
José António Abreu: «Numa sociedade em que as pessoas, parecendo comunicar cada vez mais, se encontram cada vez mais fechadas em si mesmas, numa sociedade onde a cada dia se renova o paradoxo de que a exposição dos detalhes mais íntimos não equivale a exorcizar os medos nem as inseguranças, antes a renová-los e fortalecê-los, numa sociedade de interesses e frieza, à qual a crise económica veio acrescentar ainda mais dúvidas e temores, os outros humanos não inspiram confiança. Podem ter segundas intenções. Podem – e certamente irão – mudar. Os animais, não – ou não com maldade. A maldade é exclusivamente humana.»
Patrícia Reis: «Pensamos que podemos explicar aos mais novos que a responsabilidade do que se faz e do que se diz tem consequências e que gozar e repetir anedotas sobre o papa, este ou outro, é lamentável, é uma falta de respeito. Sim, a Igreja tem defeitos. É feita por homens. Os portugueses têm tendência para arranjar logo meia dúzia de graças e a coisa passa, até ao próximo jogo de futebol.»
Teresa Ribeiro: «Pasmado, o país assistiu outra vez às enchentes que lhe invadiram as ruas nos idos de 70. As mesmas palavras de ordem : “O povo, unido…”, as mesmas músicas: “Aprende a nadar companheiro…” Um anacronismo inusitado. Houvesse mais barbas e patilhas compridas e seria como uma viagem no tempo, inquietante como tudo o que parece contra-natura. Seria? Não. A ilusão só funcionou em plano aberto. Vistos de perto os manifestantes de ontem eram o reverso dos que desfilaram no passado. Sem esperança e com medo do futuro, exactamente nos antípodas dos outros que os precederam. Mesmo os novos, mais velhos que os velhos que há quase quarenta anos tropeçavam, cheios de adrenalina, na letra da Grândola Vila Morena.»
