B-a-ba


Maria Dulce Fernandes,

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Não me lembro de ter contado que comecei a falar com 6 meses (foi há tanto tempo!).
Não fui aquilo a que na altura se chamava um bebé Nestlé, não tinha aquele atractivo olhar azul cristalino e bochechas rosadas, encimados por fulvos e brilhantes caracóis. Era uma trinca-espinhas normal com grandes olhos castanhos e cabelo da mesma cor, que nasceu com o condão de repetir tudo o que ouvia desde tenra idade.

Claro está que em competição com uma arara decerto não levaria a melhor, mas rezam as crónicas que falava pelos cotovelos e que desde que pronunciei a minha primeira palavra – guardanapo – nunca mais me calei. A Mãe contava orgulhosa que houve entrevistas à família para o jornal local e que com 10 meses contei para um gravador de bobina (inovação tecnológica da altura) a história do Lobo e dos Sete Cabritinhos, recostada no sofá vermelho da avó com o livro no colo, virando as páginas e modulando as respirações e os compassos de espera, como uma verdadeira profissional da oratória Grimiana.

 

Como é óbvio, não tenho qualquer recordação dos meus tempos de vedeta de bairro e se algo me ficou do meu génio oratório, foi a paixão pelas palavras, sobretudo pela palavra escrita. 

Mesmo nos meus anos académicos, a minha retórica era largamente suplantada pelos jogos de letras, que os meus dedos faziam deslizar pelo papel como pequenas peças de puzzles coloridos e harmoniosos, num bailado singelo e preciso, até formarem o desenho que a minha imaginação pintara.

 

Lembro-me como se fosse hoje da mala castanha com fivelas, do estojo de madeira com uma tampa deslizante que fazia as vezes de régua e que continha um lápis, uma borracha e um apara-lápis, lembro-te tão bem da sebenta cor de papel pardo com um estudante na capa, do caderno de duas linhas e da Cartilha Maternal João de Deus. 

As letras eram velhas conhecidas, como desenhos e formas. A sua sonoridade, o valor de cada uma e a ciência de saber juntá-las em dissílabos e polissílabos, formar palavras, frases, parágrafos e textos, foi a cartilha do b-a-ba que me ensinou. 

 

A primeira vez que li sozinha uma notícia de jornal, inchei de orgulho. Toda a vizinhança ficou a saber que a Feira Internacional de Lisboa estava transformada numa galeria de arte infantil por ter em exposição os trabalhes de “O Natal visto pelas crianças”, e quando perguntavam como sabia eu disso, retorquía toda lampeira: “Li no jornal, ora essa!”

 

Da cartilha depressa passei aos livros escolares que tinham capas patrióticas e crianças de braço estendido e sorrisos perfeitos, acrescentei ao material escolar um frasquinho de tinta permanente, uma caneta de aparo, um caderno pautado, um quadriculado e um de desenho, uma folha de mata-borrão e uma caixa com seis lápis de cor Viarco. Quando completei a quarta classe com vinte valores, o Pai ofereceu-me uma caneta Sheaffer numa caixinha forrada a cetim, que passou a ser o meu maior tesouro. Também me deu autorização para tirar livros das estantes e ler.

 

Mal ele sabia que acendera o rastilho da minha maior e mais explosiva paixão, aquela que dura e durará tantos dias quantos os que me forem permitidos andar pelas bandas de cá.

10 comentários em “B-a-ba”

  1. Obrigado pela bela recordação. Quanto à caneta SHEAFFER, ui!
    Só depois dos 20 paga por mim uma velha Parker verde com tampa metálica cinza que ainda conservo sem vida.

  2. Que desilusão. Eu a pensar que a Maria Dulce era uma pessoa normal e não que a delitualidade diária era fruto de um prodígio.
    Ao ano falarás, aos dois andarás.

  3. Ena, ena uma prenda das caras, uma Sheaffer, é o que vale ter um rico Pai
    Na minha instrução primária havia pequenos tinteiros de porcelana metidos nas carteiras, que eram enchidos de tinta no dia da cópia com a pena de aparo metálico. E quem quisesse podia levar o resto da tinta para casa. E assim foi, com um frasquinho de vidro do líquido das injecções cheio de tinta, que em vez da tampinha de borracha já gasta a safar, vai de tapar o frasquinho com cartão enrolado a fazer de rolha. Pelo caminho aconteceu magia, não havia tinta no frasquinho nem em lado nenhum. Pois, a tampa como era de cartão de mata-borrão chupou a tinta toda.

    1. O meu pai não era uma oessoa rica, mas era uma uma rica pessoa e incetivava-me em todos os campos do conhecimento nis qyaus manifestasse interesse. Sempre fui uma excelente aluna, e eles trataram de me mostrar reconhecimento, o que foi muito moralizador.
      As provas eram feitas em papel branco de 35 linhas no qual nos ensinaram a dobrar uma “pestana” que era a margem. Eram sempre escrutas a tinta permanente. Nunca tive tinteiro na secretária. Podíamos trazer um pequeno tinteiro para as provas, ou apenas as canetas com os “depósitos cheios” , mas convinha não facilitar. Para além dos erros de ortografia e aritmética, a aparência, sem borrões e letra certinha, por exemplo, contavam muito para a nota final.

      1. Em tempos anteriores aos da Maria Dulce Fernandes essas folhas de 35 linhas só apareciam nos exames finais, e, nesse caso, contava tudo para a nota final do exame. Não havia “contagens para a nota final” durante os períodos de ensino. Todos os alunos iam a exame da chamada 4ª. classe e depois era aprovado ou reprovado no exame. No ano seguinte os reprovados continuavam na escola como repetentes ou iam trabalhar e depois logo se via.

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