Aprendemos?


José Meireles Graça,

Conheci ao longo da vida alguns médicos estúpidos e alguns médicos inteligentes.

Os primeiros conheciam as regras da arte e daí deduziam que não há doentes, apenas doenças, e os segundos conheciam as regras da arte mas achavam que, por os doentes serem pessoas, cada caso era um caso; os primeiros não faziam diagnósticos sem recurso a uma bateria de meios auxiliares de diagnóstico e os segundos avaliavam o custo/benefício de tais exames e, se não houvesse risco de doença potencialmente séria, diagnosticavam com base na experiência; os primeiros fingiam ouvir e os segundos ouviam. Não há abissal diferença nos ganhos que uns e outros percebem porque o médico, hoje, é sobretudo um funcionário público ou privado que está num hospital ou num centro de saúde (há diferenças no preço que o cliente paga consoante o SNS está ou não envolvido – um outro assunto), nem aliás a diferença entre o bom e o mau médico é sempre facilmente perceptível para o doente.

A pandemia covidesca veio baralhar este suave arranjo porque as regras da arte pertenciam a umas diminutas capelas da igreja da medicina, que eram as dos epidemiologistas e virologistas, e estes, infelizmente, emitiram sinais contraditórios, ainda que no geral encantados com a sua súbita importância. Os médicos estúpidos e inteligentes compraram o conto da tragédia porque, coitados, do assunto pouco entendiam mais do que os comuns mortais, mas, ao contrário destes, podiam reclamar-se da “ciência” dura que a medicina não é, em que pese recorrer crescentemente, para progredir, a várias disciplinas científicas. 

Das divergências a opinião pública praticamente não tomou conhecimento porque desvalorizar dramas não é exactamente do interesse da comunicação social, nas fases iniciais o vírus chinês parecia realmente ameaçador e rapidamente o pânico se instalou, ao qual os poderes públicos, em democracia, responderam com um variável (segundo os países) catálogo de regras e interditos, atropelando leis e direitos como num estado de guerra, e, em ditaduras, com o mesmo sortido de medidas mas aplicadas radicalmente e sem tergiversações.

A desvalorização não era do interesse da comunicação social nem da magistratura de opinião. A qual abraçou com entusiasmo a causa do “combate”, que tinha a interessante virtude de obliterar parcialmente a diferença entre direita e esquerda e o incentivo de classificar de transviados e “chalupas” aqueles raros cidadãos que tentaram ver no meio do nevoeiro, não aderindo ao estouro da boiada. O que dá sempre um grande conforto às maiorias que acreditam em tontices.

Tontices eram, como agora lentamente se vai sabendo, com estudos que têm a vantagem de disporem de dados acumulados e sem a pressão da histeria que rotulou de “negacionistas” todos os que não compraram acefalamente o discurso situacionista. Daqueles recolho este, que o New York Times divulga, destacando da entrevista que o principal responsável concedeu:

“What about the utility of masks in conjunction with other preventive measures, such as hand hygiene, physical distancing or air filtration?

There’s no evidence that many of these things make any difference.”

Agora a doença vive, como muitas outras, entre nós, causando as vítimas que muitas doenças causam, sem particular comoção. Sobre as quais vítimas há aliás um pesado silêncio porque ninguém quer lembrar a velha que em Guimarães foi enxotada arrogantemente para casa pela polícia, ou o tipo incomodado por estar a comer na rua, ou a praia que um autarca demente mandou desinfectar e as cidades que colegas seus isolaram, ou os infectados que a “autoridade” de saúde resolveu prender em casa ou em hotéis, ou as empresas que faliram por não terem resistido à quebra de negócios, ou os miúdos que perderam um tempo de aprendizagem que jamais recuperarão, ou os que morreram sós porque eram pestíferos, ou toda a casta de abusos e atropelos em que a Constituição foi suspensa, o seu principal garante se acoitou em casa tolhido de medo e os responsáveis se passearam mascarados de cirurgiões, para dar o exemplo, aliás entusiasticamente seguido.

