
Hoje Lemos: Raymond Chandler – O Longo Adeus
Philip Marlowe: “Álcool é como o amor. O primeiro beijo é mágico, o segundo é íntimo, o terceiro, mera rotina. Depois disso, despe-se a rapariga.”
Passagem L-azulada. Alvitre de relações pré-conjugais. Deveria ler-se “olharam-se tímidos e após um breve beijo na face, caminharam lado a lado, com um sorriso ladino nos lábios, de cabeça baixa a contemplarem a própria sombra. Acabaram por sentar-se na penumbra de um cafezinho triste, onde tomaram um galão pingado (porque o café é quase tão estimulante e tóxico como o álcool) e comeram meio papo seco com manteiga cada um.” Muito seco, cogitou Marlowe. Deve ser de cedo da manhã, ou de ontem talvez, que a vida não está para deitar as sobras fora, ou fora apenas desapontante por Marlowe ser grande apreciador de vianinhas.
(Imagens Google)

Do primeiro beijo até à pata na poça é um passo apressado.
É como o comer e o coçar…
Ora dá cá um e a seguir dá outro
Depois dá mais um que só dois é pouco
Ai eu gosto tanto e é tão docinho
E no entretanto dá mais um beijinho …
Agatha já foi ao capador; este também vai
não há policial sem sexo, amor livre e álcool
Claro que há! E se não há devia haver. É para isso que serve o lápis, para defender a literatura das vergonhas ao léu.
Já não leio há uns tempos, mas ficou-me a impressão de que, entre pancadaria de deixar o recipiente em coma, e quantidades de álcool idem aspas, o camarada Chandler poderia estar a exagerar um pouco.
Talvez o efeito curativo do tabaco amenizasse a coisa.
Os livros são muito fiéis a realidade daquela altura, em termos de violência e valentes bebedeiras. Gosto muito de romances policiais. Creio que devo ter lido talvez uns mil? Chandler dá um tom pesado ao enredo mas é um mestre.
O Falcão de Malta – li em inglês original – foi uma decepção.
Também li. Lê-se bem, se o ler antes deste e do the Big Sleep que também li em inglês faz muito tempo.
Decepção relacionado com as expectativas e também a parte histórica. Pensava que fosse muito melhor mas é uma história simples que não chega aos calcanhares sequer das histórias simples de um inspector Maigret.
É diferente, luck, muito diferente. Eu sou fraca juíza dos livros de Simenon, que são os meus favoritos. Não houve um livro de Maigret que eu tenha lido que me tenha desapontado. Talvez porque aprecie mais o raciocínio à força. E depois quem é que não se identifica com Paris? Sabia que ha(via) uma Brasserie Deauphine?
Outro autor que me ” conforta” bastante é Rex Stout. Pelos mesmos motivos num contexto completamente diferente.
Hoje, assim de repente, fez-se luz
e descobri o que me andava a incomodar. É que o Falcão de Malta não é do Raymond Chandler, mas sim do Dashiel Hammet! Não o torna seguramente um livro melhor, se ficou desapontado com a leitura, mas o autor é outro, dentro do mesmo género de literatura policial.