Como era a juventude


Paulo Sousa,

Dizer que Portugal mudou muito nas últimas décadas é uma redundante repetição. Basta abrir um jornal português dos anos 50 ou 60, ou um noticiário num arquivo digital para descobrirmos um país que não conhecemos. Esses registos retratam sempre, ou quase, a vida nos grandes centros, o mundo dos que viviam em frente das objectivas e dos repórteres que lhe davam voz.

Nas terras pequenas o mundo também mudou bastante. Cresci a ouvir histórias contadas pelos mais velhos sobre o seu tempo de juventude, ou de mocidade, como então se dizia.

A juventude dos meus tempos foi bem diferente da desses tempos e foi também diferente da dos jovens de hoje. Comparando com o que acontece hoje, há cinquenta ou sessenta anos nasciam bebés em barda. Também morriam bastantes, mas só os rapazes da minha terra eram suficientes para, com dois ou três anos de diferença, fazerem várias equipas de futebol. Agrupavam-se por território. Os da parte alta da vila, então aldeia, jogavam contra os das ruas centrais e também, à vez, contra os do lado do pinhal. A modalidade não interessava, podia ser futebol, ao pião, assim como à pedrada ou à cachaporra. Em grupos mais pequenos, corria-se acima e abaixo por terrenos cultivados, por pomares e encostas, e competia-se também pelo número de ninhos da passarinhos encontrados. Os ninhos de aves de maior porte, milhafres, corvos, rolas ou pegas-rabudas eram reservados a uma elite que normalmente vivia na periferia e que, por perder menos tempo aos pontapés na bola, se especializava no que, entretanto, se passou a chamar birdwatching. Se bem que, tendo arte para isso, rapidamente eles iam além da observação e, em podendo, capturavam-nos para os criarem, ou simplesmente os ter, em casa.

Às vezes, a miudagem quando apanhava as aves progenitores fora do ninho, colocava as crias dentro de uma pequena gaiola e deixava-a no mesmo sítio. Após a surpresa inicial, os passarinhos novos lá continuavam a ser alimentados através das malhas da rede. Depois, já maiores e mais gordos, seriam apanhados sem se correr o risco de que aprendessem a voar e lá fossem à vida deles. Mas as gaiolas eram escassas e muitos acabavam por se escapar.

Quem sabia a receita, cozinhava numa panela velha uma mistura secreta que incluía a goma que escorre de algumas ameixoeiras e pessegueiros, bocados dos elásticos das fisgas e outros ingredientes desconhecidos por mim. A partir daquela mistela faziam visgo. Com esta cola, capaz de ficar agarrada às mãos durante semanas e que parecia nunca secar, untavam umas pequenas braças de arbusto que colocavam junto a algo que atraísse a passarada. Podia ser uma tigela de água no Verão, um montinho de milho britado ou uma gaiola com as próprias crias lá dentro. Com um pouco de sorte, após três ou quatros insucessos, lá apanhavam um bicho preso pelas patas. Depois era guardado em casa, numa gaiola maior, junto de outros capturados antes.

No meu tempo de garoto, só um primo meu mais velho é que sabia fazer visgo. Cozinhava-o dentro de uma lata vazia. Com o fumo daquele bruxedo mal-cheiroso pintou, numa parede velha, um largo risco negro, que ali ficou até ter sido demolida. Nunca me deixou ir com ele aos pássaros, pois era mais novo e iria espanta-los. Era o que ele me dizia.

Só do lado paterno, o meu pai tinha sete tios. Lembro-me de ele contar, que certa vez uns primos mais velhos tinham alinhavado umas folhas de papel, e alinhavado mesmo com agulha e linha, onde anotavam a localização dos ninhos que tinham encontrado e que iam espreitando até as crias estarem a jeito de serem apanhadas para fazer uma patuscada. Um dia, os mais novos conseguiram surripiar os apontamentos aos mais velhos. Perante a abundância daquela informação “classificada” decidiram antecipar a colheita.  O final do relato deste episódio termina na rampa empedrada com seixos redondos, que na casa dos meus avós dava acesso ao pátio. Ali juntaram toda aquela pardalada, que depois de morta foi depenada e amanhada. Não me lembro se os comiam guisados, mas imagino que sim.

Desses relatos transparecia uma mistura de, arrisco-me a dizer, reflexo antropológico de caça em grupo, de paixão pela beleza daqueles pequenos seres voadores, de partilha exibicionista de conhecimento entre os pares, de busca pelo apuro da nobre arte cinegética e, obviamente, também um complemento de proteínas.

