A missa anual


Luís Naves,

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O calendário atinge 25 de Abril e ocorre um curioso fenómeno na sociedade portuguesa, mistura de pensamento mágico com dogmas arqueológicos e a aparente necessidade de suspender o sentido crítico. As pessoas põem cravos na lapela, desfilam patrioticamente e conformam-se com umas beatitudes políticas sobre liberdade. Este ano, a revolução fazia 49 anos, nem havia número redondo, mas o espaço mediático, incluindo redes sociais, transformou-se numa gigantesca sacristia onde se debitavam as rezas adequadas ao espírito devoto da época. Duvido que todos acreditem naquilo que é dito, mas não deixa de ser intrigante esta unanimidade sobre os acontecimentos de 1974. O regime deixou de se interrogar e as suas elites estão satisfeitas com as fracas realizações. Em muitas cabeças, o império ainda não acabou; em outras, a revolução foi traída. Na realidade, ao contrário da generalidade dos países europeus, Portugal nunca chegou a ter classe operária forte e, nas duas últimas décadas, a classe média foi dizimada. O país vive de rendas e de subsídios europeus, mas é periférico na Europa, não tem ambição e resiste à mudança. Durante esta época de missa obrigatória, a opinião pública é exposta a ilusões esquerdistas do século passado e a História permitida baseia-se numa mitologia piedosa sobre dois períodos caóticos, o PREC e a Primeira República.

imagem, Night Café, IA

21 comentários em “A missa anual”

  1. Não é preciso muito, veja-se aqui ao lado o exemplo dos nuestros hermanos, acho que nem têm um feriado parecido com o 25 de Abril.
    O nível de desenvolvimento que se seguiu ao fim da ditadura franquista não tem comparação possível com Portugal, lá o marxismo foi colocado no seu sítio e a direita fez-se respeitar.

    1. nuestros hermanos nem têm um feriado parecido com o 25 de Abril

      Em Espanha não houve um golpe de Estado nem uma revolução, houve simplesmente uma evolução na continuidade. Logo, é natural que não tenham lá um feriado equivalente.

      1. Cloro que não houve nenhum pronunciamento militar, Franco simplesmente morreu, o que eu queria dizer era que não têm nenhum feriado de comemoração do fim da ditadura franquista.

  2. as elites [do regime] estão satisfeitas com as fracas realizações

    Não são nada fracas (embora pudessem ter sido mais fortes). O país está muito mais desenvolvido do que em 1974. Em particular, tem uma rede de bem-estar social (saúde, educação, pensões de reforma) muitíssimo superior. Tem também infraestruturas (especialmente estradas) muitíssimo melhores.

    1. Não são fracas!? Em 1974 Portugal estava melhor que muitos países que hoje o ultrapassaram. Com a quantidade de dinheiro capitalista que entrou no país socialista depois de 1974: FMI, CEE e União Europeia, endividamento politico que já vei em 130% do PIB, mais o endividamento privado o país está comparativamente pior.
      Sim Portugal é um investimento expeculativo. Só que como é pequenino e está quieto ainda ninguém se chateou.

      1. Mais realizações no horizonte. Eis o que se prepara em nome das liberdades:
        “Longe vai o tempo em que mandávamos os nossos filhos para a Escola para aprenderem matemática, português, história, ciências e outras matérias que, além de lhes dar conhecimentos de cultura geral, as preparasse para o mercado de trabalho. Hoje, a principal função da Escola parece ser a de encher a mente das crianças de sexo, ou melhor, de ideologia de género, estimulando-as a experimentar todas as formas, possíveis e imaginárias, de fazer sexo e a não serem o que são, dizendo aos meninos que podem ser meninas e às meninas que podem ser meninos – quando quiserem – que podem escolher o seu género [sexo] e que até podem ser do sexo fluído — hoje é menino, amanhã menina, bissexual, pansexual, o que lhe apetecer, mediante os 114 géneros que a Escola lhes apresenta.” Daqui https://sol.sapo.pt/artigo/797745/ha-presse-em-encher-a-cabeca-das-criancas-de-sexo

  3. Discordo de si.
    O PREC e a 1ª República foram tempos caóticos, é certíssimo, mas têm em comum algo bem mais estrutural: aconteceram a seguir a dois regimes que pura e simplesmente caíram de maduros, para não dizer de podres.
    Quanto ao dia, com o tempo a unanimidade vem diminuindo, e este ano com o Chega então nem se fala.
    É um dia que foi bom para uns, mau para outros, deu início a um modelo com falhas, por mim prefiro-o ao anterior, mas cada qual tem direito a gostar ou a detestar, e, sobretudo, a manifestar alto e bom som esse direito.
    E sim, vivemos de rendas e subsídios mas não me parece que isso tenha começado em 1974, desde os descobrimentos que se fala disso.

