Catar, catariano ou catarense


Pedro Correia,

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Parece haver ainda dúvidas sobre a grafia no nosso idioma da palavra Catar, aludindo ao Estado anfitrião do Campeonato do Mundo de Futebol. O melhor é desfazê-las junto de quem sabe. Para o efeito, consultemos o Ciberdúvidas.

Catar – transliteração da fonética árabe – é topónimo já consagrado em dicionários e prontuários. Rejeitando-se a aberrante transliteração inglesa Qatar, «impossível à luz da tradição ortográfica portuguesa», como assinala o José Mário Costa. E muito bem: cada língua com a sua norma.

Convém acrescentar que os respectivos gentílicos podem ser catarianos ou catarenses. Qualquer das fórmulas é aceitável.

Alguns dirão que isto interessa pouco ou nada: o que importa é o desporto. A esses direi que nunca devemos desligar o desporto da cultura. E a quem argumentar que só os direitos humanos são tema relevante, responderei que a valorização da língua portuguesa, património da Humanidade, é igualmente um direito. Para nós, é um dever também.

30 comentários em “Catar, catariano ou catarense”

  1. Dêem-me na cabeça à vontade mas eu prefiro e uso Qatar. E não é submissão a “americanismos”, pelo menos a americanismos culturais, mas à clareza. Se eu escrever Qatar, até um estrangeiro entende do que falo e, se estiver interessado, pode traduzir o texto no “Google”.
    Catar, fica restrito aos portugueses e sujeito a confusão com simpáticas práticas simiescas. Depois Catar, ler-se-ia “Catár” e não “Cátár” que é o mais próximo da sonoridade árabe. Finalmente, se o purismo da língua for regra sem excepções, então teríamos de rejeitar os “k”, “w” e “y” e, no limite, poder-se-ia pensar que era uma referência a Joacine.

    1. “Qatar” é transliteração inglesa do topónimo árabe. Nada tem a ver com a tradição ortográfica portuguesa. Direi mesmo: é uma aberração.
      Mas, claro, pode escrever como entender.
      Até pode escrever Katar, agora que há a moda de usar o K por tudo e por nada – até como sucedâneo do Q, curiosamente. Ou pode abreviar: fica Qtr. Ou só Q, se sente tanta atracção por esta letra.

  2. Catar – transliteração da fonética árabe

    Muito bem. Porém, fui à wikipedia ouvir como se diz “kuwait” e ouvi, em tranasliteração portuguesa, “cueite”. Ora, no ciberdúvidas tal grafia não aparece… Pelo que, a transcrição fonética parece valer para o Catar, mas não para o Cueite…

  3. Brasil fora do Mundial do Qatar 2022.
    Pedro, os castelhanos, os catalães, os italianos e os franceses serão todos estúpidos?
    Todos eles (são línguas com ligações ao latim) utilizam Qatar como tradução do nome do país.
    Temos de ser sempre complicativos?
    Se me perguntares se concordei com o Beijing quando a imprensa portuguesa referia os Jogos Olímpicos em Pequim, não, não concordei.
    Mas esta questão do Qatar é um preciosismo é como querer que os americanos sejam obrigados a traduzir Los Angeles por The Angels e nós, claro, em português, temos de dizer Os Anjos sempre que nos referirmos à cidade americana.

    1. Podes adoptar a tua própria regra.
      Não deixa de estar errada por “achares” que isso é que está certo.
      Até podes escrever em zeinalbavês e não em português.
      Fica giro. Uma coisa em forma de assim, como dizia o Alexandre O’Neill.

  4. Sim, Catar é como se escreve em português.
    O topónimo árabe qatar, como em português a letra q está sempre acompanhada com o u, seria erradamente quatar. .
    Qatar árabe, traduzido para inglês não muda grafia, assim como para dinamarquês, finlandês, francês, italiano, luxemburgues, maltes, romeno e sueco. Catar só em portugues e irlandes. Katar escrevem nos restantes dezassete países da UE, incluindo os espanhóis.

