Estava a ler na Philomag as conclusões de um inquérito que fizeram em França sobre a felicidade: “a satisfação geral com a vida é maior no final da adolescência e diminui continuamente até aos 50 anos de idade, altura em que aumenta lentamente até aos 65 anos de idade”, quando as preocupações com as escolhas de vida, juntamente com as dificuldades de conciliar a vida profissional com a vida familiar, desaparecem. “Depois desta idade, a satisfação cai rapidamente” até ao fim da vida. A deterioração das capacidades físicas é um factor importante. Os meios financeiros também desempenham um papel, assim como a dimensão da habitação, a sua localização, o acesso a actividades de lazer e a riqueza das relações sociais.”
Estes dados falam-nos das condições necessárias, mas não suficientes, para uma vida feliz. A felicidade é outra coisa diferente de estar satisfeito com as condições da sua vida. Determinar o que é a felicidade é muito difícil. Este ano tenho um aluno um bocado obcecado com a questão da felicidade ser impossível face à nossa condição de mortais. Outro dia perguntou-me, “como é que eu sei se sou feliz? Qual é o critério para se aferir da felicidade?” E depois acrescentou, “e de qualquer maneira, que interessa ter uma vida com momentos felizes se acaba tudo na morte?” Na verdade, tocou em dois pontos fundamentais da existência: o da felicidade, que não sabemos ao certo o que é e a do sentido da felicidade numa existência breve, mortal.
Aos políticos exigimos o trabalho da justiça social para que possamos ter acesso às condições necessárias a uma vida feliz, mas isso não garante a felicidade, que é particular e subjectiva. A condição das condições de acesso necessárias a uma vida feliz é a liberdade. Talvez por isso na Ucrânia se batam até à morte pela liberdade.
também publicado no blog azul

« Tristeza não tem fim (tristeza não tem fim)
Felicidade sim
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar… »
«Felicidade pode ser definida por um momento em que há a percepção de um conjunto de sentimentos prazerosos. A felicidade é um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude são transformados em emoções ou sentimentos que vão desde o contentamento até a alegria intensa ou júbilo. A felicidade tem, ainda, o significado de bem-estar espiritual ou paz interior. Existem diferentes abordagens ao estudo da felicidade – pela filosofia, pelas religiões ou pela psicologia. O ser humano sempre procurou a felicidade. Filósofos e religiosos sempre se dedicaram a definir sua natureza e que tipo de comportamento ou estilo de vida levaria à felicidade plena.»
sempre me senti feliz comigo próprio por maior que fossem as dificuldades, foram e são muitas
isso são definições de felicidade do ponto de vista da saúde, mas não dizem a ninguém o que é a felicidade, só dizem que tipo de emoções biológicas acompanham o estado de felicidade: a excitação, a alegria, a satisfação, a calma, etc.
Ainda bem que se sente sempre feliz consigo próprio. Eu tolero-me. Nos dias bons.
1 – Mas na Ucrânia já tinham a Liberdade. Era o zelensky que governava.
1.1 – Se não quisesse tirar a liberdade aos «ucranianos pró-russos» que nasceram na Ucrânia (perseguindo-os e bombardeando-os durante 8 anos) — como se não fossem tão ucranianos como ele – ninguém, nem Putin, importunava a sua Liberdade.
2 – Parafraseando a pergunta do Post, apetece perguntar: “Que interessa ter uma vida com momentos felizes [ou a Liberdade] se acaba tudo na morte”?
3 – O tal critério, portanto, nunca está “dentro daquilo que somos” (ou dentro da Vida que podemos viver)… seja rica ou pobre, seja mais livre ou mais subjugada, tenhamos mais saúde e bens materiais ou menos, seja feita de sofrimento e dor ou de prazer, etc.).
4 – O critério está inevitavelmente “fora” daquilo que somos, imaginamos, e conseguimos.
5 – Logo, neste raciocínio, será necessário que acreditemos que estamos a contribuir para um “Ser que Há-de Vir”, e que ainda não chegou cá.
6 – A esse movimento dei o nome de “Impronuncialismo” na “Exposição” que fiz em 2012 na LxFactory e no “Manifesto” que apresentei na NOVA (faculdade de ciências sociais e humanas)… Porque se ainda cá não chegou, não sabemos o que é, nem temos ainda palavras capazes de o pronunciar.
7 – Logo, o critério é sempre um acto de altruísmo e generosidade para uma coisa e um futuro que não temos a certeza se vai ocorrer. Um acto de Fé. Sem esta condição utópica e ilusória, e sem esta dádiva sem retorno, jamais poderemos alcançar a tal “Felicidade”. O que é paradoxal e absurdo, mas não deixa de ser por isso “verdade”.
