O revolucionário burguês


Cristina Torrão,

2021-09-09 Otelo Sábado nº 906 01.jpg

Otelo Saraiva de Carvalho era uma figura cheia de contradições e, por isso mesmo, polarizava, como se viu por ocasião da sua morte. Passado um ano, venho relembrar uma reportagem publicada na revista Sábado, a 9 de Setembro de 2021.

Otelo casou com Maria Dina Afonso Alambre a 5 de Novembro de 1960. Tiveram duas filhas e um filho. Quando Otelo confessou à mulher que, apesar de ainda a amar, amava igualmente outra, o casamento manteve-se. Maria Filomena Outeiro, divorciada, funcionária administrativa na cadeia de Caxias, conheceu Otelo quando ele aí esteve preso, na segunda metade da década de 1980. Otelo e Dina estiveram perto do divórcio, mas, segundo a reportagem da Sábado, «algo estranho se foi instalando com o tempo» e «Otelo assumiu publicamente as suas duas mulheres».

Quando esta reportagem foi publicada, segui uma pequena discussão, no Facebook, entre quem condenava a situação, por significar a subjugação de duas mulheres por parte de um homem, e quem dizia não ver ali nada disso. Afinal, a esposa tinha conhecimento, as duas mulheres conviviam pacificamente com o triângulo amoroso, eram três adultos que tinham tomado uma opção de vida. Elogiava-se, acima de tudo, a rejeição das normas burguesas, tradicionais.

No próprio texto da reportagem, se lia este ser «um a(c)to de enorme generosidade e de amor», por parte de Dina, «por muito que cause secreta repulsa na moralidade vigente, fértil território da religião, por incompreensível que possa parecer ainda hoje».

No entanto, atendendo a outros pormenores do artigo, vemos que não foi assim tão pacífico. Na página 33, na legenda de uma fotografia de Sérgio, o filho de Otelo Saraiva de Carvalho, diz-se que ele «teve grandes dificuldades em conviver com a vida dupla do pai. Após a morte da mãe, os problemas continuaram, quando Otelo se mudou em definitivo para a casa de Mena». Mais à frente, lê-se que «por causa desta mudança, Otelo terá perdido o contacto pessoal com os filhos, que nunca encararam bem esta vida dupla do pai». Fala-se igualmente de «ressentimentos que ficaram (…) O apartamento de Carnaxide era uma barreira intransponível para eles, que nunca tiveram relação com a outra família».

A alusão a «ressentimentos» e ao desconforto sentido pela filha e pelo filho de Otelo em relação à vida dupla do pai (uma das filhas morreu ainda criança) denota que a mãe deles, apesar de se ter acomodado, estava longe de viver pacificamente com a relação a três. E transmitiu essa revolta aos filhos (mesmo que involuntariamente). Caso houvesse uma aceitação sem reservas, o assunto não seria tabu, as duas famílias talvez tivessem até contacto, pelo menos, os filhos, que não sentiriam tanta repulsa.

Rejeição da «moralidade vigente, fértil território da religião»? Parece-me precisamente o contrário. No Portugal salazarista (e não só), sempre houve casos de homens com vida dupla, com conhecimento, ou não, das esposas. Caso estas soubessem, aceitavam, na maioria dos casos, engolindo a revolta. Afinal, raramente um homem era condenado pela sociedade por tal motivo.

Ou seja: o obreiro do 25 de Abril era um verdadeiro embaixador da estrutura patriarcal, dono de uma mentalidade bem tradicional e burguesa.

44 comentários em “O revolucionário burguês”

  1. Parece estar a fazer especulação para chegar a uma conclusão. A menos que tenha seja conhecida e confidente de algum dos intervenientes.
    Com os mesmos factos e uma especulação diferente chegava a conclusões diferentes.
    Se calhar é melhor deixar os mortos em paz.

    1. As minhas conclusões têm como base o artigo da “Sábado”, do qual citei algumas passagens. Nem mais, nem menos. O caso, como explanado, não é raridade, numa sociedade patriarcal.

