Deixo aos meus colegas de blogue, bem mais versados do que eu em matéria de política, a análise exaustiva da entrevista que deve ter registado as mais altas audiências da SIC (e de qualquer outro canal televisivo) nos últimos tempos. Quanto a mim, vi-a com outros olhos e ainda não me refiz do choque. Do choque de ter confirmado, definitivamente e sem sombra de dúvida, uma desconfiança que já me atormentava há algum tempo: estamos a ser governados por um alien. Não pode ser humano alguém que aguenta há tanto tempo o que Sócrates tem aguentado de acusações ao seu carácter (sobretudo se está inocente, como afirma) sem um tremor de voz, um franzir de sobrancelhas, um humedecimento de olhos, uma transpiração de mãos, sei lá… qualquer sinal de que "sente", além de pensar. À nossa frente não esteve apenas um animal feroz, esteve sobretudo uma criatura que não deprime nunca, que é totalmente impermeável a ataques, por mais graves que sejam, e de uma frieza e capacidade de resistência que fariam empalidecer de vergonha qualquer mártir cristão e transformar a Joana d’Arc num calimero. Por baixo do impecável fato escuro e da gravata monocórdica só pode haver um mutante, daqueles que parecem quase, quase humanos, não fora o chip que os comanda não incluir o ficheiro das emoções. Se lhe picarmos a pele com um alfinete, aposto que não sai nem um pingo de sangue. Diz exactamente o que está programado para dizer, sem espaço para o menor improviso ou jogo de cintura espontâneo. Se lhe sai uma pergunta fora do alinhamento, rebobina e recomeça do princípio, com toda a calma. É uma máquina imperturbável. Miguel Sousa Tavares, entusiasmado ao princípio por achar que lhe arrancaria uma qualquer reacção que traísse desconforto, tristeza ou hesitação, foi desistindo aos poucos até desanimar completamente, ao perceber que falava com um muro de cimento armado. Esta entrevista teve em mim um efeito revelador. Percebi finalmente, com enorme apreensão, qual é o grande trunfo de Sócrates: nada o demove porque nada o comove. E não sei o que se passa convosco, mas a mim preocupa e assusta saber que o país está entregue a uma espécie de robocop em versão Armani.

Brilhante. O teu texto, não o Robocop.
O Robocop é brilhantemente assustador.
Ana:
Subscrevo o comentário do Pedro. :))
Obrigada, Teresinha.
«robocop em versão Armani».
Fantástico! Adorei. Esta vai ficar-me na memória. Muuuuuuito bem visto!
P.S. Devo ter sido um dos poucos portugueses que estava à espera deste resultado e por isso achou melhor ficar a trabalhar, em vez de assistir. E confesso que ainda não percebi bem se devo alegrar-me com esta minha capacidade premonitória ou atirar-me da janela…
Eu também não esperava outra coisa, Nicolina. Mas apesar de tudo foi um documento digno de se ver, sociologicamente falando. E não se atire da janela, a não ser que tenha uma piscina em baixo…
Sociologicamente falando teve, seguramente, interesse (aliás, o seu texto demonstra-o), e fosse o entrevistador outro e eu talvez tivesse assistido. Desde que ascendeu ao Olimpo dos «best seller», o Miguel Sousa Tavares enerva-me um bocadinho…
Quanto à piscina, registo, grata, a preocupação… 🙂
Muito, muito bem. Digam-me agora que não há uma escrita feminina. Há o olhar feminino e a interpretação introspectiva feminina desse olhar, do que resulta esta escrita.
Era exactamente para dizer isso que eu vinha aqui comentar, João Carvalho. Sim, este é um olhar que não se fica pela pele das coisas, pela racionalidade do discurso, que chega ao íntimo da pessoa. É um olhar feminino no melhor sentido – para o caso de haver um mau sentido.
António,
Talvez as mulheres, melhor do que os homens, captem estas nuances de expressão (ou, neste caso, de ausência delas) que definem um perfil. E este perfil impenetrável não me deixa nada tranquila.
Comento o que mais me impressionou na entrevista, João. Tudo o resto é “mais do mesmo”, uma pose estudada ao milímetro para português ver e votar. E ganhou votos, podes crer.
Claro que há uma escrita feminina, um olhar feminino, um sentir feminino, um amar feminino, etc, etc. E, por regra, é nesse toque feminino que reside o mérito do destaque e referência.
