
Não me lembro de ter contado que comecei a falar com 6 meses (foi há tanto tempo!).
Não fui aquilo a que na altura se chamava um bebé Nestlé, não tinha aquele atractivo olhar azul cristalino e bochechas rosadas, encimados por fulvos e brilhantes caracóis. Era uma trinca-espinhas normal com grandes olhos castanhos e cabelo da mesma cor, que nasceu com o condão de repetir tudo o que ouvia desde tenra idade.
Não fui aquilo a que na altura se chamava um bebé Nestlé, não tinha aquele atractivo olhar azul cristalino e bochechas rosadas, encimados por fulvos e brilhantes caracóis. Era uma trinca-espinhas normal com grandes olhos castanhos e cabelo da mesma cor, que nasceu com o condão de repetir tudo o que ouvia desde tenra idade.
Claro está que em competição com uma arara decerto não levaria a melhor, mas rezam as crónicas que falava pelos cotovelos e que desde que pronunciei a minha primeira palavra – guardanapo – nunca mais me calei. A Mãe contava orgulhosa que houve entrevistas à família para o jornal local e que com 10 meses contei para um gravador de bobina (inovação tecnológica da altura) a história do Lobo e dos Sete Cabritinhos, recostada no sofá vermelho da avó com o livro no colo, virando as páginas e modulando as respirações e os compassos de espera, como uma verdadeira profissional da oratória Grimiana.
Como é óbvio, não tenho qualquer recordação dos meus tempos de vedeta de bairro e se algo me ficou do meu génio oratório, foi a paixão pelas palavras, sobretudo pela palavra escrita.
Mesmo nos meus anos académicos, a minha retórica era largamente suplantada pelos jogos de letras, que os meus dedos faziam deslizar pelo papel como pequenas peças de puzzles coloridos e harmoniosos, num bailado singelo e preciso, até formarem o desenho que a minha imaginação pintara.
Lembro-me como se fosse hoje da mala castanha com fivelas, do estojo de madeira com uma tampa deslizante que fazia as vezes de régua e que continha um lápis, uma borracha e um apara-lápis, lembro-te tão bem da sebenta cor de papel pardo com um estudante na capa, do caderno de duas linhas e da Cartilha Maternal João de Deus.
As letras eram velhas conhecidas, como desenhos e formas. A sua sonoridade, o valor de cada uma e a ciência de saber juntá-las em dissílabos e polissílabos, formar palavras, frases, parágrafos e textos, foi a cartilha do b-a-ba que me ensinou.
A primeira vez que li sozinha uma notícia de jornal, inchei de orgulho. Toda a vizinhança ficou a saber que a Feira Internacional de Lisboa estava transformada numa galeria de arte infantil por ter em exposição os trabalhes de “O Natal visto pelas crianças”, e quando perguntavam como sabia eu disso, retorquía toda lampeira: “Li no jornal, ora essa!”
Da cartilha depressa passei aos livros escolares que tinham capas patrióticas e crianças de braço estendido e sorrisos perfeitos, acrescentei ao material escolar um frasquinho de tinta permanente, uma caneta de aparo, um caderno pautado, um quadriculado e um de desenho, uma folha de mata-borrão e uma caixa com seis lápis de cor Viarco. Quando completei a quarta classe com vinte valores, o Pai ofereceu-me uma caneta Sheaffer numa caixinha forrada a cetim, que passou a ser o meu maior tesouro. Também me deu autorização para tirar livros das estantes e ler.
Mal ele sabia que acendera o rastilho da minha maior e mais explosiva paixão, aquela que dura e durará tantos dias quantos os que me forem permitidos andar pelas bandas de cá.

Obrigado pela bela recordação. Quanto à caneta SHEAFFER, ui!
Só depois dos 20 paga por mim uma velha Parker verde com tampa metálica cinza que ainda conservo sem vida.
Obrigada Maria
Que desilusão. Eu a pensar que a Maria Dulce era uma pessoa normal e não que a delitualidade diária era fruto de um prodígio.
Ao ano falarás, aos dois andarás.
Curiosamente fui preguiçosa para andar. É como é
Ena, ena uma prenda das caras, uma Sheaffer, é o que vale ter um rico Pai
Na minha instrução primária havia pequenos tinteiros de porcelana metidos nas carteiras, que eram enchidos de tinta no dia da cópia com a pena de aparo metálico. E quem quisesse podia levar o resto da tinta para casa. E assim foi, com um frasquinho de vidro do líquido das injecções cheio de tinta, que em vez da tampinha de borracha já gasta a safar, vai de tapar o frasquinho com cartão enrolado a fazer de rolha. Pelo caminho aconteceu magia, não havia tinta no frasquinho nem em lado nenhum. Pois, a tampa como era de cartão de mata-borrão chupou a tinta toda.
O meu pai não era uma oessoa rica, mas era uma uma rica pessoa e incetivava-me em todos os campos do conhecimento nis qyaus manifestasse interesse. Sempre fui uma excelente aluna, e eles trataram de me mostrar reconhecimento, o que foi muito moralizador.
As provas eram feitas em papel branco de 35 linhas no qual nos ensinaram a dobrar uma “pestana” que era a margem. Eram sempre escrutas a tinta permanente. Nunca tive tinteiro na secretária. Podíamos trazer um pequeno tinteiro para as provas, ou apenas as canetas com os “depósitos cheios” , mas convinha não facilitar. Para além dos erros de ortografia e aritmética, a aparência, sem borrões e letra certinha, por exemplo, contavam muito para a nota final.
Em tempos anteriores aos da Maria Dulce Fernandes essas folhas de 35 linhas só apareciam nos exames finais, e, nesse caso, contava tudo para a nota final do exame. Não havia “contagens para a nota final” durante os períodos de ensino. Todos os alunos iam a exame da chamada 4ª. classe e depois era aprovado ou reprovado no exame. No ano seguinte os reprovados continuavam na escola como repetentes ou iam trabalhar e depois logo se via.
No meu tempo, as provas eram feitas no final de cada período na escola. As provas de passagem de classe, no final do ano lectivo, nunca eram feitas na nossa escola.
Sim, sim, o exame final era feito noutra escola.
Adorei.
Obrigado pela lembrança
Só falta a lancheira.