Há uma semana, falei aqui em inesquecíveis aberturas de grandes romances universais. Hoje trago-vos outras frases iniciais, mas só de autores portugueses.
Vinte e cinco, no total. Autores de várias épocas e diversos estilos literários.
Aqui ficam, à vossa consideração. Esperando que pelo menos alguns destes trechos possam funcionar como chamariz para leituras. E pedindo que me digam quais as frases ou parágrafos iniciais de que mais gostam.

«Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe.»
Bernardim Ribeiro, Menina e Moça (1554)

«Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda.»
Camilo Castelo Branco, A Queda de um Anjo (1866)

«Meu avô foi o Padre Rufino da Conceição, licenciado em teologia, autor de uma devota Vida de Santa Filomena, e prior da Amendoeirinha.»
Eça de Queiroz, A Relíquia (1887)

«O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival.»
Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras (1901)

«Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi; morto para a vida e para os sonhos; nada podendo já esperar e coisa alguma desejando – eu venho fazer enfim a minha confissão: isto é, demonstrar a minha inocência.»
Mário de Sá Carneiro, A Confissão de Lúcio (1913)

«Quando comecei a pôr vulto no mundo, meus fidalgos, era a porca da vida outra droga.»
Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922)

«O juiz mandou-me finalmente erguer e, sem tirar os olhos dum maço de processos que tinha na mesa, perguntou-me:
– Tem alguma coisa mais a alegar em sua defesa?»
José Rodrigues Miguéis, Páscoa Feliz (1932)

«Não gosto de viajar. Mas sou inspector das escolas de instrução primária e tenho obrigação de correr constantemente todo o País.»
Branquinho da Fonseca, O Barão (1942)

«Num dia de Abril de 1957, pela hora da tarde, apareceu em certa aldeola da costa um automóvel aberto, rápido como o pensamento.»
José Cardoso Pires, O Anjo Ancorado (1958)

«Não era por seu gosto que o funeral se encaminhava para o cemitério de Aldebarã. Nem todos os mortos merecem a mesma sepultura, essa é que é a verdade, por muito que doa aos vivos.»
Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

«- Não, meus senhores, a separação dos sexos, depois do jantar, à inglesa, é proibida cá em casa.»
Isabel da Nóbrega, Viver com os Outros (1964)

«Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento.»
Ruben A., A Torre da Barbela (1964)

«Enterrei hoje minha mulher – porque lhe chamo minha mulher?»
Vergílio Ferreira, Alegria Breve (1965)

«Cá estou. Precisamente no mesmo quarto onde, faz hoje um ano, me instalei na minha primeira visita à aldeia e onde, com divertimento e curiosidade, fui anotando as minhas conversas com Tomás Manuel da Palma Bravo, o Engenheiro.»
José Cardoso Pires, O Delfim (1968)

«Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de estender os braços.»
Nuno Bragança, A Noite e o Riso (1969)

«Há muitas coisas belas na terra, mas nada iguala a recordação de um dia de Verão que declina, e temos onze anos e sabemos que o dia seguinte é fundamental para que os nossos desejos se cumpram.»
Agustina Bessa-Luís, As Pessoas Felizes (1975)

«”Teve uma infância estranha”, disse Austin. “Em última análise, todas as infâncias o são”, disse Mister DeLuxe. »
Dinis Machado, O Que Diz Molero (1977)

«Ramon Berenguer de Cabanellas y Puigmal já era célebre, quando, por fusão de duas turmas, passou a ser meu colega no 6.° ano dos liceus.»
Jorge de Sena, Sinais de Fogo (1979)

«Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de Verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a em volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino.»
Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«Aqui o mar acaba e a terra principia.»
José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984)

«Eu nasci sob o jugo de Roma.»
João Aguiar, A Voz dos Deuses (1984)

«Na segunda quarta-feira de Setembro de mil novecentos e setenta e cinco comecei a trabalhar às nove e dez.»
António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)

«Ficou tudo às escuras nas escadas quando a porta se fechou atrás deles, e então Mitó atreveu-se a tomar a iniciativa de lhe procurar devagarinho a ponta dos dedos.»
Clara Pinto Correia, Adeus, Princesa (1985)

«Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeitara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa de San Bartolomé.»
Fernando Assis Pacheco, Trabalhos e Paixões de Benito Prada (1993)

