Rui Knopfli – I’m really the underground


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Em geral convém ser moderado nos elogios, pois em não o sendo quando apregoamos um qualquer apreço pouco impacto isso terá, resumido pelo fastio alheio num “lá está este…”. Mas ainda que assim seja apregoo agora que este documentário “Rui Knopfli – I’m really the underground” (realização de Ricardo Clara Couto, argumento de Nuno Costa Santos) – que acabo de ver na RTP2 – é muito bom, mesmo muito bom. Excelente! E não só pelo tom e encenação, apuradíssimos – e com protagonismo cénico dado a um rádio igual ao que herdei da minha avó materna e que vim a fazer transitar para um dos seus bisnetos, pormenor que me deliciou mas que é bem secundário neste meu encanto… Pois este vem, repito-me, da excelência e pertinência do documentário.

 

Eu gosto muito da poesia de Knopfli, talvez pelo seu classicismo (como ali resume Francisco José Viegas – um dos entrevistados, junto à filha e à neta do poeta, e a Pedro Mexia, Eugénio Lisboa, Vasco Rosa, João Francisco Vilhena e ao já mais-velho Luís Carlos Patraquim, todos com deveras interessantes contributos), nisso sem lânguidos meneios oitocentistas nem poses crípticas de formalismos (pós-)modernos, bem ritmada (“jazzística” dela diz Eugénio Lisboa) e sem a deriva das metacitações, onanismo poético que me é insuportável.. E porque, poeta de Moçambique, isento dos sempre habituais tons “curio”, essas “cores” ocres, esses linguajares “apoetizados” de “indigenismos” e, pior do que tudo, os malvados sentimentos “profundos” e “humanitários” tão ditos como “líricos”, que fazem as delícias dos leitores africanófilos e dos “tops” de literatura “lite” premiável… E, ainda por cima, sem se conspurcar por gota que seja de “causas”.

 

E gosto, adoro, a inteligente pertinência que teve (“atropelado pela História”, muito bem dele diz Mexia), rara no seu mundo. Um dia usei-lhe um poema como epígrafe de um texto meu: “Feita de lavras / em pousio e esperança adiada / pertencemos todos a esta áfrica lusitana / que pelas outras se expandiria. Por estas / andámos perdidos, ignorando então / que a passagem obrigava ao regresso.”, poema em fim de vida – mas dolorosa presciência já presente no seu inaugural “O País dos Outros” de 1959 – em apenas seis versos explicando o XX português, esse dos “portugueses em transição” (como diz Lisboa) num “paraíso a prazo” (Patraquim) que tão poucos dos seu contemporâneos pressentiram, sentiram e compreenderam e que ainda alguns, não tão poucos assim, insistem em incompreender. E no dia em que me fiz vir embora de Moçambique, irremediável passo mal dado, exigindo-me sozinho no rumo para o aeroporto deixei dito, lembrando-o, “Não sou o Knopfli, o Kok já morreu [“Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon / e olha-me obliquamente nos olhos: Não voltas mais? Digo-lhe só que não”], escreveu o poeta narrando-se em Mavalane à saída,” quando indo-se da independência] – ele então expulso, partindo para um exílio perpétuo. E, como se viu e o sentiu ele, desabrigado, apesar do amparo pragmático que recebeu do país e do Estado.

 

Hoje à noite ao ver o belo documentário lembrei-me de quando Knopfli ressurgiu, no ano em que viria a morrer, com o terminal “O Monhé das Cobras”, naquela década em que tinha visitado Moçambique, sendo surpreendido pelo acolhimento de escritores e leitores – na época muito dinamizado pelos seus admiradores Nelson Saúte e Francisco Noa, já então intelectuais centrais no país. O regresso em livro do “velho” poeta era marcante – e porque me deu para isso encomendei algumas dezenas (5? 10?) de exemplares, que era o que podia, para distribuir pelas bibliotecas e leitores do país. Decerto que terão sido lidos, justifico-me… E lembro também a excitação tida, coisa de um ano depois, aquando da publicação por António Sopa da pequena pérola bífida, a colecção de crónicas de José Craveirinha e Rui Knopfli chamada “”Contacto e outras Crónicas” (Craveirinha) + “A Seca e outros textos” (Knopfli), textos ditos “menores” mas riquíssimos…

 

Mas isso são memórias minhas, o relevante agora é ver o documentário. E o melhor é perceber que este não se fica (como temi) no Knopfli de Inhambane a Lourenço Marques, como é costume nas (ainda assim algo raras) invocações do poeta. Pois se ele veio a dizer que “daí nunca mais saí” o filme percorre um pouco do seu “exílio” londrino, o seu descabimento alhures. Ficou apenas por remexer aquele “Ilha de Próspero”, sempre incensado mas que é, de facto, a grande fronteira do poeta, apesar de tudo homem do seu tempo – pois o macuti, a “Ilha” mesmo, onde vive quem de lá é e quem para lá vai, era-lhe externo, foi-lhe impenetrável, e é isso coisa que os dos estudos “culturais” e “literários” nunca conseguem perceber… Mas não seja por isso, pois o filme é mesmo (bi-repito-o) muito bom. E porque termina com este seu magnífico “Cântico Negro” – ensinem-no aos jovens, nas escolas e universidades, desempreguem os sacristãos de pacotilha que para aqui andam:

 

Cago na juventude e na contestação

e também me cago em Jean-Luc Godard.

Minha alma é um gabinete secreto

e murado à prova de som

e de Mao-Tsé-Tung. Pelas paredes

nem uma só gravura de Lichtenstein

ou Warhol. Nas prateleiras

entre livros bafientos e descoloridos

não encontrareis decerto os nomes

de Marcuse e Cohn-Bendit. Nebulosos

volumes de qualquer filósofo

maldito, vários poetas graves

e solenes, recrutados entre chineses

do período T´ang, isabelinos,

arcaicos, renascentistas, protonotários

– esses abundam. De pop apenas

o saltar da rolha na garrafa

de verdasco. Porque eu teimo,

recuso e não alinho. Sou só.

Não parcialmente, mas rigorosamente

Só, anomalia desértica em plena leiva.

Não entro na forma, não acerto o passo,

não submeto a dureza agreste do que escrevo

ao sabor da maioria. Prefiro as minorias.

De alguns. De poucos. De um só se necessário

for. Tenho esperança porém; um dia

compreendereis o significado profundo da minha

originalidade: I am really the Underground.

5 comentários em “Rui Knopfli – I’m really the underground”

  1. Só hoje li este texto. Tinha-me escapado.
    Agora vou à procura do documentário, que espero seja tão bom quanto o texto, tanto mais que o Rui Knopfli, fazendo parte das de lá de casa, é hoje um pedaço das minhas memórias.

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