8 – No meu caso, essa condição é expressa no meu nick «SAP3i» (clicar no nick), acrónimo da propriedade física «singularidade autónoma perpétua, insolúvel, indecomponível indestrutível». É para esse objetivo “fora” do que sou (quiçá post-humano), que faz sentido a Vida e a “felicidade” por a viver (independentemente de serem outros a alcançarem essa propriedade física, muito depois de eu ter desaparecido).
9 – Em janeiro de 2012, num artigo na revista “Sciences Humaines” n.º 233 intitulado “Repensar o Humano” (pág.56) , Xavier Molénat cita Cyril Lemieux: “Todos os indivíduos humanos possuem três competências antropológicas: a capacidade de amar, a capacidade de calcular, e a capacidade de fazer juízos morais”.
10 – Seja como for, cá estamos, não podemos evitar isso, e iremos inevitavelmente desaparecer (ou transformarmo-nos noutra coisa). Mas esta absurdidade e efemeridade, o termos consciência dela, não nos faz sorrir e ter um pouco dessa tal “felicidade”? Fazermos parte de um “mistério” não é estar dentro de uma história curiosa e interessante?
Diz tanta coisa que não dá para comentar todo o comentário de maneira que ‘pronuncio-me’ apenas sobre 3 delas:
A Ucrânia tinha a liberdade cerceada e depois tentaram anulá-la e está a bater-se por ela.
Em relação a esse impronunciável que está para além dos limites da linguagem, é como a felicidade, todos a buscam e falam dela mas ninguém sabe dizer o que é. Ou talvez seja mais próximo do numinoso e como diz Protágoras (mais ou menos), o que não pode partilhar-se pela linguagem não pode constituir-se como Ser – ou se pode já não é Ser e não está fora dos nossos limites humanos.
A história é certamente curiosa e interessante, mas se é feliz é outra história.
1 – A “felicidade” é um assunto “mal enunciado”, no sentido do hinduísmo. Ou, um não-problema, no sentido de L.Wittgenstein.
2 – Para o Sâmkhya, o karma do Si é ter de Viver (ser-se obrigado a ter Vida e a vivê-la). A Libertação do Si (a libertação do karma) é deixar de ter Vida para se poder ser eterno.
3 – Se no “Ser” de Heidegger não existir esse “Si” (hindu) — isto é, se o Ser não contiver o Si — então, a concepção de Heidegger de que o “Ser é o Tempo” valerá também para o Si. O que difere e contradiz a tese hindu.
4 – Nesse sentido o Ser (o que somos actualmente, em termos anatómicos, proteicos e moleculares) é mais efémero do que o Si.
5 – Logo, se o Si não é o Ser, a “felicidade” do Ser deixa de ser relevante. Desaparece enquanto questão ou problema. É projectada para esse, que «há-de vir».
6 – Passo a citar: — “O Sâmkhya sabe que a causa da «escravidão», isto é, da condição humana, do sofrimento, é a ignorância metafísica, que, em virtude da lei kármica, se transmite de uma existência a outra; mas o momento histórico em que essa ignorância surgiu não pode ser determinado com exactidão, do mesmo modo que é impossível fixar a data da Criação. A ligação do Si e da Vida, assim como a «escravidão» que daí decorre (para o Si) não têm história, estão para lá do tempo, são eternas. Querer encontrar uma solução para estes problemas não é apenas inútil, é uma infantilidade. São problemas mal enunciados, e segundo um velho costume bramânico, observado muitas vezes pelo próprio Buda, a um problema mal enunciado responde-se com o silêncio. A única certeza que podemos ter a este respeito é que o ser-humano se encontra nesta condição desde os tempos mais remotos, e que a finalidade do conhecimento não é a vã pesquisa da causa primeira e das origens históricas de tal condição, mas a libertação do Ser e da Vida que se é.” (Mircéa Eliade, 1962).
O problema da felicidade não me parece mal enunciado pelo meu aluno, antes pelo contrário.
De resto, não sou crente em vidas depois desta vida, a não ser como átomo, partícula, fotão, em última análise.
1 – “Mal enunciado”, no sentido Lógico (tanto na perspetiva de Wittgenstein, formulada no “Tractatus”; como no sentido de Heidegger).
2 – Essa mal-enunciação tem sido debatida em relação a muitos outros conceitos e domínios.
3 – E tem a ver com o limite cognitivo humano, de necessitar da “diferença” (do estabelecimento de uma distinção) para definir, categorizar e compreender tudo o que o rodeia.
4 – Uma questão que vem desde Platão, com a diferença entre “noumena” e “phenomena”. E que será debatida por Leibniz, Hegel, Husserl, Heidegger, Derrida, e outros.