 

Diz-se que o povoado que antecedeu a aldeia que, entretanto, se tornou vila, começou num vale a pouco mais de um quilómetro do actual centro. Aquela zona sempre foi cultivada com novidades e hortícolas várias. É muito fresco todo o ano e graças aos poços que ladeiam o ribeiro que ali passa quando chove, é possível fazer regas até mesmo durante o Verão. Este vale era por isso muito frequentado por texugos, que se alimentavam durante a noite do melhor que havia à disposição. Era uma apoquentação. Não se podia ali ter nada ao ponto de, sempre que necessário, se organizarem umas capturas. A caçada, tal como o bicho, era nocturna e isso fazia a emoção do desafio subir uns furos. Pelo que ouvi, o bicho era esperado à saída da toca, onde se armava um laço. Depois era só esperar em silêncio. O bicho era desconfiado, podia demorar a sair e isso obrigava a uma espera interminável. Por serem muito difíceis de apanhar, só mesmo os mais exímios caçadores eram bem sucedidos. A conquista significava algum sossego nas ervilhas e nas favas de todos os que ali amanhavam alguma coisa e por isso, na madrugada seguinte o bicho era exibido pelas ruas, porta a porta, pendurado num pau, amarrado pelas patas. Em todas as casas de quem já tinha sido roubado pelos texugos, os caçadores recebiam uma moeda. Ou então, um copo de vinho.

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Foto Rafael Coelho de Sousa

Os miúdos de outros tempos só eram atraídos à casa onde moravam, para comer e dormir. Quando muito para evitar umas sovas, que inevitavelmente acabavam por acontecer. Os mais macios também corriam para casa quando alguma rixa lhe corria mal. Os outros desapareciam para as fazendas onde, ágeis e velozes, eram impossíveis de apanhar.

Foi essa geração que preencheu as fileiras da Guerra do Ultramar. Já adultos, com umas toscas e mal escalavradas tatuagens nos bíceps, ouvi-os falar do Tete, do deserto do Namibe, de Nova Lamego e de Teixeira Pinto, com o mesmo desvelo e conhecimento com falavam do Talho Redondo, da Fonte Falsa e das Eiras Novas. Sem o saberem, quando apanhavam bicos-de-lacre, tentilhões e cias, estavam apenas na pré-primária da caça às pacaças, zebras e gazelas com que a vida os haveria de fazer cruzar. Nesses relatos da minha infância também ouvi alguns contarem que também tinham caçado pretos, mas isso agora não se pode dizer.

Antes e depois do serviço militar, o ponto de encontro dessa geração foi sempre nas adegas de uns e de outros, onde o vinho nunca faltava, nem conduto para o ensopar. Nesses anos, alguns mais novos, fundaram o clube de futebol, que oficialmente só foi constituído depois do 25 de Abril. A primeira sede foi num palheiro onde os jogadores se fardavam antes dos jogos de futebol. O primeiro campo, com balizas de madeira caiada de branco, foi num rectângulo de terreno no meio dos pinhais que lhe deram o nome, pois desde então passou a ser o Estádio da Pinhoca.

Nos anos quentes que se seguiram à revolução, o campo de futebol foi alargado à custa dos proprietários vizinhos. Naquele tempo, aquela turba gadelhuda, de voz grossa, de calças à boca de sino e conhecedora das artes da guerra, foi, treino após treino, domingo-de-jogo após domingo-de-jogo, alargando o campo até que este atingisse as medidas oficiais. Em pouco mais de dez anos, aquele rectângulo foi murado e ali foram construídos balneários e bancadas.

O declínio começou com um incêndio já nos anos 90, que fez desaparecer o pinhal e as pinhocas que lhe davam o nome. Depois foram os incomportáveis e crescentes custos das inscrições dos jogadores de todos os escalões na Associação de Futebol. A isso seguiu-se uma mudança da Direcção, que coincidiu com a construção ali mesmo ao lado de um pavilhão municipal, pago com fundos europeus. Tudo junto ditou que o clube desistisse do futebol de 11 e passasse a competir apenas no Futsal. A marca ainda é a mesma, mas os sócios fundadores já quase todos partiram. A sede está forrada com fotos de equipas de muitos escalões e de muitos anos. Há uns tempos mandei imprimir e pendurar na parede as mais antigas de todas. Foram tiradas pelo meu tio e são anteriores à fundação oficial do clube. Retratam as condições em que se jogava. No inverno metade do campo era uma poça única e o resto era apenas lama.