Acaso os tribunais, chamados algumas vezes a intervir, se tivessem para aplicar uma Constituição castrada no elenco dos direitos cidadãos contra o poder (que são os que definem axiologicamente o Estado de Direito) teriam servido para alguma coisa? É que o risco daquela amputação, que ao que parece tanto o PS como o PSD subscrevem em sede de revisão constitucional, pode bem ficar como a principal sequela da doença. A classe política, esquecemos, tende a comportar-se como uma burocracia, e esta jamais deixa que uma crise seja desaproveitada para efeito do reforço dos seus poderes.

E então, aprendemos alguma coisa para a próxima crise? Gostava de acreditar que sim, e que o manto de silêncio é fruto do cansaço e da vontade de esquecer – os erros, as conivências, o maria-vai-com-as-outras, os abusos, a invocação escandalosa, ao princípio, do suposto exemplo das medidas que a China tomou (estes ouvidos que o fogo há-de consumir ouviram a um daqueles magistrados recomendar a aplicação stayawaycovid inspirando-se no exemplo da China, a mesma China que mais tarde viria a execrar por ter escaqueirado a sua economia com o seu radicalismo acéfalo e ditatorial), as mortes por falta de assistência, consequência da mobilização exclusiva do SNS contra o monstro, e um longo rosário de efeitos perversos dos quais ainda não recuperamos definitivamente e que permanecem insuficientemente medidos.

Culpados não há porque quando são quase todos ninguém é. Mas do asneirol generalizado deveríamos retirar algumas conclusões: i) É sadio desconfiar das autoridades políticas porque estas ou querem reforçar os seus poderes, ou satisfazer interesses, e tendem a seguir a opinião pública que lhes garanta popularidade; ii) É imprudente dar poderes a funcionários porque o mundo deles resulta da especialização que calha os seus serviços terem, que confundem com o interesse geral; iii) Não se pode confiar na comunicação social porque tende a amplificar desastres e sufocar a serenidade e com frequência defende interesses opacos por razões de financiamento e sobrevivência, a mesma cuja necessidade tolhe jornalistas funcionalizados e aliás com frequência analfabetos; iv) Não se pode confiar nos formadores de opinião se estiverem a fazer tirocínio para carreiras políticas, defenderem amigos, forem economistas ou, já agora, em qualquer outro caso; v) Convém adoptar pontos de vista consultando fontes contraditórias e partindo sempre do princípio que a nossa cabeça é melhor do que a dos entendidos, mesmo que não seja; e vi) Quem defende o cidadão é a Constituição e os tribunais, e não é menos assim por aquela ser prolixa e programática de esquerda e estes lentos e ineficientes.

Da próxima vaga histérica vamos reagir com mais fleuma? E aprendemos alguma coisa? Quem souber que responda.

22 comentários em “Aprendemos?”

  1. Só agora?
    Mas que raio de conhecimento é que é preciso ter para saber que um pano a tapar a respiração, ao fim de umas horas fica cheio de bactérias, fungos e vírus?
    O aumento de casos do vírus sincicial é por causa de quê? Santa ignorância…
    E no caso das vacinas é exactamente o mesmo. Desde a falta de transparência do processo à falácia das reacções adversas. Ora dizem os entendidos que há 39 mil reacções adversas para 28 milhões de doses. Palavras para quê, só mesmo para totós.
    Mesmo assim, apesar dos atropelos, parece que PS e PSD ainda não estão contentes e querem o internamento compulsivo.
    Será que aprendemos alguma coisa?
    Aprendemos, a estupidez é altamente contagiosa.