5 – Neste caso da “felicidade” (como no caso do “belo”, da “vida”, da “moral”, da “ética”, do “mal”, do “bem”, etc.) há dois tipos de definições: — Os que acreditam que há uma definição Absoluta e Universal; e os que acreditam que isso é impossível, e que só se consegue definir uma coisa pela Relação que estabelece com outra (que lhe serve de referência ou contraponto). Portanto, se a resposta está no interior da coisa; ou se a resposta está fora da coisa, na relação que estabelece com outras.
6 – Heidegger aborda essa questão em “Die Frage nach dem Ding” (“O que é uma Coisa?”) e em “Der Ursprung des Kunstwerks” (“A Origem da Obra de Arte”), exatamente, como referi atrás, separando a “coisa” da “coisalidade da coisa” (estabelecendo uma distinção entre Si e Ser).
7 – Logo, perguntar “o que é a felicidade?”, sem se perceber que a resposta está condicionada a esse limite cognitivo, e sujeita a uma escolha pessoal a priori (entre uma definição “Absoluta e Universal”, como uma “coisa em si” / “Ding na sich”; e uma definição “Relacional e Relativa”) é cair nessa mal-enunciação.
8 – “Felicidade” não é um problema do Mundo ou da Vida; é um problema de quem quer estar no Mundo e viver a Vida à sua maneira. Não releva para aquilo que é o Mundo ou a Vida enquanto “noumena” (não dependem do sujeito ser feliz ou não para continuarem a existir)
Eu conheço o problema da enunciação dos problemas.
Portanto, a “felicidade”, só não é um problema mal-enunciado … se for um órgão, ou um gene (uma instrução particular, que codifica uma determinada proteína).
Só desse modo seria “noumena”, e não dependeria da interpretação e do sentido relativo e relacional que lhe pudessem dar de fora.
Será? Será uma substância química, que indica aos sistemas humanos por onde é o caminho da Continuidade?
Nada obsta, a que não possa ser.
Não estou de acordo com essa interpretação da questão, porque não acredito na existência de um “noumena” (que mesmo que exista é incognoscível), nem concordo que seja uma questão genética e penso mesmo que a felicidade é dinâmica, hermenêutica e relacional. E se calhar há problemas que não são uma questão de má formulação, são apenas aporéticos, como as linhas assimptóticas que se aproximam ao infinito sem nunca se tocarem.
Mas não é por ser incognoscível (por ainda estarmos neste estádio evolutivo limitado) que os fenómenos do Mundo não existem.
No caso da “felicidade”, parece-me que é: — Ou, uma pura invenção; ou uma sensação causada por um processo epigenético, com uma qualquer utilidade adaptativa.
Há uma terceira possibilidade: — Ser um vírus, capaz de nos infectar.
Mas então toda a vida se reduz a processos biológicos evolutivos e tudo o que não pode ser explicado à luz darwinista não existe sequer?
1 – Sim. A Vida é o domínio do Ser (da química, biologia e psicofisiologia), não é o domínio do Si-próprio.
2 – A Vida é o karma, do qual o Si se tem de livrar para alcançar a “libertação” (no sentido do hinduísmo), a “eternidade” (no sentido do catolicismo, expresso na epístola de S.Paulo aos Coríntios), a “Continuidade” (no sentido dos vários filósofos referidos, incluindo cientistas).
3 – A Vida é, como referi antes nos textos que mencionei, constituída pela parte biológica, psicológica, emocional, anatómica, molecular e proteica. É um mero suporte efémero, que a história da Filogenia nos ensina (desde o seu aparecimento há muito milhares de milhões de anos na Terra) estar condenada a uma permanente transformação e adaptação darwinista e epigenética.
4 – A revolução e a mudança actual no conceito de Ser-humano é exatamente essa. Cujas repercussões se estão a sentir no modo de lidar socialmente e moralmente com o “género”, o “corpo”, o “amor”, o “casamento”, a “família”, a “procriação”, a “igualdade”, o “sentido para a Vida”, a “felicidade”, etc.
5 – A separação entre o Ser (aquilo que é a Vida) e o Si (aquilo que consegue permanecer com a propriedade SAP3i, e pode ser transmissível para além da Vida biológica do Ser) ganhou uma nova escala e proporção.
6 – Perante os actuais avanços científicos e tecnológicos, essa separação abriu novas perspetivas (não-darwinistas e não submetidas ao biológico) para a organização da moral, da ética, e do próprio «modo do Si usar o Ser».
7 – O Si passou, agora, a ser algo muito mais concreto do que era anteriormente. Quando era tido por mera “espiritualidade”, “espírito”, “mente” ou “fantasia hermenêutica e filosófica”.
8 – Agora é um assunto muito mais de engenharia, de programação e de configuração organizacional; do que de conjeturas espirituais, estados emocionais ou reflexões mentais do espírito.