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Foto Rafael Coelho de Sousa

Actualmente o velho campo está abandonado, cheio de erva e sulcado pelos peões dos serôdios dos tunnings.

Em várias dezenas de hectares em seu redor, o pinhal, que depois daquele incêndio, nunca mais voltou a ter pinheiros, vai receber agora um parque solar. O Plano Director Municipal, actualizado há uns dez anos, acode-nos para ordenar o território, para complicar a vida aos proprietários, mas foi incapaz de nos defender daquela agressão estética. É um facto consumado e os eucaliptos já andam a ser derrubados a eito. É claro que todos queremos e precisamos de energia limpa e renovável, mas com tantos milhares de hectares desocupados no interior do país, tinha de ser logo aqui? Serão mais de 20.000 painéis a ocupar mais de 20 hectares e irão preencher totalmente o espaço entre duas povoações.

Há poucas semanas, numa sessão de esclarecimento no Salão Paroquial lá explicaram ao povéu que a proximidade de uma central de transformação da eléctrica nacional, que até pertence a uma nação que não é a nossa, justifica esta localização. Dizem que é a logística e agora já não há nada que se possa fazer.

Eu, que também gostava de ser energeticamente independente, lembrei-me que se fossemos da têmpera daqueles judéus (era assim que se dizia, com acento no é) caçadores de pássaros dos anos 50 e 60, os painéis seriam metodicamente danificados à pedrada, mas como todos só queremos é paz e sossego, nada disso irá acontecer.

Quando eu comecei a sair à noite, ia para o café, nessa altura a sede do clube não era a minha onda, e ficava à espera que os meus amigos e conhecidos aparecessem. O tempo fluía e, entre umas cervejas e umas cigarradas, para quem fumava, lá iam aparecendo uns atrás dos outros. Dali seguíamos para outras paragens. O café era o ponto de encontro e vivia também desse tempo de espera.

Com a massificação dos telemóveis, aquele café deixou de ser ponto de encontro e até já fechou. Agora os encontros da malta nova combinam-se on-line, e é na sede do clube que alguns teimosos insistem em ver a bola depois do treino de Futsal ou do dia de trabalho. Fuma-se na rua, debaixo do toldo.

A miudagem mais nova já não brinca na rua pois passa o tempo livre agarrada aos écrans, e o único pássaro que conhece é o logótipo azul do Twitter.

37 comentários em “Como era a juventude”

  1. com tantos milhares de hectares desocupados no interior do país, tinha de ser logo aqui?

    Típica argumentação NIMBY (not in my backyard): gostamos muito disso e estamos totalmente de acordo, só não queremos que seja ao pé de nossa casa.

  2. os eucaliptos já andam a ser derrubados a […] preencher totalmente o espaço entre duas povoações

    Têm eucaliptos assim na proximidade da povoações, com o consequente risco de incêndio. É muito melhor ter painéis solares, podem ser feios mas pelo menos não ardem.

  3. La Decadencia de Occidente
    Bosquejo de una morfología de la historia de la Historia Universal.
    Oswald Spengler
    « a idade da pedra não terminou por falta de matéria-prima »

  4. Lembro-me bem de “ir aos passarinhos” em Nandufe. Primeiro penduravam-se as armadilhas, umas coisas de arame, onde eu não podia mexer, porque me ” podiam levar um dedo”. No outro dia recolhiam-se, depenava-se e fritava-se a passarada.
    Espectáculo de texto, Paulo.

    1. As armadilhas feitas de arame de aço de forma curva, eram aqui chamadas de “costelas”. O isco eram uns lagartos que se apanhavam dentro das canas do milho, o seu nome técnico é broca do milho. Havias umas maiores para apanhar melros. Podia ter entrado no texto.
      Obrigado Dulce

      1. uns lagartos que se apanhavam dentro das canas do milho

        Com esses lagartos brincava eu, a pô-los a comerem-se uns aos outros. Punha-os na bordinha de um móvel, em linha reta, uma atrás do outro. Impedia o da frente de fugir, e o de trás apanhava-o pelo rabo e começava a sugar-lhe o sangue. O da frente ficava cada vez mais fraquinho, incapaz de fugir. Depois eu trocava-lhes os papéis, punha o grande e gordo à frente e o pequenino e fraquinho atrás, a sugá-lo. Era de um sadismo…

  5. Com o abandono do meio rural por falta de condições de vida, quem ficou no que resta já não “dá” crianças.
    Não têm comparação, as nossas terras de província como eram nos anos 50 ou 60, e o que vamos agora lá encontrar.
    Os nossos pais e avós não se importavam de criar cinco filhos em duas assoalhadas.
    Mesmo nos arredores das cidades há poucas crianças, as casas de duas assoalhadas só se o filho dormir na sala. Com a grande mudança, pincipalmente dos caboverdianos deixarem as barracas para viver “como gente”, dizem eles, já começam a aparecer crianças por os pais não se importar fazer da sala dormitório pra os filhos.
    O texto é muito interessante, e para quem viveu nos anos 50/60, mais interessante se torna com um ‘no meu tempo era assim’.