  2. Correcto. Quanto ao ponto v). Consultando fontes cplenamente acessíveis.
    Em fins de 2019 já se sabia: um vírus mortal, artificial, gerado para ser mais activo, transmissível e poderoso escapa do Laboratório (deliberadamente ou não?). Na comunidade médica do Laboratório (alta segurança) de Wuhan, nos escalões executivos do PC chinês e nos círculos do indescritível Dr. Fauci. Está comprovado, era conhecimento comum.
    Bem nos inícios de 2020 o PR Trump dos EUA, bem informado, proíbe (tardiamente) os voos provenients da China. O Senador Biden insurje-se e declara o PR “racista”. Entretanto em direção a Milão continuam os voos carregados de turistas chineses. Itália (Europa) foi o início do surto pandémico. Isto eram dados de domínio público em Fevereiro de 2020.
    Depois Fauci o “dono da ciência” palavras suas, e a “big farma”, tomaram conta da oportunidade, da ocasião.

  3. Excelente post!
    Repare-se bem no que o especialista disse: não há quaisquer dados que comprovem que medidas como a utilização de máscaras, a lavagem de mãos, ou o distanciamento social tenham tido influência na evolução da pandemia.
    Ou seja: tomámos medidas com base apenas em presunções, ou teorias, sobre como a pandemia evolui(ri)a, mas sem quaisquer dados experimentais, práticos, que comprovassem a eficácia dessas medidas.

  4. Vai ser pior. A construção da Democracia Totalitária está de vento em poupa. Por cá as empresas de comunicações, água e fornecimento de energia estão ser obrigadas a fazer parte da PIDE contemporânea.

    Quando aos jornalistas não aprenderam nada. Mas quem é que vai para jornalismo para fazer jornalismo…. 1% de quem sai dos cursos de jornalismo?
    Vão apoiar a propaganda que os governos disseram e fizerem desde que sejam dar cor deles, e ser contra se não forem. Quando têm dúvidas erram sempre para o lado de mais Estado como se vê no caso da revisão Constitucional para a opressão ser ainda mais fácil quando vier o COVID 25…

  5. Deve ser um problema meu, pois conheci juízes com taras e que por graça nunca precisei. Assim como alguns médicos que branqueiam a sabedoria do paciente.
    Tudo vive e depende do sistema, uns e outros.
    Sempre houve epidemias e noutros tempos nem havia medicamentos.
    Os surtos começam forte e vão desvanecendo. Assim aconteceu com o Covid.
    Era um massacre ouvir 24 horas os mesmos as patetices sem contraditórios. Bom para laboratórios.
    Não nego Covid pq nós cá em casa tivemos. Nada de vacinas. Quase fomos impedidos de tudo sem vacinação. Os maus eram os não doentes! Ridiculo!

    1. Sempre houve epidemias e noutros tempos nem havia medicamentos.
      Os surtos começam forte e vão desvanecendo. Assim aconteceu com o Covid.

      Exatamente. Por um lado as pessoas vão adquirindo imunidade, por outro lado os vírus vão-se tornando menos patogénicos. É essa a evolução natural de qualquer epidemia.

      Não nego Covid pq nós cá em casa tivemos. Nada de vacinas.

      Exatamente, nagar o covid é um disparate, montes de pessoas o tiveram, e algumas ficaram muito mal, outras até morreram. Mesmo pessoas vacinadas tiveram, e algumas ficaram bastante mal.

      Os maus eram os não doentes!

      Exatamente. Nesta epidemia, em vez de se dizer que as pessoas que adoeceram tinham um sistema imunitário mais fraco, e que portanto, basicamente, a culpa de terem adoecido era delas, foi-se atirar com as culpas para cima dos que permaneceram sãos. Um disparate total.

  6. Um enorme conjunto de lugares comuns para dizer que não sabemos muito bem lidar com a Covid e, por essa razão, fizeram-se erros.
    A gaita é que apontar erros aos outros é fácil. O difícil é dizer qual o procedimento certo na altura em que as coisas acontencem.
    Ao contrário do que pensa, as pessoas foram pela sua própria cabeça, fizeram o que acharam melhor e houve bastante consenso quanto a isso. Se o que acharam melhor era mau, já é outra conversa, mas adivinhar é proibido, e prognósticos no fim do jogo são sempre muito mais fáceis.
    É chato mas em sociedade vive-se de consensos.