9 – Em suma, é uma nova etapa do «uso do Ser/Vida pelo Si» — nunca antes tão conseguido, concreto e palpável.
10 – O problema é que, ao contrário da Vida e do Ser (da biologia), não temos um passado e uma memória que nos permita perceber e prever como funcionará esse Si. Não sabemos como esse Si vai usar, manipular e configurar o Ser e a parte biológica. Daí, as preocupações com o “sentido”, a “felicidade”, e outras coisas basilares, que construíam o edifício daquilo que julgávamos ser.
11 – O erro de enunciação poderá ser esse, de ainda julgarmos que essas coisas anteriores serão relevantes para o presente e futuro
Os não-problemas de Wittgenstein têm a ver, de facto, com a maneira como as coisas são enunciadas — mas porque é necessário que o contexto em que algo é enunciado seja o mesmo, não é porque haja problemas que não são relevantes para a Filosofia ocidental. Podemos ir pelo outro lado da proposição e concluir que qualquer coisa que esteja bem enunciada é relevante.
E até por causa desse sentido wittgensteiniano, tenho algumas dúvidas em recorrer às teosofias hindus, neste caso.
P.S. Como não falamos Alemão, não conseguimos fazer filosofia sem colocarmos palavras em itálico.
Não sou entendido no conceito académico da coisa, Beatriz, mas acho que é tudo uma questão de perspectiva. Há pessoas pobres que irradiam alegria e “felicidade” e também o contrário. É aceitável dizer que apenas com algumas condições materiais é possível assegurar a dignidade humana, mas daí por diante o patamar material para a “felicidade” depende, mais do que qualquer outra coisa, da expectativa de cada um.
Da mesma forma que um miúdo pobre, algures num país igualmente pobre, é feliz a correr atrás de uma bola, o ditador Putin seria feliz com o subjugação da Ucrânia. Serão estas “felicidades” comparáveis?
Podemos levantar outro critério, que nos leva também para outro beco sem saída, e que se prende com a normalidade. O que é que faz feliz as pessoas “normais”? Primeiro teríamos de definir “pessoa normal” e por isso nunca mais saímos daqui.
Por isso, acho que as pessoas sentem-se felizes quando sentem que contribuem para que se alcancem coisas positivas, sendo coisas positivas, aquilo que leva outras pessoas a sentirem-se igualmente satisfeitas e realizadas. Conseguir rodear-se de pessoas com quem se partilhem objectivos positivos, será uma forma de se sentir positivo e, provavelmente, “feliz”.
Ajudar os mais novos a desenvolverem capacidades para que consigam rodear-se de quem possam partilhar objectivos positivos, será ajudar a “felicidade” deles.
Pois, esses sentidos de felicidade parecem-me muito válidos, apenas com uma dúvida e uma questão. Dúvida: uma pessoa adulta pobre (não sendo inconsciente) pode irradiar alegria e felicidade? Talvez num momento, não? A privação de quase tudo, como acontece na pobreza, torna a vida tão limitada e com tantos obstáculos que o tempo todo é de buscar comida e outras coisas e não há espaço para a felicidade. Parece-me. Uma questão quanto às expectativas: se para se ser feliz é necessário ajustar as expectativas todas por baixo o que se encontra depois é felicidade?
Quando falo nas expectativas não acho que seja necessário baixá-las de forma a encontrar a “felicidade”. O que vejo à minha volta é que quantos mais altas elas são as expectativas mais difícil é evitar o desapontamento, que afasta o tal sentimento de “felicidade”.
Por vezes a vida dá reviravoltas e isso entra em choque com as tais expectativas.
Quando essas reviravoltas levam a um retrocesso material pode tornar-se muito difícil levantar a cabeça e recomeçar, até porque a isso também se pode acumular com uma idade que não permita grandes manobras.
Quando essas reviravoltas levam a uma muito significativa melhoria material, também podem criar casos em que os próprios ficam sem saber o que fazer, e isso também pode levar a tremendas rupturas. Um amigo contou-me uma história de alguém que, sem contar, herdou uma propriedade significativamente valiosa e num curto período de tempo multiplicou várias vezes o seu património. “Sabes qual é que foi a primeira coisa que ele fez? Divorciou-se.” Fora qualquer consideração mais ou menos jocosa, não podemos dizer que coisas deste tipo sejam totalmente surpreendentes, exactamente por causa das tais expectativas. Este caso terá sido desencadeado exactamente pela sua ruptura e desencontro.
Os alunos adolescentes aprendem isso muito rapidamente e apenas num par de anos porque uma grande maioria tem grandes expectativas muito elevadas, mas não trabalham para que elas se realizem de maneira que ajustam as expectativas muito rápida e pragmaticamente à realidade.
