom Quixote deu à estampa outra versão portuguesa de Wuthering Heights com nova alteração de título: O Alto dos Vendavais. As traduções são mesmo assim: com altos e baixos.

Há quem menorize estas subtilezas. Será certamente alguém com escassa ou nula sensibilidade literária. Cada língua tem a sua métrica e a sua música: se queremos traduzir bem, nunca podemos permanecer indiferentes a isto.

Vá que, não havendo nova edição em curso, não lhe atiravam com “Os Montes dos Guinchos”
Eu proponho uma nova: Os Cucurutos Assobiantes
Ainda há-de aparecer um idiota com uma sugestão dessas (ou semelhante).
« traduttore, traditore … Aforismo italiano segundo o qual quase todas as traduções são infiéis, e atraiçoam por consequência o pensamento do autor do original. »
casos:
Jacques Monod. Le hasard et la nécessité essai sur la philosophie naturelle de la biologie moderne aux Éditions du Seuil, Paris
EL HOMBRE Y LA GENTE – ORTEGA Y GASSET
STEPHEN JAY GOULD – The mismeasure of man
Mais peças para o puzzle:
Na edição mais recente da obra, a D. Quixote decidiu corrigir o tiro e alinhar no mais consensual “O monte dos vendavais”.
Gostei de saber.
Aliás, já sabia. Até dei notícia dessa edição aqui: eituras-14874836
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/l
Boa tradução de Ana Maria Chaves.
(E até a capa é bem melhor do que a da versão anterior, que se limitara a colar um fotograma do filme de 1939, com Laurence Olivier e Merle Oberon.)
Os nossos irmãos do além-Atlântico preferiram (e ficaram-se por) “O morro dos ventos uivantes”.
Se for no Rio pode ser o Morro da Rocinha.
“Lookinf for Espinoza – Joy, Sorrow and the Feeling Braind”
(Á Procura de Espinosa – Alegria, Tristeza e o Cérebro Sensível)
de António Damásio.
Publicações várias:
“Ao Encontro de Espinosa – As emoções sociais e a neurologia dos sentidos”
Não hesito na preferência.
Eu olhando para um dicionário online vejo que “wuther” quer dizer “soprar com um rugido ou uivo”, e portanto parece-me que “ventos uivantes” é uma tradução bem mais fiel do que “vendavais”.