Confere


José Meireles Graça,

Como de costume, recebi esta indignidade na minha caixa de e-mail:

Caro(a) Contribuinte

Fulano

NIF: Xis 

Habilite-se aos sorteios Fatura da Sorte 

Peça para colocar o seu número de contribuinte (NIF) em todas as faturas. 

Consulte os seus cupões no Portal das Finanças em e-Fatura/Fatura da Sorte. 

Sorteio extraordinário 

Dia 29 de dezembro, vai realizar-se o segundo sorteio extraordinário “Fatura da Sorte” de 2022. 

Prémios 

Serão sorteados três prémios no valor de 50.000 € cada, o habitual prémio do sorteio regular semanal, no valor de 35.000 € e um prémio não reclamado, no valor de 35.000 €.

Os prémios são constituídos por “Certificados do Tesouro da emissão em curso”.

Simplifique, utilize o Portal das Finanças. 

Com os melhores cumprimentos,

Autoridade Tributária e Aduaneira 

Quem redige o esterco não o assina, o que já é um abuso: Qualquer funcionário, quando se dirige a um cidadão, deve estar identificado. Era o que mais faltava se um agente da PSP informasse que o seu nome era “PSP”, o que tanto dava para Paulo Soares Pereira como Pedro Silva Pereira ou qualquer outra combinação. E não ocorre a ninguém que os decretos passem a ser assinados pelo “Governo” ou as sentenças por “juiz de tal comarca”. 

Depois, a ideia de que o cumprimento das obrigações legais deve ser premiado por sorteio cria uma intolerável desigualdade: Dos pagamentos feitos pelos cumpridores é retirada uma parte, infinitésima embora, para outros que só se distinguem pelo bambúrrio do azar. O Estado não é um casino, entendes, Autoridade? 

Ao abrigo deste repugnante expediente que, recorde-se, foi inventado pelo lamentável SEAF Núncio, na época sorteando Audis, nada obsta a que a DGS faça o mesmo, de entre os cidadãos que têm os maiores cuidados com a sua saúde, e portanto não recorreram ao SNS, distribuindo certificados de aforro. E outro tanto se o Ministério da Administração Interna decidir premiar os cidadãos que nem uma multa de trânsito tiveram com um apito de ouro. E assim por diante. 

Caso curioso: o Governo que, desde sempre, mais reforçou o peso do Estado na economia, e portanto na sociedade (nunca, nas esquinas da vida, houve tanta regulamentação a respeitar) é o mesmo que rebaixa o mesmo Estado, pondo-o ao nível de um cauteleiro. 

Temos, na cultura, os concursos e a casa dos segredos; na política, o caso de corrupção da semana; nas universidades, a endogamia; na Saúde, o caos; no desenvolvimento, o aumento do atraso relativo; e no voto o PS. 

Confere.

5 comentários em “Confere”

  1. é sempre a mesma conversa, com os sorteios e muitas famílias recebem isto, e é tudo uma grande mentira, é para obrigar o Povinho a pedir faturas e que o processo dos negócios paralelos que atingem os 40%, imagino eu, para que possam controlar a máquina fiscal e alma do Português.

    Eu já nem ligo, são anos atrás de anos, com a mesma conversa de sempre.

    João Felgar

  2. Dos muitos adjectivos que, com propriedade, se qualifica o estado, acho que faltava este: cauteleiro.
    Está muito bem aplicado!

  3. Muito bem recordado o nome do ajudante de ministro que ficou ligado à criação deste processo degradante.
    Juntamente com Assunção Cristas conseguiu tornar imperceptível a diferença entre PS e CDS.

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