      1. “Parece estar a fazer especulação para chegar a uma conclusão.”

        Sim. O objectivo parece ser poder usar a acusação revolucionária “patriacal” .
        Para isso a autora reage como uma “religiosa” ao facto que o Otelo passou a gostar mais de outra pessoa…e acusa que tal é “patriacal”…

        Ainda mais rídiculo o texto fica atribuindo o “patriarcado” à burguesia, enquanto os países “revolucionários” nunca tiveram um governo com mulher líder ao contrário dos governos burgueses.

        Os conservadores ingleses preparam-se para escolher talvez a 3º mulher líder e primeiro-ministro. Os progressivos e revolucionários ingleses e não só que lêem o The Guardian nunca tiveram alguma…

  2. Quem na vida se sente em palco desempenha sem esforço uma variedade de papéis.
    Ter público, ainda que em sofrimento, é o essencial a todo o histrião.

  3. Não há, necessariamente, estrutura patriarcal. Nada nos diz que Otelo não teria aceitado se tivesse sido o contrário – a sua mulher a ter um outro homem. Nada nos diz que a mulher de Otelo somente tivesse aceitado por reverência ao homem, por achar que os homens, e somente eles, têm direito a tais coisas.

  4. “…. dono de uma mentalidade bem tradicional e burguesa.”, e não só, mais o “… apartamento de Carnaxide..”

  5. Sérgio, o filho de Otelo Saraiva de Carvalho, «teve grandes dificuldades em conviver com a vida dupla do pai

    Os filhos não têm nada que passar opinião sobre a vida amorosa dos pais.

    Vou contar uma história verdadeira. O meu bisavô paterno casou-se com 63 anos de idade com uma miúda de 18. Durante os vinte anos que o casamento durou, até ao falecimento dele, fez-lhe dez filhos. Quando ele morreu ela, ainda razoavelmente jovem (bem menos de 40) arranjou outro homem, com quem se quis casar. O filho mais velho, já um homem, impediu-a.

    E outra história verdadeira. O filho mais novo desse meu bisavô teve três filhos. Quando estava já idoso, e viúvo, arranjou uma senhora, também viúva, que o ajudava a tratar da casa. Um e outro ganharam afeição mútua e um dia decidiram casar. Esse meu tio-avô foi impedido pelos seus três filhos de se casar.

    De onde se vê que, pois claro, os filhos não têm nada que meter prego nem estopa na vida amorosa e matrimonial dos pais.

  6. Há muitos filhos que fazem uma vida semelhante: vivem metade da semana com o pai, a outra metade com a mãe.
    Se se aceita que um filho faça isso, porque não se há de aceitar que um marido o faça?

  7. “dono de uma mentalidade bem tradicional e burguesa.”
    Parece-me difícil afirmar isto e outras coisas que citou. Não o conheci pessoalmente, não sei como as coisas se passavam. Mas que se diria se, aqui há umas dezenas de anos, dois homens casassem? Ou, simplesmente, vivessem maritalmente? Quando se procede em desacordo com os hábitos vigentes pode haver, e em geral há, problemas que podem ser graves.
    A tal ideia de subjugação de duas mulheres parece-me estranha, salvo prova em contrário. Não vejo, em princípio, subjugação nenhuma. Eles entendiam-se, era lá com eles. Que as coisas não fossem fáceis para os filhos não me surpreende. E mesmo para eles.Tal
    como os filhos adoptivos de casais homossexuais encontrarão problemas complicados, acredito eu. Em matéria de hábitos, entendo que cada um faça o que gostar desde que não viole as leis.
    Incidentalmente tenho um amigo que tem duas mulheres. Não se trata de um intimo, não conheço uma das mulheres e a outra pouco a vi. As duas mulheres vivem em aldeias diferentes e ele passa uns tempos com uma e outros com a outra. Não sei o que vai na intimidade deles mas na aparência não há problema nenhum. No tempo de Camilo suponho que iriam para a cadeia, não? Agoira é lá com eles.
    No caso de Otelo não vejo que a situação tenha ver com ele ser revolucionário ou não. Só sei que contribuiu em muito para termos Democracia (de que gosto) e que viveu com duas mulheres (e não sei se mais, nem interessa para o caso).

    1. 1. Otelo não procedeu em desacordo com os hábitos vigentes. Por isso, a sua comparação com o casamento de dois homens, em tempos passados, não faz sentido. A sociedade patriarcal sempre tolerou homens que levassem vida dupla.
      2. Se “eles se entendessem”, não penso que fosse difícil para os filhos. Já tenho observado em casais amigos, com filhos, que, por exemplo, se separam: quando uma das partes aceita mal a separação, os filhos tendem a ter mais problemas; caso a separação se dê de forma pacífica, os filhos aceitam melhor. Não sei se os filhos adoptivos de casais homossexuais encontram problemas complicados. Seria necessário fazer uma investigação e não sei se já existe alguma. Sei que vários filhos adoptivos de casais heterossexuais encontram problemas complicados. Isso está provado e conheço um caso.
      3. No tempo de Camilo iriam para a cadeia por causa disso? Não me parece. A menos que alguém quisesse prejudicar o homem envolvido e arranjasse provas do caso. Normalmente, situações dessas eram aceites.
      4. Cada um faz o que quer – de acordo. Mas deve ter cuidado com os sentimentos e emoções de outras pessoas envolvidas, como os filhos, por exemplo. Penso que Otelo nem sequer pensava no que sentiriam os filhos. Não é contra a lei, mas moralmente deixa a desejar.
      5. Sim, ele contribuiu para a democracia, da qual eu também gosto.

      1. ” No tempo de Camilo iriam para a cadeia por causa disso?”
        Posso estar enganado mas pensava que nesse tempo o adultério era considerado crime. Suponho que Camilo teve graves problemas por causa da Ana Plácido.

        1. Ser considerado crime não implica que não seja aceite socialmente.

          Vou-lhe dar um exemplo, embora não se trate de adultério, mas de um crime que raramente era punido. Na aldeia transmontana onde o meu pai nasceu, houve um jovem, nos anos 1960, que foi para uma casa de correcção durante dois anos, por ter engravidado uma menor (ele também era menor). Ora, eu faço pesquisa familiar nessa aldeia, estou a fazer o levantamento de todas as famílias e já recuei ao século XVII. Há muitos filhos de mães solteiras, muitas delas menores. Em alguns casos, houve casamento entre os progenitores, por vezes, passados alguns anos; noutros casos, as crianças ficaram mesmo de pai incógnito, embora, por vezes, se soubesse quem era o pai. Algum desses “pais” foi preso? Não me consta, O caso dos anos 1960 deve ser quase único, o meu pai, que nasceu em 1937, também não conhece mais nenhum, nem nunca ouviu falar. E porque é que neste caso o rapaz foi detido? Porque o pai dele o proibiu de casar com a rapariga e o pai desta, revoltado, denunciou o caso à Guarda. Ou seja: um crime cometido muitas vezes, mas aceite pela sociedade e, por isso, não punido. Com o adultério era parecido. Ou acha que todos aqueles que cometiam adultério eram condenados por isso?

    2. “Só sei que contribuiu em muito para termos Democracia (de que gosto)”

      Não contribui nada para Democracia, contribui para construir outra Ditadura ainda pior do que a que tinhamos. E felizmente falhou.

  8. Repare-se que Otelo cumpria os preceitos do Islão: não tinha mais do que quatro mulheres, e tratava-as a todas igualitariamente (isto é, não privilegiava uma em relação às outras).
    Ao contrário dos precitos cristãos tradicionais, que dizem que um homem só deve ter uma mulher, ou que, caso tenha mais do que uma, deve privilegiar uma em relação a todas as outras – casando-se somente com ela e aparecendo em público somente com ela.
    Atualmente permite-se e aconselha-se que os filhos façam o mesmo – que passem o mesmo tempo com o pai e com a mãe, caso estes vivam separados.
    De onde se vê que o Islão tem preceitos morais muito mais atuais e muito mais justos que os cristãos tradicionais.

    1. Maomé, além de mensageiro(*) de Alá foi um líder da sociedade do seu tempo e é no seu tempo que têm de ser compreendidas as regras do Islão.
      Diz-se que foi influenciado por um monge eremita, cristão nestoriano, que teria conhecimentos muito avançados. Regras como não comer carne de porco e lavar mãos e pés antes de rezar são regras básicas de higiene, e a carne de porco naquele clima era uma fonte de doenças.
      Maomé cresceu numa época caótica. Os impérios bizantino, persa e sassânida estavam em decadência, pelo que inexistia um poder efectivo. Os árabes, divididos em tribos, guerreavam-se há cerca de quatro séculos. Naturalmente a guerra era uma actividade exclusivamente masculina e, por isso, havia uma sobrepopulação feminina “grosso modo” de 4 para 1. Assim a regra de Maomé era, por um lado uma limitação moralista para os líderes que tinham haréns – regra que nunca foi acatada desde o próprio Maomé até aos sultões turcos e mesmo até à actualidade.- e uma regra social para não deixar mulheres, viúvas e orfãs sem uma protecção masculina. Da mesma maneira, quando Maomé estipulou que uma mulher valia metade de um homem – as irmãs herdavam metade dos quinhões dos irmãos e era necessário o testemunho de duas mulheres para igualar o de um homem – estava a promover a paz social. Antes dele as mulheres não tinham qualquer direito e se repudiadas pelos maridos, que não escolhiam, voltavam a ficar subordinadas ao pai. Sendo na época inaceitável igualar a mulher ao homem, Maomé fez o equilíbrio possível. Tenho por ele uma muito grande admiração.
      Mas o que foi admirável no século VII, não faz qualquer sentido hoje. Há frigoríficos, pelo que a carne de porco já não seria um perigo. Calçado e cidades onde já não há dejectos animais para serem pisados nos caminhos, não exigiriam a lavagem dos pés (as mãos continuará a ser boa prática e os ocidentais recomendam-na antes das refeições). E a poligamia, mesmo a bigamia, sem entrar em casos particulares, não me parece uma boa ideia nem sequer uma ideia .que promova a paz social.
      (*) Nós traduzimos por profeta mas o mensageiro está acima do profeta. Para os muçulmanos Jesus foi um profeta.

      1. a guerra era uma actividade exclusivamente masculina e, por isso, havia uma sobrepopulação feminina “grosso modo” de 4 para 1

        Não sei como se pode saber tais detalhes sobre a demografia da Arábia no século 7. Tenho muitas dúvidas sobre tal informação. Acredito que houvesse sobrepopulação feminina, mas tenho fortes dúvidas de que chegasse a um rácio tão elevado.

        a poligamia não me parece uma boa ideia

        A mim também não. Porém, parece-me uma boa ideia que, havendo poligamia, o homem (supondo que é ele que é polígamo) trate todas as suas mulheres de forma igual, sem privilegiar uma em relação às restantes. Que foi aquilo que Otelo fez. Que não é aquilo que se recomenda na nossa sociedade. E que é o mesmo tratamento que atualmente se recomenda aos filhos de pais separados, isto é, que mãe e pai tenham os mesmos direitos sobre eles.

        Da mesma forma que não se recomenda que um casal com filhos se separe, mas se prescreve que, caso haja separação, a mãe e o pai devem ter o mesmo direito de conviver com os filhos (e estes devem ter o mesmo direito de conviver com os dois). Dessa mesma forma, podemos discordar da poligamia, porém prescrever que, caso ela exista, o polígamo trate de forma idêntica todas as suas mulheres – que foi aquilo que Maomé fez.

        1. Pesquisas históricas mais recentes têm vindo a provar que a guerra não era uma actividade exclusivamente masculina desde tempos muito antigos. Terá havido guerreiras em todos os povos e nações. E parece que não tão poucas quanto isso…

          1. “Terá havido guerreiras em todos os povos e nações. E parece que não tão poucas quanto isso…”
            Não acredito. Se é verdade, eu digo: tontice das mulheres. Não é por aí que eu, e muitas outras, quero ir. Felizmente no meu tempo as mulheres não eram chamadas para a guerra, senão eu teria participado na guerra colonial.
            Custa-me a acreditar que no tempo da guerra corpo a corpo e à espadeirada, as mulheres andassem nisso. Podiam lutar contra homens, ou combinava-se com o inimigo para ser mulheres contra mulheres (até para evitar toques impróprios)?

          2. Manuela, já vi documentários e li artigos sobre isso. Se tiver tempo, irei averiguar melhor e escreverei aqui sobre o assunto. Uma coisa é certa: a guerra não era exclusivamente masculina, como se pensa.

          3. Não estou ao corrente de pesquisas históricas recentes. Certamente que houve mulheres guerreiras e, hoje em dia, há vários exemplos desde as sabras dos kibbutz israelitas que povoaram o imaginário da minha geração adolescente, às actuais curdas. Mas são casos isolados e o único cenário em que são significativas em número é na banda desenhada.
            No caso dos árabes, certamente que não existiram. Aliás a interacção de mulheres com a guerra era de tal forma inexistente que, quando uma mulher, Aisha, viúva de Maomé, instigou e assistiu a uma batalha – opunha-se a Ali, o neto mais velho de Maomé, pela filha Fatimah – sentada num dromedário, essa batalha ficou na história como a batalha do Camelo.

        2. 1. Pode-se saber sobre a demografia do tempo de Maomé lendo.
          2. Casos particulares de bigamia não me interessam. Ou, pelo menos, não me interessam para discussão pública.
          3. O pai e a mãe terem o mesmo direito de conviver com os filhos é um sintoma da doença que corrói esta sociedade. Devia ser exctamente ao contrário. As crianças é que teriam direito à atenção de ambos os pais (supondo pais normais e não aberrações). As discussões legais sobre direitos de visita, deveriam ser sobre deveres de visita.
          4. Maomé nunca tratou de forma igual as suas mulheres. Khadijah, enquanto viveu foi a única e era a autoridade do casal. Fôra patroa de Maomé e tudo indica que continuou a sê-lo depois de casar. Depos Aisha tornou-se de tal forma dominante que se acredita que conseguiu influenciar a sucessão de Maomé. Na fase final Maomé, ligou-se a uma escrava cristã de boa família, que lhe tinha sido oferecida com a irmã pelo bispo copta do Egipto que teria 18 anos ou menos e lhe deu um filho, Abdallah que morreria com 6 meses ou ano e meio. Essa preferência causou uma revolta doméstica das outras mulheres. Teve também uma relação complicada com uma delas, Safiyah, judia e orfã de guerra que se submeteu a Maomé mas sempre recusou converter-se ao islamismo.

  9. diz-se que
    a sua vida era peça teatral dos seus tempos de comediante da Mocidade Portuguesa, juntamente com Victor Constâncio

    1. Diz-se?
      Então o Constâncio, filho de um humilde empregado de pastelaria, que fez todo o ensino básico, secundário e superior em Lisboa foi fazer a Mocidade Portuguesa em Moçambique com o Otelo?

  10. “Quando ele morreu ela, ainda razoavelmente jovem (bem menos de 40) arranjou outro homem, com quem se quis casar. O filho mais velho, já um homem, impediu-a.”
    Calhando, pensava hummmmm ele mais os outros nove irmãos seriam serviçais do padrasto.

  11. o obreiro do 25 de Abril era um verdadeiro embaixador da estrutura patriarcal, dono de uma mentalidade bem tradicional e burguesa.

    Não é o único esquerdista aburguesado. Na verdade são quase todos assim, porque (defendo esta teoria há muito tempo) o comunismo nasce da inveja e tem um impulso vingativo e suprematista. E quando se instalam nas suas vidinhas confortáveis que o regime lá lhes proporciona como prémio de andarem a atasanar a vida a toda gente, não há nenhum mundo novo: é o mesmo e normalmente bem pior.

  12. Tive um caso desses na família, ou perto. Esse meu familiar, para gozo da aldeia, ia diariamente a casa da amante encostado às paredes, para não ser visto. Até a hora era sabida.

    Os filhos nunca aceitaram esta situação. Quando o pai ficou viúvo opuseram-se a que a outra fosse viver para a casa que tinha sido da mãe deles.

    O que aquele meu familiar fez foi arruinar a vida de duas mulheres. A primeira foi tratada sempre de viés (ainda que mandasse nele). A segunda nunca passou disso. Ambas aceitaram com resignação o infortúnio.

    Na moral desses tempos, que não são tantos quanto isso, a ilação era simples: aquele homem levou uma vida porca, não foi um bonus pater familia. Nos tempos que correm, de poliamor, de varíola dos macacos, de clubes de troca de casais, foi um homem adiantado para o seu tempo. Um modernaço.

    1. “Tive um caso desses na família, ou perto” Na família? Eu tive comigo próprio. Vi-me grego com duas gajas ao mesmo tempo.

      1. Eu vi-me preto cacausiano, elas eram guineensas cacausianas.
        Aprendam, tininha e lionzinho, o mundo é redondo, mas visto de longe, e apreciados os seus ocupantes mais recentes, parece mesmo cuadrado.

  13. Quando oiço falar em sociedade patriarcal, fico incomodado. É certo que não tanto como quando oiço falar de socialismo mas de qualquer forma incomodado.
    Suspeito sempre, mesmo quando a aproximação vêm de mansinho, que está em marcha o confessado programa da activista Titania McGrath: só haverá justiça no mundo quando as mulheres dominarem (ou tiverem mais direitos?) do que os homens.
    Diz Cristina Torrão, de mansinho, que não existe opróbio social para o bígamo. Mas, e o restante opróbio? Quando o homem sabe e aceita que a mulher dorme com o homem do talho e por isso podem comer bifes uma vez por semana. E, muito mais frequentemente do que se pensa, com o superior hierárquico. Chefes que assediam mulheres, têm todo o opróbio que merecem mas, e o contrário? Na minha vida profissional vi mulheres que competiam entre si para seduzir o chefe. Serão poucas? Talvez. Mas não creio que chefes que assediam as subordinadas sejam uma maioria
    No meu já longínquo tempo, haviam três modelos de domínio feminino.
    1. A versão animalesca. Queria um vison no armário, um jaguar à porta, um tigre na cama, e um camelo para pagar isso tudo.
    2. A maximalista. Queria uma casa grande, uma marido, dois filhos homens, um quarto para o pai viúvo e ainda um quarto de hóspedes para um antigo admirador que nunca casou
    3. A versão romântica. Cidades com sinaleiros fardados como finais de ópera de Siegfried e ruas perfumadas com Chanel Nº 5.
    Esta última seria uma paródia à ideia, generalizada em certos meios, que se fossem as mulheres a mandar haveriam menos guerras. Lembro-me logo de Golda Meir e Margareth Thatcher. Que as mulheres são menos corruptas do que os homens. Lembro-me logo da lindíssima Benazir Bhutto. Que as mulheres são mais respeitadoras de leis e direitos do que os homens. Lembro-me logo de Jacinda Ardern que só foi ultrapassada na condução da luta contra a pandemia por Xi Jinping.
    Seria o matriarcado preferível ao patriarcado? Estou a lembrar-me do vasto império de conquista e escravatura que encontrámos em Angola, o da célebre Rainha do Congo.

    1. Não acho que as mulheres sejam melhores que os homens, nem defendo o matriarcado. Acredito que o trabalho em conjunto, de igual para igual, é que dá os melhores resultados. O mundo controlado exclusivamente por homens é tão mau como o seria se exclusivamente controlado por mulheres.

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