    1. A grande mudança que levou à quebra da natalidade, é a mudança das expectativas de vida. Já não se vive apenas para colocar comida na mesa e vestir e calçar os de casa.
      Uma ida ao Algarve, ou mais longe, por ano, não se coaduna com uma prole de sete ou oito. Qual a lotação de um carro familiar? As carreiras profissionais exigem dedicação, a necessária emancipação da mulher, os métodos contraceptivos, tudo isso impede que se nasça como nesses tempos.

      1. A grande mudança que levou à quebra da natalidade, é a mudança das expectativas de vida.

        Não só expetativas mas também necessidades e obrigações legais. Atualmente é-se forçado a ter um jovem na escola, e proibido de trabalhar, até aos 18 anos de idade – incluindo muitas despesas com essa escola. No passado um jovem já ganhava para se sustentar aos 12 anos de idade, ou até mesmo aos 6.

        Quando o Estado cria novas obrigações legais como essas, seria bom que meditasse sobre as suas consequências na natalidade.

  6. vivi no campo 1931-41.
    não era necessária educação sexual: era tudo em directo.
    nadávamos em pelica nas ribeiras, onde uma colega rachou a ‘boca do corpo’.
    o mundo rural faleceu de morte natural; substituído por barracas nos arredores das grandes cidades onde companheiros morreram de fome e frio

    1. O mundo mudou, agora morre-se noutros sítios e de outras maneiras. Talvez um dia os grandes centros urbanos se tronem menos apelativos. Não sabemos. Só sabemos que muita coisa mudou.

  7. Parabéns pelo texto!
    Saudades dos tempos de miúdo no meu querido “Alentejo profundo” onde a miudagem quase por completo desapareceu e onde os mais velhos vão partindo. No município da minha vila já fomos quase 18000 nos anos 60 e hoje mal chegamos a 7000 mesmo com a maior mina do país a segurar algumas pessoas. Fico triste por assistir a esta morte lenta do meu querido Alentejo, com os montes em ruínas e aldeias quase já sem ninguém.

  8. Um registo maravilhoso de um tempo tão próximo e ao mesmo tempo tão longínquo. Os painéis serão a nova energia , num concelho que iluminou tudo à sua volta. Um abraço

    1. Verdade Ana.
      Quando o centro do país vivia à luz das velas e das candeias, Porto de Mós já tinha electricidade.
      Por piada de mau gosto quiseram esturrar vários milhões europeus na antiga central termoeléctrica a carvão para a transformarem num… arquivo. Se conseguissem, até os passarinhos se iriam rir desses adiantamos mentais.
      A nós, o que nos acode são as gargalhadas.
      Um abraço

  9. Lembro-me que os meus tios iam à caça aos melros, subiam às árvores quando viam algum ninho, e depois colocavam as pequenas crias em gaiolas e davam-me uma espécie de papa com um pau a servir de colher.
    Que boas memórias me trouxe hoje. Grato!

    1. Aqui, para esse efeito, usava-se ração do gado misturada com água. Para fazer de colher, usava-se uma lasca de cana. O bico do pássaro, nessa idade, de goela aberta, deve ser maior do que qualquer outra parte do corpo.
      Obrigado

  10. O meu pai, da zona do Louriçal, contava-me histórias muito parecidas. Só posso dizer que a bicharada hoje em dia é muito mais feliz 😉

    Isto… A bicharada que sobrevive, claro, porque caso não tenham reparado, há muito menos insectos e os animais selvagens e pássaros estão a desaparecer. Quem vive no campo não deixará certamente de reparar nestas coisas. Devia ser feito alguma coisa, como por exemplo, plantar árvores. Um programa a sério de reflorestação do País.

    Falta perspicácia a quem governa, sempre faltou e sempre faltará porque quem governa são os chicos-espertos e os fura-vidas e essa gente está pouco atenta ao mundo.

    E voltando ao assunto de outros posts recentes aqui no Delito, é por isso que as repúblicas não prestam: porque os saloios e os que são cegos para o mundo conseguem governar.

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