    1. O PREC foi um tempo de violação dos Direitos Humanos pior que o antes.
      Mais uma vez nas festividades do 25 de Abril não se falou do mais de 1 milhão de mortos que boa parte dos seus autores criaram.
      De 1 ditadura nasceram 7 ditaduras ( O PREC foi Ditadura) e só em 25 de Novembro de 1975 se pode começar a ter algum estado de direito por cá.
      Por África centenas de milhares de pessoas morreram em vários países por causa da ideologia de boa parte dos fizeram o 25 de Abril.

  4. As comemorações na AR são uma pasmaceira de adormecer há anos. Ninguém que possa sair de casa fica a ver aquilo. Finalmente tivemos uma sessão animada.

  5. Chega sobre os políticos ”cravo na lapela … carteira recheada”.
    em breve a classe média será toda indigente.
    Simone Weil in RIFLESSIONI SULLE CAUSE DELLA LIBERTÀ E DELL’OPPRESSIONE SOCIALE
    Lenine in LA SOCIETE DE CLASSES ET L’ETAT
    1. L’ETAT, PRODUIT DE CONTRADICTIONS DE CLASSES INCONCILIABLES

  6. Até parece que o problema da gestão da coisa pública é só de agora, e tem alguma coisa a ver com ideologia.

    Agrava-se a situação financeira
    Lisboa, Maio de 1871
    As contas oficiais, publicadas pelo governo, mostram que as finanças estão a atingir um ponto crítico. O défice de 1869-70 elevou-se de 5 para 14 mil contos.
    As despesas têm aumentado em relação aos orçamentos previstos:
    1867-68 — 20.529 contos
    1868-69 — 26.629 contos
    1869-70 — 31.594 contos
    É o preço das obras públicas, custeadas em larga medida por empréstimos contraídos em condições onerosas nos mercados financeiros de Londres e Paris.

    1. Será isto um texto de um Ultra Liberal?

      “Assim se explica tambem o desenvolvimento da emprêgo-mania. As artes e os officios, o commercio e a industria, as profissões liberaes viram desertar das suas fileiras muitos dos seus membros que se trabalhassem diligentemente poderiam ser optimos cidadãos, para se virem alistar nos exercitos numerosos do funccionalismo. Á mesa do orçamento procuravam assentar-se todos os que ambicionavam viver regaladamente sem canceiras e sem trabalhos.

      (…)
      Já atraz alludimos á emprêgo-mania É com effeito um dos males que affligem as sociedades contemporaneas, e nomeadamente a portugueza. Tem a sua origem immediata na superabundancia de individuos que se dedicam ás profissões liberaes, abandonando as artes e as industrias exercidas por seus paes e avós. Em vez de procurarem na instrucção, nos estudos a que se consagram, elementos salutares e especiaes para desenvolverem e aperfeiçoarem o trabalho manual ou mechanico, aproveitam o saber que adquirem como instrumento para d’elle se tornarem independentes e invadirem de preferencia as posições officiaes. D’esta tendencia cada vez mais manifesta, apesar das difficuldades creadas com as exigencias de propinas, de exames, de concursos, tem resultado o excessivo desenvolvimento do funccionalismo. É esta, sem duvida, uma das causas geradoras da grande crise economica da actualidade, e provém ainda em parte do preconceito moral de origem biblica que faz considerar o trabalho como castigo imposto ao homem, e em parte da tradição herdada das épochas de conquista em que as artes manuaes eram o apanagio dos escravos ou dos servos. A liberdade, proclamada pela revolução que deu o triumpho politico ao terceiro estado, teve por consequencia, não tanto a rehabilitação ou a dignificação do trabalho, como a abertura das profissões liberaes aos filhos de todas as classes.
      (…)

      https://www.gutenberg.org/cache/epub/24701/pg24701-images.html

      A dissolução do regimen capitalista
      Teixeira Bastos
      1897
      BIBLIOTHECA
      POPULAR
      DE
      ORIENTAÇÃO
      SOCIALISTA

  7. Durante esta época de missa obrigatória, a opinião pública é exposta a ilusões esquerdistas do século passado e a História permitida baseia-se numa mitologia piedosa sobre dois períodos caóticos, o PREC e a Primeira República.

    Concordo muito com isto

    1. Exactamente, e no entanto a História continua. Eis o que se prepara em nome das liberdades:
      “Longe vai o tempo em que mandávamos os nossos filhos para a Escola para aprenderem matemática, português, história, ciências e outras matérias que, além de lhes dar conhecimentos de cultura geral, as preparasse para o mercado de trabalho. Hoje, a principal função da Escola parece ser a de encher a mente das crianças de sexo, ou melhor, de ideologia de género, estimulando-as a experimentar todas as formas, possíveis e imaginárias, de fazer sexo e a não serem o que são, dizendo aos meninos que podem ser meninas e às meninas que podem ser meninos – quando quiserem – que podem escolher o seu género [sexo] e que até podem ser do sexo fluído — hoje é menino, amanhã menina, bissexual, pansexual, o que lhe apetecer, mediante os 114 géneros que a Escola lhes apresenta.” Daqui https://sol.sapo.pt/artigo/797745/ha-presse-em-encher-a-cabeca-das-criancas-de-sexo

  8. > As pessoas põem cravos na lapela, desfilam patrioticamente

    Devia ler menos jornais. Isso só acontece nos relatos oficiais do regime.