  5. Não concordo com o Ciberdúvidas em parte porque aceitar “catar” como correcto vindica o AO — isso sim uma aberração que parte de premissas erradas e de uma normalização da ortografia como um agente passivo e não de um posicionamento da ortografia como norma pedagógica, que permite a adesão e o melhoramento intelectual das pessoas (e esse é o objectivo da cultura).

    Depois porque “ca” adoça a vogal enquanto que “qa” permite manter a vogal aberta.

    E já agora, vão-se todos catar.

      1. Porque “camões” é uma palavra grave e “catar” seria uma palavra aguda: a primeira sílaba perde força e assim não corresponde ao nome original “kátar”

        1. Camões é palavra aguda. Tal como Catar, pronuncie-se o primeiro A da forma como se pronunciar.
          Tanto é correcto pronunciarmos Catar com o primeiro A como vogal fechada ou semi-aberta. A tónica assentará sempre no segundo A.
          Não é o Q, inexistente na ortografia portuguesa neste formato, que lhe empresta conteúdo eufónico.
          Adoptarmos a transliteração inglesa com aberrações ortográficas é um absurdo.

          1. Camões não me parece nada aguda… mas ok. Não me choca nada usar o q como transliteração dos “k” árabes. Ninguém escreve al-caida ou al-queida. Parece-me relevante manter o q como factor distintivo dos fonemas de um grupo cultural. além disso, aportuguesar nomes estrangeiros nunca me parece muito bem, tirando Londres e coisas assim

          2. Se não quer aportuguesar nomes estrangeiros, não escreva Arábia Saudita, por exemplo. Nem Japão. Nem Noruega. Nem Dinamarca. Nem Polónia. Nem África do Sul. Nem Costa do Marfim…
            Aqui a questão não é aportuguesar ou deixar de aportuguesar. Se a intenção é manter o nome original, há que aprender a escrevê-lo em árabe. Para evitar esse incómodo, o melhor é recorrer à transliteração portuguesa, não à dos ianques.
            E a propósito de ianques: muito antes de eles saberem balbuciar o idioma actual deles, já o nosso era língua franca em várias regiões do mundo. Incluindo na própria Península Arábica. Era o que faltava virem agora esses mecos imporem como devemos escrever o nome de um país terceiro.

          3. Talvez. A questão dos nomes estrangeiros mereceria um estudo mais prolongado. Há muitas irregularidades e a mim parece-me que deve prevalecer a da “naturalidade” fonética, ie o predomínio da forma como dá jeito dizer ou escrever. Mas não sou especialistas. Infelizmente, também não podemos confiar nos especialistas, nem nas cider dúvidas nem nos priberans, porque em primeiro lugar estão informados de ideologia e de causas e, em segundo lugar, incluem linguistas brasileiros — o que obviamente deturpa tudo.

          4. Em casos como este, os brasileiros têm demonstrado ser mais defensores da norma portuguesa do que alguns portugueses. O que nem deve admirar-nos muito.
            Quanto aos topónimos, recomendo sempre a consulta a clássicos na matéria, com destaque para Rebelo Gonçalves e José Pedro Machado, cujas obras deviam estar sempre acessíveis a qualquer português pois integram o nosso património linguístico e cultural.

          5. Não conheço esses trabalhos. Obrigado pela sugestão.

            A questão dos brasileiros é uma questão de princípio — não é uma questão pessoal (eu até gosto de brasileiros e da cultura brasileira se exceptuarmos o Caetano Veloso) e não é uma questão de eles terem ou não boas opções neste campo. Simplesmente acho erradíssimo que a nossa ortografia seja influenciada pelo peso do número de falantes — é um argumento que não tem nada a ver connosco enquanto povo com uma língua própria e acho asqueroso que alguém considere que sim, que se deve impôr normas linguísticas sobre uma comunidade só porque há outra comunidade maior que fala uma coisa parecida. Até considero que o Português do Brasil se deveria chamar Brasileiro, coisa que até se reveste de particular relevância no mundo digital. Seria uma forma de as duas línguas se respeitarem mutuamente.

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