«O disco amarelo iluminou-se. Dois dos automóveis da frente aceleraram antes que o sinal vermelho aparecesse.»
José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira (1995)

dos tempos do Liceu ‘sá nojeira’ e ‘Mousinho da Silveira’
‘ …qual fosse a causa, era pequena, não na soube’.
o Mandarim.
novelas do Minho.
fui aluno de José Régio e visitei a sua casa, apesar de não regressar aos locais de juventude.
o Malhadinhas é a 2ª figura do estado a ‘quisto xigou’
li a Retirada
Não aprecio muito o Régio prosador nem, de modo geral, a chamada segunda geração do modernismo português.
Mas tem alguns contos de que gostei.
Li muito de Saramago. Interrogo-me de onde provinha o seu fanatismo ideológico.
Separo sempre o artista ou escritor da ideologia que professa. É um bom princípio.
Concordo. E é um princípio que também deve ser aplicado a Pepetela.
De forma alguma.
Uma coisa é ter ideologia X ou ideias política Y, outra é fazer apelos públicos ao linchamento de seres humanos.
Você defende os linchadores, eu defendo as vítimas desses linchamentos.
Há todo um mundo a separar-nos.
Chii, não tarda nada começa a separar o valor do comentário da assinatura. O descalabro.
Se fizesse separações desse tipo, metade dos comentários do DELITO iam parar de imediato ao lixo. A minha margem de tolerância é enorme.
Fazia como fazem vários outros autores de blogues. Que interditam comentários ou só permitem comentários autenticados em papel selado e carimbo notarial.
Não é, nem nunca foi, a minha maneira de estar aqui.
Mas que raio de escritor conhece que escreva sem o seu, dele, cunho ideológico?
Migueis, Saramago e Alves Redol escreveram o que escreveram por serem comunistas.
Que bacorada.
É o mesmo que dizer que Ezra Pound escreveu o que escreveu por ser fascista. Ou que Malraux escreveu o que escreveu por ser gaullista.
Quem quer escrever manifestos políticos não faz literatura: dedica-se à propaganda.
A literatura começa onde os folhetos do catecismo político terminam.
Interrogo-me de onde provinha o seu fanatismo ideológico.
Claramente do ego dele. O talento artístico, que ele indubitavelmente também tinha, vem de outro lado.
Há quem admire escritores pela política, não pela arte.
Como um destes comentadores anónimos que vem derramar elogios aos “comunistas” que escrevem livros. Misturando escritores tão diferentes como Redol, Miguéis e Saramago.
Não lhe interessa a literatura: interessa-lhe o catecismo.
Se a qualidade literária se medisse pela ideologia, Cunhal merecia o Nobel da Literatura. Acontece precisamente ao contrário: nunca um propagandista político foi bom escritor.
Os melhores são os dois de José Cardoso Pires e o de Fernando Assis Pacheco. Prémios também para Jorge de Sena, José Rodrigues Miguéis e Agustina Bessa-Luís.
Mas algumas frases iniciais são muito, muito fraquinhas.
O início do único romance escrito por Assis Pacheco é genial, embora sejam duas frases, não apenas uma.
As minhas preferidas, só confessarei no fim.
O único livro autografado que tenho. Se o conseguisse encontrar, ia ler.
Morreu muito cedo, demasiado cedo.
Este romance, que se inspira na vida do avô galego de Assis Pacheco, é um dos melhores textos de ficção portuguesa da década de 90.
Muito bem escrito, impregnado de sentido de humor. E com um dos melhores inícios que conheço.
Mas algumas frases iniciais são muito, muito fraquinhas.
Sobre isto estamos de acordo
Meu caro, se quer uma amostra de entradas “muito fraquinhas”, mesmo muito, também posso arranjar aqui uma boa colecção delas.
Fica a ideia, talvez trate disso num dos próximos fins-de-semana.
Ahah. Venham elas.
Em primeiro, a do Malhadinhas e a do Benito Prada ex aequo. A da Agustina com a do Anjo Ancorado em seguida.
Muito bem, Miguel. Qualquer deles merece destaque. Eu – confesso – porei sempre essa frase inicial do ‘Malhadinhas’ em destaque. E todo o livro é assim, redigido nessa linguagem inconfundível: um longo monólogo do melhor que tem a literatura portuguesa.
Concordo. A escolher um, também vou pelo “Malhadinhas”.
O génio lexical de Aquilino está bem presente nesta frase inicial.
Também gosto muito do início d’ A Casa Grande de Romarigães. Mas considero este superior.
«Quando comecei a pôr vulto no mundo, meus fidalgos, era a porca da vida outra droga.»
Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922 )( o meu preferido)
«Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de estender os braços.»
Nuno Bragança, A Noite e o Riso (1969)
«Na segunda quarta-feira de Setembro de mil novecentos e setenta e cinco comecei a trabalhar às nove e dez.»
António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)
«Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeitara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa de San Bartolomé.»
Fernando Assis Pacheco, Trabalhos e Paixões de Benito Prada (1993)
Frases de que gosto muito também. A essas que destaca, juntaria só outras duas. Depois direi quais são.
«Na segunda quarta-feira de Setembro de mil novecentos e setenta e cinco comecei a trabalhar às nove e dez.»
António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)
Uma vez li algures uma discussão sobre usar ou não usar números em literatura (por exemplo, 9.10 em vez de “nove e dez”).
E fiquei na mesma. Sem opinião.
Há uma regra simples, que uso há muito: números por extenso entre um e dez. A partir daí, numeral. Excepto em cem e mil.
Parece-me um critério válido — talvez um pouco estranho depois na mesma página se aparecer um “nove” e umas linhas abaixo um “35”. Mas percebo o critério para evitar as proposições.
É sobretudo por isso.
No caso do exemplo do Lobo Antunes, escrever 1935 por extenso parece-me um bocado barroco. Aliás, como se trata de Lobo Antunes, se calhar devia mesmo dizer pedante.
Em Lobo Antunes o barroco não se estranha. Entranha-se.
Boa selecção. “Voto” na citação d’ A Relíquia”, talvez por imaginar que o Eça era tão genial que até já teria percebido que Santa Filomena não existira, e que por isso viria a ser “deslistada” pela Igreja Católica. Também em Nuno Bragança; por uma questão de parentesco, sabia bem o que ele queria dizer com “hálitos de faisão”. A obra dele (muito autobiográfica) adquire um gosto especial se se confrontar o que ele escreveu com o que era o mundo familiar dele.
Quanto ao Saramago, permita-me que discorde de si, embora perceba que eu possa estar errado: tenho dificuldade em apreciar o escritor quando acho a pessoa abjecta. Reconheço-lhe a qualidade, mas não consigo esquecer quem ele era. Embirrações… Antes ler em abortês…
A sua posição é defensável, não a contesto. 888097.html
Mas eu conheci Saramago, como já mais de uma vez escrevi aqui – e guardo dele uma excelente recordação, além de gostar muito de vários livros dele, começando pela ‘Viagem a Portugal’, como também já aqui assinalei.
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/1
Por ordem descendente as frases mais motivadoras para mim são dos seguintes autores:
– Eça de Queiroz, A cidade e as Serras.
– Branquinho da Fonseca, O Barão.
– Ruben Alfredo, A Torre de Barbela.
Registo com agrado as suas escolhas. A do Eça tornou-se célebre – quase tanto como a do Bernardim.
Há várias de que gostei. Talvez as preferidas sejam as de: Relíquia, Alegria Breve, As pessoas felizes, Para sempre. Gosto de frases curtas.
Quando era jovem era sectária nas escolhas literárias. Reconheço hoje que foi um comportamento estúpido.
Primeira menção a ‘Alegria Breve’. Para mim, uma das melhores frases iniciais de sempre da literatura portuguesa.
A de Agustina é paráfrase óbvia da abertura da ‘Ana Karenina’, de Tolstoi. Espécie de vénia em homenagem ao grande escritor russo que tanto a influenciou.
A do Eça é extraordinária. Começa da melhor maneira um romance magistral.
Agustina/ “As pessoas felizes”. Fez- me recuar no tempo. Os Verões passados no Alentejo com os primos,calor(muito),os lanches com as iguarias maravilhosas,tardes de banhos no lago,que hoje é praia fluvial e no fim do dia o convívio e bailes ao ar livre. Sem preocupações e com tanta alegria!
Um dos melhores livros de Agustina, escritora que se ama ou se detesta com facilidade.