  9. Compatriotas de Portugal! Passou mais um glorioso 25 de Abril, o dia em que comemoramos a lendária Revolução dos Cravos, aquela que nos livrou das garras do opressivo Estado Novo! Mas atenção, amigos, não nos deixemos cair na armadilha do conformismo e da alienação!
    Aí esteve, novamente, esse misterioso dia em que todos nos deveríamos ter unido, fosse qual fosse a nossa cor política, para colocar cravos nas lapelas e desfilar orgulhosamente pelas ruas. Mas, digam-me, camaradas, o que é que realmente mudou? Será que esta celebração é mais do que um mero acto performativo que serve apenas para perpetuar uma ilusão de união e progresso? A resposta, meus amigos, só depende de nós!
    Eis-nos, então, num mundo em que a esquerda clama por igualdade e justiça social, enquanto a direita defende a liberdade e a iniciativa individual. Mas que importa, camaradas, se no final, todos ansiamos por uma nação mais próspera e feliz? Não é hora de pôr de lado as divergências e unir esforços, em prol do bem comum?
    Pois bem, amigos, ergamos a bandeira do 25 de Abril e marchemos juntos, de mãos dadas, num caminho que nos leve a um futuro onde o socialismo e o capitalismo se fundam harmoniosamente, num casamento de conveniência. Não estou a falar de uma união de facto entre Marx e Hayek, pá! Ambos representam visões falhadas anquilosadas no passado. Não valeria a pena descer a Avenida da Liberdade com Das Kapital: Kritik der politischen Ökonomiear na algibeira enquanto se tem The Road to Serfdom na mesa de cabeceira. Também não vale a pena queimá-los, que os livros ardem mal. Mas, que o espírito do 25 de Abril nos inspire a criar uma nova realidade, onde as ideologias se dissipem num equilíbrio viável, e onde todos possamos, enfim, ter uma vida porreira, pá, sem comer criancinhas ao pequeno-almoço, nem ver leviatãs em cada repartição pública!
    À luta, camaradas e compatriotas, avante e de mãos dadas! Que o 25 de Abril seja o pretexto para unir esquerda e direita numa utopia das possibilidades, num país onde cada um possa cantar “Grândola, Vila Morena” ou “O Fado do 31”, conforme o coração ditar, e em que haja mais uns trocos na algibeira, para Portugal não continuar nesta pasmaceira.
    Criemos um PREC 2.0, um Plano Revolucionário de Enriquecimento Colaborativo, onde unamos as ideias de justiça social e igualdade com a iniciativa individual e a liberdade de mercado, criando um ambiente onde todos possamos prosperar e trabalhar juntos, sem, que ninguém fique para trás a apanhar gambuzinos, pá. Juntemos o melhor da esquerda e da direita neste PREC 2.0, num esforço conjunto para o bem-estar e a prosperidade do nosso amado Portugal!
    Viva o 25 de Abril, pá!

    1. “Que o 25 de Abril seja o pretexto para unir esquerda e direita numa utopia das possibilidades, num país onde cada um possa cantar “Grândola, Vila Morena” ou “O Fado do 31”.
      ————— E já agora, acrescento eu,que se possa (não faltam voluntários a ver pela última semana) mostrar o rabo aos “donos da democracia”, seja no Rato ou mesmo em S.bento.

  10. o que me faz mais impressão é perceber que entre os comentadeiros profissionais e amadores a coisa se joga entre ditaduras e democracia partidária nos moldes actuais, parecendo que não há nenhuma alternativa entre as duas
    . eu não quero viver em ditadura , mas também não quero viver nesta “democracia” em que os resultados da governação não resultam em nada de melhor para mim , antes pelo contrário. o que eu gostava era que pusessem a cabecinha a pensar como dificultar o acesso ao poder em democracia ( não , muitos de vocês não servem para governantes , parem de sonhar com isso ) e como castigar fortemente a má governação dos incapazes que se chegam à frente.
    é surreal um sistema em que qualquer um , mesmo idiota, pode chegar ao poder desde que ganhe eleições. é tão anti natura como o comunismo..é uma ideologia fracassada , continua de pé , apesar de moribunda, apenas porque a ideia de alcançar poder é cara ao sexo masculino.
    a política hoje faz-me lembrar uma performance “artística” de gente sem talento nem génio,. ou os milhares de não escritores publicados e vendidos como literatura , uma verdadeira ofensa aos talentosos.

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