(fala uma mulher com orgulho nisso, eheheheheh)
Também não é preciso exagerar. Eu queria dizer “talvez”. Hehe…
Sabes, Ana, o teu pensamento é correcto e tem afinidades com outros que eu conheço. Sócrates é mais ou menos como aqueles desportistas que são fisica e psicologicamente dotados e, à custa de muito laboratório, são transformados em máquinas vencedoras. Depois, infalivelmente, descobre-se uma história de doping no percurso.
a competência e auto controle perante grandes adversidades assustam-na?
De forma nenhuma, Pedro. Pelo contrário, aprecio muito ambas. Mas o que vejo em Sócrtates é uma coisa completamente diferente: uma ausência de emoçõoes que o torna impermeável a quase tudo, repito. E isso, sim, assusta-me. A inteligência emocional é um elemento fundamental no carácter de qualquer pessoa (como descobriu e provou, e muito bem, o nosso António Damásio), e mais ainda no de um líder.
Calma, Ana. Se vamos buscar o António Damásio não falta muito que estejamos a chamar psicopata ao nosso Chefe, digo, ao nosso Primeiro. E que haveriamos de chamar depois a personagens tão inimputáveis como Alberto João, tão vazias como Cavaco Silva, tão ardilosas como Paulo Portas, tão inverosímeis como Manuela F Leite, tão trapaceiras como Pacheco… e tão malcriadas como eu próprio?!
Ora, António, não se preocupe. A língua portuguesa é fértil em adjectivos, como você mesmo acabou de provar! Só não vejo onde está a sua má criação…
🙂
Joaquim? És tu? Hehe…
Queres, pois, dizer: um político “dopado”?
Acho que é isso mesmo, Joaquim. Mas, até que o dopping seja desmascarado, ganham todas as competições…
Escreve muito bem, mas com o que diz não concordo. O que eu vi foi o contrário, é que José Sócrates nosso PM, é um homem terrivelmente controlado, mas muito muito nervoso e emotivo.
Declaro que não voto PS nem nunca votei que me lembre
«Terrivelmente controlado, mas muito muito nervoso e emotivo»?
Cara Helena, um homem “muito nervoso e emotivo” é, por definição, incapaz de ser “terrivelmente controlado”. Não lhe parece?
O seu artigo está bem escrito, mas a sua análise não é correcta. O PM é um homem emotivo e nervoso mas controla-se bem que é uma qualidade que se deve enaltecer.
Outra coisa é a questão de saber se mente bem ou mal. Mente muito bem., quase perfeito
E acha, Helena, que a mentira quase perfeita também é de enaltecer?
Muito bem, mais uma vez, Ana, esta sua análise sobre o nosso ‘cyborg’ PM. Realmente, esta criatura tem qualquer coisa de metálico e mecânico, de frio, de não-humano, que nos faz arrepiar. Ele é um ‘cyborg’ e os que o rodeiam são uns ‘cyboys’.
Bem visto. Um regimento de “cyboys” que nem sempre estão à altura do general, diga-se. Mas ele protege-os, apesar de tudo.
Exactamente, Ana.
E o MST não é ingénuo nenhum. Sabia perfeitamente quem ia entrevistar e que dali não sairia informação alguma ou qualquer esclarecimento.
O “timing” era perfeito e conseguiu o objectivo.
Também me parece, Ana. MST foi incisivo mas diplomático, muito longe da agressividade desabrida a que já nos habituou quando se trata das suas “causas”. E foi esmorecendo ao longo da emtrevista, a ponto de parecer quase desinteressado no fim.
Ana, então o robocop não é em versão Ermenegildo Zegna? Será que tenho andado enganada este tempo todo? ;-D
Luísa, apanhou-me! Confesso que ando muito mal informada em matéria do guarda-roupa de Sócrates. Mas lá que ele se veste impecavelmente, isso sei. E como, para mim, Armani é o expoente máximo do look masculino, presumi que era ele o estilista do nosso robocop “a la mode”…
Mas obrigada pela correcção. No que toca ao nosso PM, todo o rigor é pouco…
😉
Gostei muito do post e das respostas aos comentários precedentes.
Você está em forma, Ana. Parabéns.
