Os Muros


Maria Dulce Fernandes,

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Todos nós nascemos e crescemos (salvo por algum bambúrrio da sorte) num espaço edificado e entre paredes de madeira, de tijolo, de lona, de colmo… A parede é a estrutura da vida tal e qual a conhecemos. A expressão “entre quatro paredes”, com todas as nuances que lhe queiramos atribuir, significa lar, privacidade. Significa Construção, força.

A nossa vida está repleta de paredes e de muros, que no sentido real ou figurativo regulam a existência humana e são quase sempre sinónimos de divisão, exemplo da Grande Muralha da China, da Muralha de Adriano, do Ghetto de Varsóvia, do Muro de Berlim, da Muralha de Gaza… ou tão simplesmente das divisões na arquitectura dos edifícios.

A tantos obstáculos contornáveis ou incontornáveis que se nos apresentam durante a nossa existência chamamos muralha da indiferença, muro do silêncio, ficar em cima do muro ou descer do muro, dar com a cara na parede, entre a espada e a parede ou simplesmente falar para uma parede. São todas expressões triviais, figurativas do carácter de alguém, mas nem sempre abonando em seu favor.

Finalmente há os muros de cada um, aqueles que nós próprios edificamos, que nos escudam de todas as agressões exteriores e que vamos aumentando todos os dias, pedra a pedra, tijolo a tijolo; há a fachada pública que normalmente adquire revestimento antichoque, e há a outra, aquela em que, pedras à parte, podemos ser nós próprios.

Eu não queria ter um muro à minha volta. Não me agrada a ideia de andar por aí couraçada, qual Golem bíblico, contra as investidas das tormentas, mas neste país, que em pleno século XXI podemos comparar ao Muro das Lamentações, é preciso ter-se consistência e fortificar o intelecto e as acções e, quantas vezes, empedernir o peito. Lamentavelmente, por cada ideia de abertura e transparência pela qual me queira pautar na vida em sociedade, vejo-me a acrescentar mais um tijolo no muro.

10 comentários em “Os Muros”

  1. Em tempos, talvez em 1980, vi o tema da prova de um exame para adultos.
    O tema de toda a prova era sobre tijolos: barro utlizado: matemática e geometria; utilidade na construção de habitações; construção de muros; utilidade/uso dos muros.
    A maioria das provas era fraca de conteúdo e todos erraram a conta de um tijolo mais meio tijolo quantos tijolos são, mas quanto a muros havia para vários gostos e um deles era interessante por questionar para que serviam os muros dos cemitérios.

    1. É uma questão pertinente. Terão como objectivo impedir o que está lá dentro de sair, ao melhor estilo Stephen King, ou impedir quem está cá fora de entrar psicologicamente e aproximar-se prematuramente da “solução final” de todos nós?

  2. Foi derrubado o Muro de Berlim que simbolizava duas culturas politicas: o capitalismo e o comunismo.
    Derrubado um e nasceram outros com quase a mesma razão. O muro de dez quilómetros de comprimento e três de altura construído na cidade de Lima, no Peru, separa os milhões de pobres dos ricos da cidade.

  3. em vez de construir um muro , vista uma armadura …é mais portátil e podemos despi-la quando entre iguais .

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