DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Gui Abreu de Lima: «Aqui, da Lisboa onde me encontro, que em sorte me calhou este romântico Chiado e uma rua que acaba em rio azul – que meu braço atirado à janela lhe sente a aragem e os olhos míopes me enervam, que não distinguem o que vai nos azulejos que meu vizinho da frente exibe desde o tempo da senhora D. Maria II – sinto-me muda de palavras, essas mesmas que respeito não conhecem, se esgatanham todo o tempo cá por dentro e chegam quando bem lhes apetece. Tenho quilómetros delas e tantas vezes duvidei que fossem minhas. Impossíveis de tanta força. Densas como nunca fui, leves como horas bem passadas. Gozam que nem perdidas, como se fossem donas de todas as avenidas.»

 

José António Abreu: «Quando surgem notícias sobre mulheres violadas penso quase sempre nesta canção de Tori Amos (Me and a Gun, do álbum Little Earthquakes, lançado em 1992) e, mais especificamente, nesta actuação em Montreaux. É raro mas desta vez pude pensar nela por um bom motivo: o post da Ana Vidal sobre a evolução da Lei em Marrocos.»

 

Tiago Cabral: «Com este texto voltei aos meus verões. Verões passados na aldeia dos meus avós, Alcafozes, na Beira Baixa. Verões quentes e secos. Temperaturas escaldantes que hoje me custam aguentar, mas que à época o corpo franzino de um primário adolescente aguentava sem sequer reparar no calor. Os finais de tarde em que a minha avó, a única que me sobra nestes dias, regava o largo defronte da casa, o cheiro a terra molhada que só consigo associar a Alcafozes, esse cheiro intenso que absorvo cada vez que o sinto que me transporta anos e anos atrás, às memórias dos verões.»

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