As demissões no poder


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A bica da manhã com amigo, ele décadas de empresário (“empreendedor”, diz-se agora) do turismo – o que não é sinónimo de “industrial” da hotelaria e “restauração” (mais termos em voga, que sublinho nas aspas não vão os leitores pensar que me actualizei no papaguear). E se eu sou dos que em relação ao (governo) PS dizem “mata” ele é mesmo daqueles que logo clamam “esfola”! E assim o assunto – até porque ele não é de futebóis – que logo brota é este esboroar do governo e adjacentes, escandaleiras, demissões, acusações, bifidismos presidenciais, condenações, imprecações e até prisões.

Ora eu hoje acordei a modos que andrógino, qual Schiele, e até me venho sentindo assim. E resmungo o que senti na alvorada ao ler da demissão do assessor do primeiro-ministro, condenado em tribunal. Nunca ouvira falar do agora convicto Magalhães Ribeiro e nada simpatizo com o perfil, um socialista ex-presidente da câmara (Cartaxo) apeado em eleições e repescado para os gabinetes de São Bento. Parece figura típica… E do caso só conheço o que é dito nos jornais – deve ser uma peça da LUSA, por todos reproduzida. Mas se isso é o cerne da questão, caramba!… Ao que parece o homem, então ainda autarca, escreveu (ou um assessor dele) na página camarária no Facebook que reunira com a ministra da Saúde (a inefável Temido, a “super-Marta” para os socialistas) em plena pandemia. E que esta lhe prometera instalar uma qualquer infraestrutura sanitária no concelho… E agora condenam-no em tribunal por “más práticas” propagandísticas, pois aquilo coincidiu com um tal de “período pré-eleitoral”. Mas bem se sabe que o uso dos meios de comunicação municipais para engrandecimento próprio e dos seus partidos é uma tradição – quando regressei a Portugal escrevi aqui do meu espanto, até enjoado, com esse tipo de desplante caciquista que encontrei na minha freguesia Olivais. E muito mais e até pior vi depois, nos Olivais e na rede de freguesias de Lisboa. Ainda assim a sentença deste caso no Cartaxo parece-me um abuso, um exagero. Não só devido a essa tradição comunicacional nas autarquias mas também ao seu conteúdo específico. Ou seja, ou isto se trata de uma cena tipo “evasão fiscal do Al Capone”, apanhar um gabiru pelo único rabo de palha que tem – o que me parece ser muito rebuscado – ou então é um exagero judicial.

Por outras palavras, será um caso de “justicialismo” (eu sei, o termo tem outro significado mas vem sendo hábito usá-lo assim, e tenho de me actualizar, como acima deixei implícito), um tribunal a proferir uma sentença “exemplar”. E não sendo eu lido em ciências jurídicas nem na filosofia do direito tenho a vaga impressão de que não há pior do que “castigos exemplares”. E assim cada caso terá circunstâncias atenuantes e/ou agravantes. Mas não deve ser “exemplar”, qual lição aos “vulgares”, os da sociedade, proferida na vara do senhor doutor juiz. E se assim surgir torna-se um abuso… E é isto que me parece o affaire Cartaxo, concluía eu, já em mudas ânsias de uma segunda bica e, até, da partilha de um dos saborosíssimos jesuítas da casa.

Enfim, perorava eu a minha tendencial simpatia para com o socialista em causa esperando uma reacção abrupta do meu amigo, o tal “esfola” dedicado a este triste estado da república. Quando avança ele, impaciente até me querendo interromper a prosápia. Dizendo-me que pior ainda, por assim dizer, é o caso da antiga secretária de Estado do Turismo, Rita Marques. Afiançando-me que a senhora foi – e que é esse o sentimento daquele sector económico – uma boa governante: vinda de outra área, apanhando o Covid-19 e o colapso da actividade, percebendo bem a situação, promovendo de modo eficaz os possíveis apoios, não aparentando ter vieses favorecedores (“um gajo nunca sabe, mas não pareceu nada…”, é a expressão canónica). Enfim, foi alguém competente, ágil, empenhado. Terá sido uma surpresa a sua não recondução, foi homenageada pelos agentes. E o mais normal é que tenha sido contratada – e até terá havido concorrência nisso – para trabalhar no sector… “Será, mas é ilegal“, ripostei eu, azedo dado que o jesuíta afinal não tinha sido encomendado. “Sim, será“, responde-me, mas que quererei eu?, “a senhora não é política, é independente, vai deixar de trabalhar?…”

Entretanto já se fez tarde, temos de avançar ao nosso destino, seguimos ao Sado. Fartos deste poder mas ambos, talvez cândidos, sentindo que há por aí uma histeria, talvez até anseios necrófagos. Contestemos, claro – no mercado paguei um panito por 400 escudos e o padeiro logo me avisou que para a semana custará mais 30 – mas há que calibrar o tom…

4 comentários em “As demissões no poder”

  1. Dizer que não se vai da política para as empresas é dizer que não se vai das empresas para a política.
    Não seria mais fácil dizer que a transferência do Governo – ou da administração pública – para a empresa que recebeu benefícios directos implicava uma auditoria asseguradamente independente, sem o escarcéu mediático?
    Poderia mesmo determinar-se que a empresa contratante ficava obrigada a um qualquer adicional dever de transparència.

    1. O período de “nojo” é uma boa decisão, não serei eu a vir contestá-lo Mas no meio desta tralha toda levanta essa questão, de tornar estanque a articulação entre as elites profissionais e o exercício político, contribuindo para o triste estado em que este está. Algumas medidas paliativas – como as que refere – poderiam ser uma ajuda. Mas honestamente não sei que diga. Agora que este clamor em relação a estes dois casos – partilhado com o silêncio para com alguns pesos-pesados da política, ainda por cima – parece-me exagerado.

  2. E as Novas Arcadas foram outra vez ao ar… Parece que foram uns advogados representando um comprador de Visto Gold que precisava de um estabelecimento (aparentemente fechado) para ter acesso ao cobiçado visto. Agora que os bancos que destruíram cafés estão a ser revertidos em pastelarias só nos faltavam os vistos Gold para nos estragarem as pastelarias.

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