    1. Para quem acusa os outros de lugares comuns olhe que não lhes fica nada atrás, muito pelo contrário, trouxe aqui um conjunto de banalidades raro de encontrar, não lhe deve ter sido nada fácil escrever tanto e dizer tão pouco.
      Os meus parabéns, belo esforço!

    2. Ao contrário do que pensa, as pessoas foram pela sua própria cabeça, fizeram o que acharam melhor

      Não, não e não! Algumas pessoas, de facto, fizeram aquilo que achavam melhor. Mas muitas outras pessoas, como eu, foram obrigadas a fazer aquilo que não achavam melhor.

      É aqui que bate o ponto. Nada há de mal em algumas pessoas lavarem maniacamente as mãos ou fazerem pão em casa – cada maluco faz o que lhe apetece. Mas há tudo de mal em obrigar-se as pessoas a fazerem maluqueiras, com base somente em teorias – e não em factos.

  7. Excelente resumo da loucura colectiva que vivemos. E da ciência que afinal mais não era que crendice e totalitarismo que insuflaram os egos dos nossos politicos e especialistas de tv também conhecidos por paineleiros.O resultado está à vista em todo o mundo : excesso de mortalidade face a anos anteriores à pandemia. Só pode ser do aquecimento global, perdão, das alterações climáticas, perdão da emergência climática.

  8. > E então, aprendemos alguma coisa para a próxima crise?

    Que leis e constituições não valem mais do que umas folhas de papel higiénico, se os cães ladrarem suficientemente alto.

  9. A pseudo-pandemia serviu para mostrar o quão fraca é a capacidade que a grande generalidade das pessoas tem de pensar por si próprias. É incrível como ainda se vê pessoas hoje, sozinhas nos seus carros, com a máscara colocada. Como eu costumo dizer, andar de máscara sozinho num carro é como usar um preservativo num acto de auto-satisfação.
    Serviu também para mostrar que é muito fácil sufocar a constituição, atropelá-la, e ainda receber palminhas da mole idiota e manipulada.

    1. Muito antes da pandemia (pseudo? as mortes foram de quê?) já havia muitos automobilistas que usavam uma máscara por causa da poluição do trânsito.

  10. Subscrevo. Muito bem. Não se aprendeu nada porque a mensagem é que a “luta contra a pandemia foi um sucesso”, ou, nas palavras de Manuel Pizarro, “vencemos”. Assim, a receita está passada. Mais, na próxima vez, e haverá próxima vez, será pior, pois os mecanismos estão definidos e reforçados, incluindo a reforçada ingerência da OMS nas políticas nacionais através do ‘tratado pandémico’, uma instituição liderada por burocratas sob influência chinesa e financiada pelo americanos. E a vontade de revisão constitucional pelos nossos queridos líderes, legitimando os atropelos passados e futuros, sugere isto mesmo.
    Discordo apenas de “culpados não há porque quando são quase todos ninguém é”. Há culpados, e não são poucos só em Portugal. Desde políticos, autoridades de saúde, “especialistas” e claro, nada disto seria possível sem a fiel máquina de propaganda, os media. Todos mentiram, manipularam, chantagearam, abusaram, agrediram, silenciaram, denegriram. Há portanto vários culpados, e o pior erro é esquecermos isso.

  11. Como de costume, adorei ler a crónica. As respostas às perguntas finais dependem de Marcelo ainda estar ou não na presidência.

      1. Nessa não acredito porque nem a esquerda conseguiria unir. Mas, e na minha opinião pior, seria Augusto Santos Silva. E, dados os anticorpos mediáticos, esse poderia bater Portas ou Passos Coelho.
        Vou observando de muito longe, mas ainda admito a hipótese dos aventais estarem a pensar no almirante das seringas, que poderia, talvez, ser aceite pelo PS e pelo PSD.

  12. Honestamente creio que não aprendemos nada até porque há muita gente interessada em que nada se aprenda dado que, como bem referiu, sai a ganhar no meio de todo o caos gerado nestas situações.

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