Tento não pensar na felicidade, basicamente para ver se a encontro de vez em quando. Resumi o tema comentando um livro neste post:https://imagenscomtexto.blogspot.co m/2010/07/procura-da-felicidade-tomei-no ta-da.html mas se tiver paciência pode ver os posts do meu blogue contendo a palavra “felicidade” usando este link: https://imagenscomtexto.blogspot.com/sea rch?q=felicidade
Também acredito nesse princípio – quanto mais nos preocupamos com isso menos felizes somos. E também porque acredito que a felicidade é um produto-secundário.
Obrigada pelos links. Vou ler.
Ser feliz depende da perspectiva.
Eu diria que não ter quem nos chateie a cabeça ajuda
Não conviver com pessoas tóxicas, ter saúde, poder ter casa e poder comer.
Depois uns são felizes na festa do avante e outros no pontal, outros em Fátima e outros em Meca.
Eu diria que os três principais factores são saúde, dinheiro e nao ter quem nos chateie.
Esses estudos valem o que valem.
Já li um que dizia que as mulheres eram mais felizes quando eram feias pelo que acho que esses estudos são uma tanga
Antigamente fazia estudos sobre sexo agora é sobre felicidade.
Não de muita credibilidade.
O seu aluno parece um pouco desiludido.
Eu diria lhe para, ouvir bob Marley, ler bons livros e nunca casar.
Deve chegar para ser feliz!
Que foi?
Eu fiz um estudo!!!
Para quem não liga a estudos tem muitas receitas 🙂
O meu aluno é adolescente. Os adolescentes estão naquela idade em que a questão da definição da identidade se torna muito premente e é isso que ele procura e depois, como lê muito e pensa está cheio de dúvidas e desconfortos.
Um ex-colega meu, na juventude, disse-me mais do que uma vez que o objetivo da vida não era a felicidade. A Beatriz pode tentar explicar isso ao seu aluno.
Esse ponto de vista kantiano já foi discutido em aula.
1 – O que mudou na questão da “enunciação” (desde Wittgenstein, do teorema de Gödel, da linguística, e do “estruturalismo”) foi percebermos que a “linguagem” é um limite lógico e psicofisiológico que pertence ao domínio da Vida (é uma coisa do Ser).
2 – Que a linguagem e a enunciação eram a condenação (subjugação, prisão) do Si feita pelo Ser (isto é, pela química, biologia, psicofisiologia, emoções, percepção, sensações que constituem a Vida).
3 – Que não é a “linguagem” que separa e comanda o Si, de nós próprios. Logo, que, doravante, não é através da linguagem e da enunciação (seja do que for) que decidiremos o nosso presente e futuro. Esse Poder da linguagem e da enunciação foi derrotado.
Ai foi? Derrotado por quem/quê? Não é o que estamos a usar aqui mesmo?
1 – Totalmente de acordo! Estamos aqui a exercer o último estertor dessa derrota, de ainda não termos outro meio para discernirmos «o que nos rodeia», «nós-próprios», e «esse Si» — o qual, já comanda o nosso Ser biológico (dito Homo sapiens sapiens, pelo nosso actual Conhecimento).
2 – A diferença — em relação ao destino a que Wittgenstein nos queria condenar — é, agora, não ficarmos em “silêncio”… E revoltarmo-nos com violência contra essa condenação e esse limite.
3 – É bela, a maneira como Wittgenstein nos condena à linguagem:…
3.1 – “A Lógica enche o mundo; os limites do mundo são também os seus limites. Assim não se pode dizer em lógica: «no mundo há isto e isto, mas não aquilo». Aparentemente isso pressuporia a exclusão de certas possibilidades, o que não pode ser o caso, uma vez que a Lógica iria para lá dos limites do mundo, como se também desse lado fosse possível considerar aqueles limites. Aquilo que não podemos pensar, não podemos pensar; também não podemos dizer aquilo que não podemos pensar” (5.61, Tractatus Logico-Philosophicus)
3.2 – “Acerca daquilo de que não se pode falar, tem que se ficar em silêncio” (6.54, Tractatus Logico-Philosophicus).
4 – Sobre esta questão há um texto muito interessante, em “Pragmatics of Human Communications: A Study of Interactional Patterns, Pathologies, and Paradoxes” (1967, P.Watzlawick, J.Helmick Beavin, Don D. Jackson, W.W.Norton, New York), intitulado na edição francesa de 1972, “Point de vue sur l’existentialisme et la théorie de la communication humaine” (pp.261-280). Que começa com uma citação de Epiceto (“Ce ne sont pas les choses qui nous troublent, mais l’opinion que nous nous faisons des choses“).
5 – Mas este debate não é, na minha opinião, sem consequências práticas. Tem (teria) consequências, que exigiriam ao sistema de Ensino organizar de modo diferente do actual as salas-de-aula. Porque serão os países que o fizerem, que suplantarão os outros.
6 – Essa diferença no Ensino, e na organização das salas-de-aula, vê-mo-las nas escolas e colégios da elite (desde o 1.º ao 3.º ciclo)). Concretamente, uma Escola organizada nas seguintes 5 salas/espaços de ensino e aprendizagem: sala Build Control, sala Research Develop, sala Create and Edit, sala Present and Share, sala Code Tec (aulas teóricas).
7 – Ainda não temos palavras para o exprimir e dizer, mas já sabemos como derrotar a “enunciação” e essa condenação à linguagem.
Wittgenstein mais à frente na vida retratou-se desse radicalismo da linguagem.
Eu sei.
Mas essa “desculpa” não serviu para resolver a questão.
Mas, se me permite, regressemos àquilo que o seu aluno escreveu. Para servir de exemplo ao limite da enunciação.
O seu aluno não formulou uma «pergunta», deu uma «resposta» (em formato de pergunta). Usou essa fraqueza e arbitrariedade da linguagem (essa polissemia e plurissignificação que a lógica da linguagem não consegue resolver) para afirmar uma opinião. E a Beatriz deu importância a essa pergunta do seu aluno porque aceitou a resposta que a pergunta escondia: «De que a Felicidade e a Morte estabelecem obrigatoriamente uma relação. Dependem uma da outra». Entrou em empatia com essa relação afirmada a priori.
Ora essa relação está ainda por provar e demonstrar.
A Felicidade pode não ter nada a ver com a Morte.
Num passado recente, e nos anos anteriores a esse passado, esse modo de enunciar tinha relevância. Mas actualmente, com os avanços na ciência e tecnologia, a morte da parte biológica está quase a ser resolvida, já não é um problema existêncial para o Si. E o nível de complexidade cognitiva e cultural das actuais sociedades já têm coisas mais importantes do que a Felicidade.
Portanto, a relação estabelecida a priori ente Felicidade e Morte pelo seu aluno, é uma má enunciação perante a mudança que, entretanto, ocorreu fora da lógica dada pela linguagem.
Voltando à asserção de Wittgenstein, de facto, «a lógica não enche o mundo».
“a morte da parte biológica está quase a ser resolvida?” Ahah… Essa era boa, era… eu sou uma optimista mas você exagera em hiperbolismo…
O meu aluno não estabeleceu nenhuma relação entre a felicidade e a morte. Ele fez duas perguntas: uma sobre a dificuldade de definir e ter critérios para a felicidade – ao contrário do que diz, a felicidade continua a ser a busca mais importante na vida das pessoas, seja que a busquem directa ou indirectamente. Stuart Mill diz que a felicidade é um valor em si mesmo e que todos os outros são instrumentais e se lhe dirigem. Quando perguntamos a alguém porque quer isto ou aquilo, acabamos por perceber que querem porque isso os faz feliz de uma maneira ou de outra e a partir do momento em que respondem, ‘porque me faz feliz’, deixamos de interrogar, pois não faz sentido perguntar a alguém com que fim quer ser feliz. Daí a felicidade ser um valor em si mesmo. De maneira que a pergunta do meu aluno é muito bem posta: “qual é o critério para aferir da felicidade? Existe esse critério ou sou eu que tenho que construir o meu critério?” O adolescente está a projectar a sua vida, por antecipação, as suas metas e a estabelecer as suas prioridades. a tentar perceber o que deve valorizar na sua vida e se fazem sentido certas buscas. Parece-me bem.
A segunda pergunta que ele fez é a mais radical humana: porquê fazer qualquer coisa se no fim o que temos é a morte, o desaparecimento? Está a questionar-se sobre o sentido da vida. Ele compreende bem que a precariedade de tudo o que é humano, inclusive a felicidade, e a brutalidade inevitável da morte tira o sentido às pequenas lutas e vitórias da vida. Na sequência desta conversa na aula, perguntou-me se não achava o suicídio uma opção válida para a questão da ausência de sentido da vida…
Os adolescentes, de há uns 7 ou 8 anos a esta parte, são muito cépticos e desconfiados em relação ao futuro. Acham que não têm oportunidades de ter uma vida decente porque por muito que batalhem quem tem cunhas passa à frente, e acabam a ganhar pouco mais que o salário mínimo e não estão para matar-se a trabalhar por uma vida sem nenhuma satisfação, vivida no limbo. Pensam que os adultos vão estragar o planeta com o seu egoísmo, não querem pôr filhos no mundo porque pensam que estarão destinados ao sofrimento, etc. Muitos questionam-se acerca do que vale a pena e se alguma coisa vale a pena, dado que percepcionam os obstáculos como demasiados, na quantidade e tamanho.
1 – A Beatriz não está a par do que está a ser feito, e já foi conseguido.
2 – Não é apenas uma empresa, são já dezenas. Não são apenas centenas de cientistas, são já milhares (desde os EUA à China). É já uma “indústria”, que movimenta biliões de biliões dollars.
2.1 – Experimente clicar em “Bioquark Reanima Project”:
DEATH INDUSTRY
“How to Raise the Dead: Bioquark’s Astonishing Reanima Project”
MARCH 30, 2017 by OBIT MAGAZINE
“In April 2016, Ira Pastor of Bioquark Inc. received approval from the Institutional Review Board (IRB) – a committee with the authority to approve, monitor, and review biomedical research and practice in the United States – to try to bring people back from the dead. Now, Pastor and his team of scientists fully intend to take advantage of this opportunity”.
3 – Adiante, menciono apenas alguns exemplos:
3.1 – Em 2013, uma equipa da Universidade de Pittsburgh fabricou um coração com células estaminais retiradas da pele.
3.2 – Em 2014, na Universidade de Nova Iorque, foi possível criar Vida a partir de um cromossoma sintético desenhado em computador por uma equipa de sessenta biólogos moleculares.
3.3 – Em 2015 – através da manipulação de proteínas – a equipa do prémio Nobel Erik Kandel conseguiu dar a memória da juventude a um rato idoso que a tinha perdido.
3.4 – Em 2015, no Instituto de Medicina Regenerativa Wake Forest nos EUA, uma bio-impressora 3D conseguiu imprimir estruturas ósseas e musculares que se converteram em tecido vivo funcional com vasos sanguíneos.
3.5 – Em 2016, na Universidade de Sidney “começaram a experimentar medicamentos que substituem os efeitos fisiológicos do exercício físico no corpo humano”.
3.6 – Etc, etc …. até 2022.
4 – Ou seja… da pele fizemos um coração. Com uma bio-impressora fizemos tecido vivo. De proteínas refizemos a memória. Com a bioquímica substituímos os efeitos da atividade física feita com as pernas e os braços.
5 – São centenas de resultados e descobertas como estas que hoje se sucedem exponencialmente. Que nos dão consciência de um Corpo fabricado que, em breve, substituirá aquele a que estávamos habituados.
6 – Vamos substituindo as partes do Corpo por outras. Porém, o agir propriamente humano e a consciência-de-nós não se perdem. Quando nos dói o corpo, afinal dói-nos uma qualquer parte a que um médico chamaria o local da sua especialidade, cuja substituição não afeta a coisalidade do Ser-Humano.
7 – A noção de «corpo» é afinal subjetiva, e não passa de uma «teoria de um conjunto» ou de uma «teoria de um sistema». E esse facto questiona o lugar e o objeto da Antropologia, dominado até ao momento pela grilheta da linguagem e da enunciação.
Estou a par dessas coisas, sim, e até de experiências que recentemente fizeram com ratos onde reverteram a idade genética dos ratos trinta anos, mas isso não vai acabar com a morte. Não é algo do futuro próximo e não sei se alguma vez será. Talvez num futuro próximo acrescente 30 anos à expectativa de vida mas em que condições? Já hoje a maioria vive mais 20 anos que os nossos avós mas vive-os em condições miseráveis, mais tempo dentro dos hospitais que fora e sozinhos.
1 – Não será a Beatriz, a ter necessidade do seu corpo actual, e daquilo que imagina que a felicidade é, para conseguir que a sua vida tenha algum sentido?
2 – É que é mesmo o fim da morte do actual corpo biológico que está para breve (caindo aquela ideia de cor-de-pele, género, maternidade, trabalho, família, e outros pilares que constroem a actual mentalidade e sentido-de-vida).
3 – E é a felicidade, que passa a ser uma coisa menos importante do que outras, até um enfado, perante a necessidade de existência numa escala de tempo-espaço muito maior.
4 – Tal como o seu aluno, não será a Beatriz a necessitar ainda muito que a relação entre Felicidade e Morte (tida como uma coisa que acaba, e faz acabar o sentido) se mantenha?
5 – Não será a Beatriz, numa teimosa resistência contra a mudança, a não permitir a Si própria que essa dependência relacional desapareça? Isso não desmoronaria a sua actual razão de viver, e o tempo que estava a contar que ela duraria quando a escolheu?
6 – A importância que dá à Felicidade não é um julgamento em causa própria, um antropocentrismo (sendo isso que a impede de avaliar sem emoção a questão da Felicidade, “de ser ou não feliz”)?
Nunca estive a falar de mim. Sei muito bem qual é a minha ideia particular de felicidade e como enquadrá-la na minha vida. E não tenho medo da morte.
Quando estava a falar de “Beatriz”, estava a questionar-me a mim próprio, e a todos nós «actuais humanos».
Não era, obviamente, uma pergunta pessoal (tenho a certeza que a Beatriz compreendeu isso, mas cabia-me a mim, dizer isto, para tirar quaisquer dúvidas aos leitores que o questionamento não era em relação à “Beatriz”).
Aqui no “Delito”, não é, afinal, de delitos que cometemos e nos arriscamos?
Ah, não percebi, não. Pensei que estava a falar ‘desta’ Beatriz.
A culpa foi minha, expressei-me mal no comentário.
Este seu Post foi muito interessante, e permitiu olharmo-nos a nós próprios, humanos, perante as mudanças que aí se anunciam.
Olá betariz j a.
Uma pausa para o “coffee break” para dizer-lhe que esses seus alunos são candidatos a deprimidos se continuarem a ler muito pensando mal. É esse o destino deles se não deixarem de ser alunos. A vida está para o homem da mesma forma que a experimentação está para a ciência.
A felicidade é a descoberta que não vem de fora o que está dentro. Assim, só o desprendimento permitirá a renovação do ser. É esta libertação das amarras – desprendimento – que torna o homem livre.
A morte é um fait-diver para justificar a incapacidade do homem em realizar o que deve. Ou até mesmo o pretexto para não o realizar.
Nota: Na Ucrânia não sabem ao que vão. Lutam sem saber que por detrás deles está alguém que diz: resistiremos até ao último ucraniano. É fácil resistir com a carne dos outros para satisfazer interesses próprios.
Beijufas
Já agora: O beijo que lhe dou é meu. Só nos pertence o que damos. As casitas e outras merditas não nos acompanharão na morte. Na morte só levaremos o que dermos.
Eu não sou um livro de receitas nem dou respostas para os problemas da vida dos alunos, nem lhes digo o que devem pensar. E eles não pensam mal como diz, estão a pôr-se à experiência a si mesmos e ao mundo através do pensamento. É uma aula de filosofia.
na morte só levamos a alma , convém que vá limpinha
almas limpinhas 🙂
As almas limpinhas são para aqueles que admitem que é mais importante contemplar o pecado (errar o alvo) que a estupidez.
O seu aluno deu uma resposta estúpida e convém analisar a origem da estupidez e não o pecado (erro) que se evidencia. A estupidez tem várias origens, uma delas pode ser a tradição.
Beijufas
O meu aluno não deu resposta nenhuma, só fez perguntas.
“Este ano tenho um aluno um bocado obcecado com a questão da felicidade ser impossível face à nossa condição de mortais.” (sua afirmação)
Uma resposta interrogativa, neste quadro, é uma afirmação.
O conceito de felicidade tem várias dinâmicas ao longo da vida, consequentemente, é circunstancial, melhor, a felicidade é mutável. Se ele antecipa a morte para bloquear esta dinâmica, então, enquadra-se no que eu comentei.
Não existem receitas, mas tópicos que devem ser abordados quando o tema se apresenta.
Ele é obcecado com a questão de maneira que faz muitas perguntas para tentar esclarecer a questão para si mesmo e não por ter respostas. É um adolescente com 16 anos, procura compreender-se a si e à vida. Parece-me óbvio.
Óbvio é. Mas o óbvio não anula a indicação.
tem de ir à psicologia para responder ao seu aluno : locus interno e locus externo.
as pessoas de locus interno tendem a sentir-se felizes , já os outros , dado dependerem do exterior e do olhar do outro , andam sempre em crise -:)
explica que à medida que assumimos ou perdemos o controle sobre a nossa vida ( velhice e problemas de mobilidade , por exemplo ) aumente ou diminua a sensação de bem estar.
Essa explicação não é um bocadinho simplista? Pessoas que nascem com tendência para a felicidade por serem introvertidas e pessoas que nascem para a crise por serem extrovertidas?
Concordo que pessoas introvertidas possam ter mais recursos internos para lidar com a infelicidade, se os desenvolveram, mas isso é diferente de sentir-se feliz, parece-me.
locus interno não tem a ver com introversão , tem a ver com acharmos ser responsáveis pelo que nos acontece , não ser “vitima ” das circunstâncias ou de outros,
Ah, ok, ignorância minha, mas então nesse caso se fazemos más escolhas, como depois nos responsabilizamos por elas é um inferno de infelicidade, ou não?
não precisamente , há quem encare o fracasso numa decisão ( por exemplo , um casamento que acaba) como uma aprendizagem para não cometer erros maiores no futuro. um aviso..e parta melhor preparado para outra -:)
Ah sim, essa sou eu. Olho para trás para aprender mas não para ficar lá estacionada.
digamos que passar a vida a tentar satisfazer expectativas sociais é uma fonte de infelicidade segura.
Isso é verdade e desse mal não sofro, felizmente 🙂