Ler (10)


Pedro Correia,

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A citação é extensa, mas decidi destacá-la. Por ser uma das mais perfeitas que conheço sobre a leitura – esse acto tão simples e tão complexo, tão íntimo e luminoso, de uma banalidade extrema e de um sortilégio inigualável.

De uma crónica intitulada «Longos romances de Agosto», publicada por Antonio Muñoz Molina, um dos melhores escritores espanhóis contemporâneos, no suplemento literário do El País (edição de 15 de Agosto de 2009).

 

«Faz falta a dupla bênção de uma indolência verdadeira e de um romance que nos subjugue por completo e nos chegue ao fundo da alma – e nenhuma destas coisas é fácil. A indolência não é simplesmente o reverso da actividade porque podemos estar desocupados enquanto sentimos a tensão dos compromissos em agenda. E também porque estamos muito mais treinados para a agitação do que para a inquietude e custa-nos conseguir esse estado simultâneo de alerta e sossego que favorece a contemplação e sem o qual não é possível a leitura com proveito, nem talvez também a felicidade. Estar em plenitude num local, num certo momento, numa varanda perto de campos de ténis ou de um jardim junto a uma piscina ou numa espreguiçadeira frente ao mar; e ao mesmo tempo estar no mundo densamente habitado e também ilusório de um romance, mergulhados nele, querendo avançar e querendo que não acabe, um romance que exija o exercício sustentado das melhores faculdades intelectuais e nos propicie em troca a recompensa de uma revelação decisiva sobre a experiência humana narrada com a proximidade e a iminência de um conto primitivo.»

 

(Tradução minha)

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7 comentários em “Ler (10)”

  1. Ainda bem que destacou a citação! Um encanto. Muito obrigada. Oxalá não se perca o “sortilégio” da leitura dos “romances longos” nas tardes também longas e lentas de Agosto. Oxalá não se perca o feitiço da leitura. Obrigada uma vez mais.

  2. Leio poucos romances, embora não os desvalorize.
    Colher e degustar ideias não perturba necessáriamente a gratificante indolência, nem se requer que lhas embrulhem num enredo romantizado.
    Encontrei em casa um livro publicado em 1943, no estado virgem, com prefácio datado pelo autor em 1930: ‘A cura pelo espírito’, Stefan Zweig
    Para romance só lhe falta a história ser ficção.

    1. Stefan Zweig é autor de um dos melhores livros publicados em todo o século XX: ‘O Mundo de Ontem’.
      Não é romance, mas recomendo-o sempre. Essencial para percebermos tanto desse mundo – e também do nosso.

  3. Que maneira tão sugestiva e apelativa para motivar à leitura. E que perfeita tradução do encantamento que nos toma quando mergulhados num bom livro, daqueles que abrem portas e janelas para lugares e sentimentos até então insuspeitos.
    Excelente partilha!

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