Obrigada, Elvira. Vou-me exercitando, para não perder o treino…
🙂
Ó Ana, tu desculpa-me, que o assunto é mais chorar que para rir… mas robocop em versão Armani é muito bom! E, claro, ainda me estou a rir. :)))
🙂
Ana
Um texto muito bom. Não concluo tudo da mesma maneira que a Ana conclui, mas, também no fim da entrevista, achei que tinha percebido coisas novas. A sua forma não estereotipada de pensar e a clareza de linguagem e de propósitos, só pode dar estes bons resultados. Parabéns!
Contrariamente a muito do que li, não achei nada que esta tenha sido só mais uma entrevista.
🙂
Pode tirar-se diferentes conclusões de quase tudo, Maria do Sol. E, felizmente, vivemos num país onde ainda se pode debatê-las livremente. Essa diversidade é mais do que saudável!
O Robocop tinha cérebro e coração; o que nos governa é um Exterminador Implacável.
Bom, caro André Miguel, eu não iria tão longe…
Já vi um presidente do SLB com o mesmo estilo. Se não me atraiçoa a memória chamava-se Vale de Azevedo.
Nunca mostrava o que sentia.Sempre calmo e sereno.
Tem graça, ainda hoje ouvi exactamente o mesmo comentário a alguém que conhece muito bem Vale e Azevedo. E em termos de perfil psicológico, parece-me que não está nada mal visto.
Só hoje percebi que a Ana Vidal não é a Ana Vidigal. Não é, pois não?
Não sou, não, Teresinha. Temos só nomes parecidos.
🙂
Ana, só vi a entrevista já a meio da segunda parte. Ando com tanta falta de paciência, que até me esqueço, fiz zapping por acaso e fiquei a ver. Parece-me que nesta altura do campeonato, as pessoas já têm à partida uma predisposição para gostarem ou rejeitarem, limitando-se a reforçar as próprias suas próprias convicções. Mas o que lhe asseguro, é que no meu meio laboral o que ouço é isto “aquele gajo é uma máquina” e não é em sentido pejorativo, acredite. Aquilo que a assusta a si, funciona para essas pessoas como uma prova que o homem é inabalável. E isso dá-lhes confiança.
À parte isto, o seu texto está muito bem escrito e tem uma posição muito respeitável.
Obrigada pela compreensão, Ariel. Acredito e percebo que um líder que seja considerado “uma máquina” de competência e firmeza inspire confiança e segurança nos que o rodeiam directamente. Nada a opor, no que toca a esse capítulo. O que já não me agrada nada – e me assusta até – é que essa máquina seja de tal maneira inabalável que não admita oposição ou críticas, e que seja incapaz de alguma flexibilidade que é sempre desejável num dirigente, porque o humaniza. A racionalidade não é tudo. Pessoalmente, e porque gosto de considerar-me por natureza uma humanista, essas pessoas assustam-me e têm o efeito contrário em mim: não me merecem confiança porque tendem para a posse da verdade absoluta, característica comum a todos os ditadores. E é esse perfil que vislumbro em Sócrates, até pela resistência sobre-humana à inacreditável profusão de ataques ao seu carácter, a que ele me parece absolutamente blindado.
Mas é apenas a minha análise e a minha opinião, como é evidente. A sua, contrária que seja, merece também todo o meu respeito.
Ana, não me fiz entender, talvez o meu português não seja o melhor, mas em nada do que escrevi disse que essa era a minha posição. O que eu disse foi aquilo que ouço e me é transmitido pelo “mundo das pequenas coisas” onde me movimento. Sou um pouco mais elaborada para me deixar levar ou condicionar por pequenos tiques. Mas também não embarco no politicamente correcto que agora se verifica de disparar primeiro e perguntar depois sempre que se trata de Sócrates. Quanto ao resto nada a opor à sua posição.
Ariel, o seu português é irrepreensível e nunca a vi exprimir-se de forma confusa. Se interpretei mal a sua posição, a culpa só pode ser minha.
🙂
🙂
grande, grande post que só agora li. parabéns
Obrigada.
Este texto merece figurar no “best of” do “Delito”. Grande Ana! Excelente…
Só posso concordar contigo.
E o que é que tu andas aqui a fazer a esta hora?
Acontece que eu não ando «a esta hora». Eu ando uma hora atrás. Hehe…
Também não exagerem, meninos… mas obrigada.