Cinema e literatura


Pedro Correia,

 

Muito do que penso sobre as relações entre o cinema e a literatura vêm expressas em três parágrafos de um livro que li recentemente: Um Filme é um Filme, de José Lino Grünewald, que se celebrizou nos anos 60 como um dos melhores críticos de cinema do Brasil.

O que diz ele? Passo a citar, com a devida vénia:

 

“Muitos não-autores são capazes até de realizar obras-primas do cinema ou, pelo menos, de superar muitos autores numa comparação filme a filme. É só conferir. George Sidney (não-autor) tem uma obra mais rica do que a de Roberto Rossellini (autor). Mas, entre a distância da imaginação para a caneta ou máquina de escrever e a distância da imaginação para o celulóide filmado e montado, há uma outra distância extraordinariamente enorme e heterogéna. E o nome do artista ou do director (ou autor, se ainda valer a pena) funda-se mediante o instrumento da sua linguagem. Caso contrário, Bergman e Fellini seriam romancistas, não cineastas. Desde as ferramentas mais toscas, com as quais o homem das cavernas foi-se apropriando do mundo, até ao cineasta da era electrónica, a linguagem traduz essa permeação e experiência com o instrumento. É este um elemento essencial para inaugurar os conteúdos. Se não fosse desse modo, seria impossível ver na tela, como habitualmente o vemos, o Mickey Spillane (O Beijo da Morte) de Robert Aldrich superar o Dostoievsky (Os Irmãos Karamazov) de Richard Brooks. Ou o Rafael Sabatini (Scaramouche) de George Sidney ou (Capitão Blood) de Michael Curtiz dar uma aula de ritmo no pesadíssimo D. Quixote soviético. Os Irmãos Karamazov e D. Quixote são clássicos da literatura, não do cinema. Já Maytime e Vertigo são clássicos do cinema, jamais da literatura."

6 comentários em “Cinema e literatura”

  1. Compreendo-lhe perfeitamente. Primeiro aprendi a fazer reportagens, depois achei que fosse fácil escrever romances. Parecia fácil, mas não foi e desisti. Um dia me inscrevi num curso para roteiristas e de lá prá cá não parei mais.E eu gosto tanto que nem preciso que sejam filmados. Ontem mesmo um amigo e diretor me chamou para reescrever uma cena para ele. Em menos de 20 minutos lá estava a cena 07 novinha em folha. Sou constantemente consultada para “ajustar” roteiros alheios. Quando percebo já estou dentro do filme, sem ter saído do papel.E nessas horas não vejo o tempo passar, não sinto, fome, sono e nem sede. Muitas pessoas pedem que eu escreva um livro e quando respondo que não tenho capacidade para tanto, ficam achando que é má vontade.Eu juro que não é!

      1. Sim, só que bem mais pessoal que este aqui. É como um diário daqueles que as meninas faziam no ginásio, hora mais triste, hora mais alegre, hora mais profundo, hora mais superficial, mas de qualquer forma é um blog: http://cartadetarot.blogspot.com
        E pode me visitar que as portas da casa estão sempre abertas!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *