
Por estes dias, como creio já ter dito, é muito raro comer fora. Cozinho quase sempre e sem sacrifício algum. Cozinhar tornou-se um dos meus passatempos favoritos. É um desafio que começa antes de me aproximar do fogão: também gosto de elaborar ementas, de preparar os ingredientes, de descobrir novas receitas. É algo que me relaxa enquanto me desafia não apenas na criatividade mas também na precisão: um minuto de diferença, a mais ou a menos, pode estragar um prato.
Foi este o desafio que lancei a mim próprio ao iniciar-me nestas lides. Jurei jamais recorrer a um restaurante como via alternativa (tenho sete a poucos metros da porta de casa). Comeria sempre o que fizesse, fosse qual fosse o desfecho. Esta exigência pessoal reforçou a necessidade de me safar bem entre caçarolas e frigideiras.

Mas por vezes abro uma excepção. Aconteceu há poucos dias: quis matar saudades de um dos meus restaurantes favoritos. O Nortada, a curta distância da Praia Grande, no concelho de Sintra.
Há uns tempos que lá não ia. Soube-me bem contemplar de novo aquela paisagem inigualável, na sala exterior do restaurante. É cenário que nunca me canso de desfrutar, mesmo em dias de Primavera envergonhada.
Sala espaçosa, desafogada, inundada de luz, com amplas vistas sobre o jardim adjacente e o oceano um pouco mais abaixo. Toalhas de pano – hoje quase um anacronismo. E talheres de peixe, como mandam as boas regras. Serviço irrepreensível.
A nosso lado, um pequeno grupo de italianos fazendo jus à gastronomia lusitana. À mesa, poucos como eles sabem apreciar o que é realmente bom.

Começámos por partilhar uma entrada soberba, só disponível naquele dia: tártaro de atum com manga. Casamento perfeito entre o peixe cru, marinado com sapiência, e o doce fruto tropical. Por ser dia de aniversário, justificava-se a escolha de um vinho especial: veio o Cartuxa, um dos meus brancos de eleição.
Seguiram-se filetes de pescada com arroz de berbigão: polme discreto, sem vestígio de gordura em excesso, confecção apuradíssima da popular gramínea que alimenta metade da população do mundo. Seco, consistente, apaladado. É assim que gosto dele.


Depois fizemos honras ao polvo assado com batata doce – confesso que raros petiscos me mobilizam tanto como o octópode, que congrega adeptos de norte a sul do país. Tenro e sápido, em perfeita comunhão com a batatinha de Aljezur a que apetece dedicar um hino.

Aniversário justificava sobremesa: compareceu um magnífico leite creme em massa filo. Para encerrar a refeição com chave de ouro.
Despedi-me do Nortada com um “até já”. Fazendo votos para que nunca figure num guia Michelin. Prefiro-o assim, sem ceder a padrões alheios, tão avessos à nossa tradição gastronómica e tão propícios a preços que se tornam proibitivos.
Para que possa haver outros dias de celebração como este. Com sol ameno e o mar amigo ali tão perto, num cíclico sussurro de parabéns.


aos 91, 2-3dias/semana, cozinho em fogão eléctrico de indução. peixe ou carne grelhada ou cozida acompanhada de hortaliça e massas diversas. sabores de especiarias locais e outras. no intervalo frutas e queijos sápidos.
começo o dia às 7 a pedalar + de 20 min, após ingestão de 0,5 l de água para compensar perda nocturna.
Parabéns pela resistência e pela tenacidade. Outros, muito mais jovens, já teriam mergulhado na indolência definitiva.
muito cuidado!
«pela boca não é só o peixe que morre!»
Precaução geral. Atenção ao excesso de consumo de carne vermelha, carnes processadas e açúcar – incluindo bebidas açucaradas.
Prioridade ao peixe e a vegetais de todo o tipo.
SAP3i, a minha paciência é quase inesgotável, mas não me apetece aturar tanta alarvidade. Vai fazer companhia ao “vento” com bilhete só de ida para o arquivo geral.
Passe bem.
Até que enfim!
Polvo, todos os dias! Comida com um aspecto de fazer salivar .
Os cefalópodes deviam de ser protegidos por lei de esfomeados insensíveis!
Muito pior que os esfomeados são os anónimos insensíveis à gastronomia. Mereciam comer uma pizza descongelada no micro-ondas todos os dias.
Bem bom!
Brrrr… só a ideia causa arrepios
Nunca me canso de polvo, Dulce. Noutros tempos cheguei a ir ao saudoso Aleixo, no Porto, comer filetes de polvo com arroz do dito. Seco e solto, como gosto. Nada de “malandrinho” ou afogadinho para comer à colher em jeito de sopa. Não me convidem para isso.
Também aprecio muito o da Ericeira e o de Santa Luzia, em Tavira. Dois dos meus poisos gastronómicos habituais.
Saiba que também eu era apreciador dos filetes de polvo do Aleixo. Era.
Dizem-me que há um sucedâneo do Aleixo, mas prefiro conservar as boas memórias do passado. E procurar outros poisos.
Felizmente não faltam no Porto. Num deles (digo com algum orgulho) ostentam até um artigo meu emoldurado na parede.
Tão bom! Ainda há pouco almocei e já comia um belo arrozinho de polvo.
Eu quando almoço não janto e quando janto não almoço. Excepto em dias de futebol. Excentricidades de aficionado da bola…
(Quer dizer que hoje, tendo almoçado, vou jantar também.)
As suas descrições desta rubrica “Comer”, são excelentes!
Obrigado. Serão, quase sempre, sobre aquilo que cozinho. Mas vou abrindo umas excepções, como hoje aconteceu.
Como já por aqui escrevi, casei tarde, com 39 anos. Na Primavera seguinte, tirámos uma semana de férias para aproveitar uma estadia num aldeamento de Vilamoura, cortesia do banco onde trabalhava. Levámos dois sobrinhos da minha mulher, na casa dos 10/12 anos, e a minha mulher preparou previamente várias refeições. A primeira foi arroz de polvo. Estava tão duro que só eu consegui comer (que saudades dos dentes de então). Como mais ninguém comeu, fiz 4 refeições seguidas de arroz de polvo.
Tenho mais historietas deste género. Se tivesse pachorra, reunia-as num livro para consumo familiar. Título já tinha: “Crónicas dos novos pobres”.
Eheheh. Eu teria cromos para a troca nessa matéria, se fosse o caso. Mas não é. Essas memórias, em larga medida, também contribuem para nos educar o paladar.
Um pouco como a dicotomia Bem/Mal. Se não houvesse Mal, ninguém valorizaria o Bem.
Conheço bem. A última vez que lá fui (durante umas curtas férias, já faz uns três anos), provei o filete com arroz de berbigão na “sala” de fora virada a Sul. Simples e saboroso. Dia de semana, pouca gente, sossego, paisagem e ambiente espectaculares. Costuma ter uma excelente escolha de peixe.
Exactamente como eu, há 48 horas.
O polvo, o rico polvo para os pobres.
Era assim, nos anos da vida barata (nunca percebi ter havido tempo de vida barata), para quem morada próximo do mar, com rochedos de preferência.
Os polvos apanhavam-se simplesmente à mão, a seguir ao engodo com um pano na ponta de uma cana. Depois virava-se a cabeça ao contrário e ficavam sossegados.
Em casa levavam um boa tareira com um pau, depois cozidos com batatas, hortaliça e cebolas. Quando a cebola estivesse cozida, o polvo estava pronto e esperava-se pelas batatas avermelhadas para servir a refeição regada com azeite e vinagre de vinho tinto.
Com arroz nunca era feito, primeiro por o arroz ser comprado para a canja de doentes e segundo para fazer arroz doce para as visitas.
Em certas épocas do ano, davam ao areal da Costa da Caparica milhares de caranguejos mortos, o queria dizer que muitos mais milhares haveria dentro d’água. Quem conseguisse acompanhar os pescadores da Trafaria, e, utilizando apenas barbatanas e máscara, mergulhava quando os pescadores estavam a retirar os potes. Com um mergulho de pouco mais de dois metros via-se o fundo com milhares de caranguejos e centenas de polvos em grande repasto.
A tempura ( do “tempero” português?) de polvo feito nos restaurantes japoneses passado por um polme e frito é uma delicia.
Grato pelo seu depoimento, embora anónimo. Gostei muito de ler.
Obrigado por ter gostado, e anónimo nem tanto.
Como, agora, tem tempo, experimente uma refeição completa só com um polvo, um bom polvo congelado marroquino, que só come caranguejos.
Dá para fazer uma salada de polvo de entrada, umas espetadas com camarão de bocados da parte mais grossa e do resto à lagareiro.
Cuidado, não abusar do polvo à lagareiro por poder causar viciação irreversível.
Eheheh. Vou experimentar.
Lembro-me do meu espanto, na primeira vez em que cozinhei polvo, ao perceber como ficava reduzido com a cozedura.
Encomendado a uma equipa de publicitários, ou marqueteiros, nunca uma promoção de um restaurante poderia ser tão bem conseguida.
Fosse eu dono do Nortada e estava já a tratar de te enviar um passe VIP, desconto 120% ou qualquer outra coisa que compensasse um postal destes, Pedro. Este tipo de elogio, espontâneo e vindo da boca de um freguês, só é possível se se assentar em qualidade objectiva.
Eu fiquei convencido. Na rubrica “Restaurante obrigatório” do meu Google maps, vou já adicionar um alfinete.
Obrigado pelas tuas palavras, Paulo. Este é um texto de um cliente já antigo de um restaurante onde fui várias vezes e onde me senti sempre como se estivesse em casa. Agora, que cozinho quase todos os dias e saio muito menos do que saía, posso escrever isto ainda com mais convicção.
Boa tarde Pedro Correia
Pela excelente descrição presumo que está felizmente de boa saúde.
A minha respeitosa chapelada pela partilha, texto e fotografias.
Aqui na aldeia o tempo vai melhorando e hoje depois da missa das 1200h comi fora, aqui na aldeia.
Também eu cozinho bastante em casa, e quase tão bem como a minha querida mulher.
No meu blogue poderá ver um ” cheirinho” do repasto, na mesa da figueira, ao ar livre, com ótima vista para a Gardunha. Bom Domingo. Saúde.
António Cabral
As saudades que eu tenho dessa bela paisagem, caro António. Paisagem de tantos dias felizes da minha meninice.
Votos de boa semana, com saúde.
Subscrevo o que o Paulo Sousa diz… Quanto ao manjar – e ainda que eu, boa boca mas conservadora, torça o preconceituoso nariz a algumas das opções (manga no atum!!!…) – criou-me vontade de conhecer esse Nortada a norte do Tejo.
Antes haveremos de picar umas chamuças, camarada. Mais cedo que tarde.
Por falar em chamuças,tenho que ir ao mercado de Alvalade descobrir a banca que recomenda. A sua escrita é tão realista,que apetece ir logo tratar da ementa. Já pensou escrever um livro sobre essas suas memórias gastronómicas?😀
Grato pelas suas palavras. Por acaso ando a preparar dois livros, mas nenhum sobre gastronomia. Isso fica para o blogue.
Magnífico postal gastronómico!
O melhor polvo que comi foi no Tarrafal, num restaurante com vista sobre o mar. Polvos pequeninos acabados de pescar e grelhados no carvão. Tão simples e tão bons! A atmosfera também deve ter ajudado. E aquela sensação única de vagar se tem em em terras Africanas…
Obrigado, Susana. Para comer polvo, contem sempre comigo. Em arroz, em filetes, em pastéis, cozido, grelhado, assado, à lagareiro, na cataplana, em caldeirada…
Nunca fui à Praia Grande. Pergunto: é mesmo uma praia, com areia onde se possa estar a apanhar sol? Ou é só rochas? (No google maps não vejo indicação de que tenha areia, por isso pergunto.)
Mexa as perninhas e ponha-se a caminho. Não é longe.